200 livros: Militares no Governo – da primeira república até os dias de hoje

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Falar sobre os militares no poder parece ser um ato cada vez mais necessário no Brasil, mesmo que isso nos faça reabrir chagas do passado que não gostaríamos mais de ver abertas. Não se trata somente de comentar, por exemplo, sobre a nossa terrível ditadura militar (1964 – 1985), mas também de observar que os militares estão no governo brasileiro há muito mais tempo do que normalmente imaginamos. Pense no seguinte: apesar do movimento de ruptura da burguesia brasileira com a monarquia no final do século XIX, o golpe que solapou o Império e instituiu a República só aconteceu porque os militares o fizeram. O Estado Novo de Getúlio Vargas, apesar do apoio massivo da população, só aconteceu porque houve apoio militar. O golpe que derrubou João Goulart só aconteceu, obviamente, por conta dos militares. Basta colocar uma lente mais nítida para enxergarmos que a sombra dos militares no poder está conosco desde o começo da nossa frágil República. Ainda mais: ao olharmos o governo atual, percebemos também que a redemocratização não foi suficiente para tirá-los de grandes frações do poder. 

Pensando nisso, a seleção de livros deste post não pretende, de maneira alguma, encerrar o debate, mas justamente o contrário. Os livros selecionados, boa parte deles obras contemporâneas, contam histórias de resistência que não podiam ser contadas durante os nossos períodos autoritários. Não se trata, estritamente, da questão de explicar, por exemplo, por que o golpe de 1964 aconteceu, mas de entender que são os militares que mobilizaram o golpe – muito por consequência do poder que tinham desde o começo da República. 

A lista traz livros que abrangem desde o período da Primeira República, passando pelo Estado Novo, bem como, obviamente, pela Ditadura Militar, até chegar aos os dias atuais, com questões que ainda não foram resolvidas. Basta pensar que a Comissão da Verdade brasileira foi criada somente em 2011, depois de quase 30 anos da Constituição de 1988. Esse é apenas um exemplo de como o debate acerca dos militares no governo demorou para acontecer e sobre como isso imunizou crimes, apagamentos, reconstruções e construções de identidade nacionais que aconteceram durante o(s) período(s). É a isso que a lista se propõe: à abertura de um debate que infelizmente, até pouco tempo atrás, era marginal; e que agora, mais do que nunca, prova necessário para não repetirmos velhos erros.


Triste fim de Policarpo Quaresma (1915)

de Lima Barreto

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. Rio de Janeiro: Typ. Revista dos Tribunaes, 1915.


Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu no Rio de Janeiro, em 1881. Foi jornalista, funcionário público e escritor. Escreveu para periódicos como Correio da ManhãGazeta da Tarde e Jornal do Comércio. Em 1907, fundou a revista Floreal, a qual publicou crítica e literatura, além de ter servido como veículo folhetinesco para as Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), primeiro romance do autor. Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) também seguiu o mesmo percurso, lançado em forma de folhetim durante o ano de 1911, e publicado como livro em 1915. Algumas outras obras relevantes do autor são Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919), Os Bruzundangas (1923) e Clara dos Anjos (1948), esta última lançada postumamente.

Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) é a obra mais celebrada de Lima Barreto. Nela, o autor desenvolve com profundidade o tema da idealização nacional. Policarpo, protagonista do romance, é um defensor do Brasil em seus variados âmbitos, como a terra, seu povo e seus costumes. Mas o confronto dele e de seu ideal com a burocracia estatal, a classe política e a sociedade resulta na percepção da ingenuidade de sua visão acerca do país. O livro traz uma concepção cética e pessimista do Brasil, corroborada em outros personagens da narrativa, como Ricardo Coração dos Outros, um artista pouco reconhecido pela crítica e pelos círculos sociais, e Olga, a afilhada de Policarpo que se casa menos pela realização do amor que pela obrigação social. Ainda há espaço para que o narrador teça comentários críticos e mordazes sobre o positivismo, o sincretismo religioso, a transformação urbana da cidade do Rio de Janeiro e sobre a problemática racial pós-abolição da escravidão. Por fim, como é afirmado pelo crítico literário Alfredo Bosi, a grandeza de Triste fim de Policarpo Quaresma está no personagem principal, que não é construído como um tipo imóvel, e no desencontro entre o que o crítico nomeia como “um” ideal e “o real”.


Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. (1987)

de José Murilo de Carvalho

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foiSão Paulo: Companhia das Letras, 1987.


José Murilo de Carvalho nasceu em Piedade do Rio Grande, Minas Gerais, em 1939. Cursou Sociologia e Política na Universidade Federal de Minas Gerais (1965) e realizou seu mestrado (1969) e doutorado (1975) em Ciência Política na Universidade de Stanford. Foi professor da Universidade Federal de Minas Gerais e do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, assim como professor visitante de diversas universidades internacionais. Em 1997, tornou-se professor titular de História do Brasil da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em sua vasta produção bibliográfica encontramos obras centrais para compreender o período do Brasil, Imperial, como A construção da ordem: a elite política imperial (Campus, 1980) e Teatro de sombras: a política imperial (Edições Vértice, 1988), assim como obras sobre os líderes do Partido Conservador Bernardo Pereira de Vasconcelos e Visconde do Uruguai (Editora 34, 1999 e 2002).

Em Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, José Murilo de Carvalho se vale da expressão de Aristides Lobo, em 1989, para indicar que o povo brasileiro não teria participado do processo de Proclamação da República. Momento de profundas transformações da sociedade brasileira, da abolição de 1888 e da proclamação da República de 1889, a conjuntura é sintetizada por José Murilo a partir da cidade do Rio de Janeiro por meio de um estudo de antropologia urbana, de crítica cultural e de análise política. Segundo ele, conduzida pelos militares, a República produz “a exclusão da massa dos cidadãos”, de um projeto de modernidade em que o povo comum era apenas um espectador. 

Os Sertões (1902)

de Euclides da Cunha

CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1. ed. Rio de Janeiro: Laemmert & Cia, 1902.


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Euclides  da Cunha nasceu em 1866, em Cantagalo, Rio de Janeiro. Teve formação em engenharia militar, porém mais tarde, em 1888, foi excluído do exército por conta de seus ideais republicanos. Passou então a colaborar em A Província de São Paulo, futuro jornal O Estado de S. Paulo. Com a proclamação da República, ele foi reconduzido ao exército e continuou escrevendo para jornais. Deixou o exército em 1896 e no ano seguinte foi enviado para cobrir a campanha de Canudos, na Bahia, onde testemunhou como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo os últimos dias do conflito. Durante esse período, escreveu artigos e observações que em seguida o auxiliaram na elaboração do livro Os Sertões (1902), obra que alcançou repercussão nacional e obteve prestígio entre a crítica e o público em geral, além de render ao autor uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Entre outras obras que escreveu, encontram-se o Relatório sobre o Alto Purus (1906) e À margem da História (1909), ambos provenientes da expedição amazônica em que, designado pelo Barão do Rio Branco, chefiou a Comissão de Reconhecimento de Alto Purus.

Os Sertões são um dos maiores livros da cultura literária brasileira, sendo uma descrição inestimável da campanha de Canudos, conflito armado (ocorrido de novembro de 1896 a outubro de 1897) entre o exército brasileiro e a comunidade de Canudos, conduzida pelo líder religioso Antônio Conselheiro. A narrativa não tem apenas cunho histórico, mas também é detentora de grande valor sociológico, antropológico, geográfico e literário. É dividida em três partes, sendo que a primeira enfoca o meio geográfico, a segunda o elemento humano, e a terceira as expedições enviadas pelo governo republicano contra Canudos. Assim, os três pilares em que Cunha se baseia para retratar os acontecimentos da época são a terra, o homem e a luta.


A revolução de 1930: história e historiografia (1970)

de Boris Fausto

FAUSTO, Boris. A revolução de 1930: história e historiografia. São Paulo: Brasiliense, 1970. 


Boris Fausto nasceu em São Paulo em 1930 e se formou em Direito (1953) e em História (1966) pela Universidade de São Paulo. Em 1968, defendeu sua tese de Doutorado em História, com uma pesquisa sobre a revolução de 1930. Profissionalmente atuou durante décadas como advogado da consultoria jurídica da USP, tornando-se professor colaborador do Departamento de Ciência Política somente depois de sua aposentadoria, entre 1988 e 1997. Sua produção bibliográfica tem relevantes contribuições sobre a história de São Paulo, como com os livros Trabalho urbano e conflito social (1977), Crime e cotidiano: A Criminalidade em São Paulo, 1880-1924 (1984) e Historiografia da imigração para São Paulo (1991). Foi também coordenador da coleção História Geral da Civilização Brasileira, coleção idealizada e iniciada por Sérgio Buarque de Holanda, assim como colunista da Folha de S. Paulo e da Revista Piauí.

O livro A revolução de 1930: história e historiografia, resultado de sua pesquisa de doutorado, transformou-se em uma das principais versões sobre o sentido da revolução de 1930. Ela se contrapôs à tese de que o processo revolucionário teria sido conduzido pelas classes médias, esposada por autores como Virgílio Santa Rosa e Nelson Werneck Sodré, como também à tese de que a revolução era resultado da ascensão da burguesia nacional, presente em autores como Wanderley Guilherme dos Santos e Ruy Mauro. Boris Fausto defende a perspectiva de que em 1930 formou-se um Estado de compromisso, produzido a partir das cisões lideradas pelos militares dissidentes. Esse Estado seria formado por frações de classes, sem a existência da hegemonia de um único grupo.  


Os fuzis e as flechas: história de sangue e resistência indígena na ditadura (2017)

de Rubens Valente

VALENTE, Rubens. Os fuzis e as flechas: história de sangue e resistência indígena na ditadura. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


Rubens Valente é jornalista, natural de Goioerê, cidade do Paraná, nascido em 1970. Trabalha no jornal Folha de S. Paulo desde 2001 e, desde 2010, como repórter do jornal na sucursal de Brasília. Colunista do UOL, foi incluído na lista “formadores de opinião”, composta de jornalistas críticos ao governo Bolsonaro, elaborada pelo relatório “Mapa de Influenciadores” da empresa BR+ Comunicação, por solicitação do governo federal. Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais e é autor de Os fuzis e as flechas como também de Operação banqueiro. 

Os fuzis e as flechas, livro publicado em 2017, apresenta uma investigação jornalística sobre centenas de mortes de indígenas ocorridas durante a ditadura militar (1964-1985). Tendo percorrido aldeias indígenas, entrevistado sertanistas, missionários, indigenistas e os próprios indígenas, Valente levantou evidências sobre omissões e falhas de políticas do governo militar. Tragédias sanitárias provocadas também por conta dos grandes projetos do governo militar, como a construção da rodovia transamazônica. Essas evidências foram cotejadas com documentos oficiais de órgãos como os do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), da Fundação Nacional do Índio (Funai), do Ministério do Interior e da Assessoria de Segurança e Informação (ASI). O relato recupera eventos como a remoção forçada, dos Xavante do Mato Grosso, por exemplo, e os relatos de violência aos direitos humanos contidas no relatório Figueiredo. Trata-se de um livro cuja temática, infelizmente, é atualíssima.  


Dois Irmãos (2000)

de Milton Hatoum

HATOUM, Milton. Dois Irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.


Milton Assi Hatoum nasceu em Manaus em 1952. É escritor, tradutor e professor universitário. De ascendência libanesa, assim que terminou seus estudos secundários foi para São Paulo cursar Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP. Enquanto estudante, esteve envolvido com o DCE da USP na resistência contra a Ditadura Militar e, por essa razão, foi perseguido pelo DOPS. Ao receber uma bolsa de estudos do Instituto Ibero-americano de Cooperación, estudou em Barcelona e Madri e, logo depois, em Paris, na Universidade Paris III, onde concluiu sua pós-graduação em estudos literários. Foi professor de língua e literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas e de literatura brasileira na Universidade da Califórnia em Berkeley. Reconhecido pela sua prosa poética embebida pela memória, sua estreia literária foi com Relato de um certo oriente em 1989, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de melhor romance em 1990. É ainda autor de Dois Irmãos (2000), Cinzas do Norte (2005) e Órfãos do Eldorado (2008), todos vencedores do Prêmio Jabuti na categoria de Romance; e de O Lugar Mais Sombrio, uma trilogia que se passa durante a ditadura militar, com até agora dois livros lançados, A Noite da Espera (2017) e Pontos de Fuga, (2019). 

Dois Irmãos (2000) é seu livro mais conhecido. Quem conta a história é Nael, o narrador-personagem que revisita a memória familiar em busca das respostas que explicam seu presente. Ele é filho de Domingas, a indígena que desde a infância foi empregada da família de Zana e Halim, dois descendentes libaneses que viviam em Manaus e que tinham como filhos Yaqub, Omar e Rânia. Os dois primeiros são gêmeos, sendo Omar o Caçula, nome pelo qual também é referido na obra. Quando crianças, em uma disputa entre eles pela afeição de Lívia, um acontecimento traumático molda toda a família, fazendo com que Yaqub seja enviado para o Líbano. O retorno de Yaqub do Líbano acontece em 1945, quando o narrador descreve o porto do Rio de Janeiro apinhado de famílias que foram receber os pracinhas que retornavam da Itália. A narrativa passa pela adolescência em que a rivalidade entre os dois vai se acentuando, chegando à idade adulta em que Yaqub é um engenheiro ligado ao governo militar e Omar um bon vivant perseguido pelos aparelhos de repressão da ditadura. Uma das questões que perpassa o narrador é sobre a identidade de seu pai; questão não resolvida de forma clara. Esta é uma narrativa sobre conflitos familiares, sobre o desejo e sobre a busca por um sentido existencial que ultrapasse os condicionamentos históricos e subjetivos que determinam os indivíduos.


Verdade Tropical (1997)

de Caetano Veloso

VELOSO, Caetano. Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.


Caetano Veloso (Santo Amaro da Purificação, Bahia, 1942) é cantor, compositor, produtor e escritor. Estreou no cenário cultural escrevendo crítica de cinema, cantando em bares ao lado da irmã, Maria Bethânia, e compondo trilhas sonoras para peças de teatro. Lançou o seu primeiro LP, Domingo, em 1967, em parceria com Gal Costa, mesmo ano em que polemizou em um festival de música nacional ao interpretar a marcha “Alegria, Alegria” com guitarras elétricas. Em 1968, participou do disco-manifesto do movimento tropicalista Tropicália ou Panis et Circensis. Nesse mesmo ano foi preso pelo regime militar sob acusação de desrespeitar o hino e a bandeira nacionais. Em 1969, se exilou em Londres. De volta ao Brasil em 1972, lançou o LP Transa. Durante toda a década de 1970, Caetano participou intensamente do cenário cultural do país, no qual está ativo até hoje.

Verdade Tropical é uma autobiografia de Caetano Veloso, publicada em 1997, em que o autor narra a sua formação cultural pela música, cinema, artes plásticas, literatura e filosofia. Através de memórias, ensaios e relatos históricos, ela percorrer desde os seus anos iniciais em Santo Amaro, na Bahia, até o fim da década de 1990. Dessa forma, Caetano compõe não só uma narrativa pessoal, mas também um amplo panorama do Brasil. O eixo principal do livro é o surgimento do movimento tropicalista durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), de modo que o texto passa por alguns dos momentos decisivos desse período. 


As meninas (1973)

de Lygia Fagundes Telles

TELLES, Lygia Fagundes. As meninas. São Paulo: José Olympio, 1973.


Lygia Fagundes Telles (São Paulo, 1923) é uma das maiores escritoras vivas e considerada a maior escritora brasileira do século XX. Apesar de ter nascido na cidade de São Paulo, passou grande parte de sua infância no interior paulista. Quando retornou à capital, ingressou na Escola Caetano de Campos e, em seguida, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Além de escritora, Lygia conciliou a sua carreira atuando como Procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo até a sua aposentadoria. Sua consolidação veio com a vitória do Prêmio Camões em 2005 pelo conjunto de toda a sua obra. É membro da Academia Paulista e da Academia Brasileira de Letras.

As Meninas, obra publicada em 1973, tem como pano de fundo o auge da ditadura militar. Três meninas universitárias, Ana Clara, Lia e Lorena, vivem em um pensionato paulista e têm suas histórias de experiências e descobertas entrelaçadas com um momento de grande repressão política. É uma narrativa de muita força e impacto por retratar cenas com tanta vivacidade, pelo seu pano de fundo e pelo momento de publicação. Romance premiado e aplaudido pelos leitores, recebeu os Prêmios Jabuti, Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras e “Ficção” da Associação Paulista de Críticos de Arte. 


K – Relato de uma Busca (2011)

de Bernardo Kucinski

KUCINSKI, Bernardo. K – Relato de uma Busca. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

Bernardo Kucinski nasceu em São Paulo no ano de 1973. É jornalista, escritor e professor aposentado da  Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Filho de imigrantes poloneses, graduou-se em Física em 1968 e em 1991 doutorou-se em Ciências da Comunicação. Durante o regime militar, atuou junto ao movimento estudantil e por este motivo foi preso e exilado. Sua irmã, Ana Rosa Kucinski, professora do departamento de Química da USP, foi aprisionada e morta pela ditadura. Kucinski estreou na ficção em 2011 com K – Relato de uma Busca e, desde então, escreveu mais seis livros, dentre eles Alice Não mais que de repente (2014), Pretérito Imperfeito (2017) e Júlia, nos campos conflagrados do Senhor (2020).

K – Relato de uma Busca, publicado em 2011, é uma representação literária do período da ditadura militar no Brasil. Unindo realidade e ficção, Bernardo Kucinski narra as angústias de um pai ao constatar que sua filha havia desaparecido em 1974 e o processo de descoberta de uma vida oculta levada por ela, professora na Universidade de São Paulo e militante política, contra as forças da ditadura. Em busca do paradeiro de sua filha, K. se depara com o silêncio em torno dos diversos desaparecimentos políticos. Com o objetivo de contextualizar os acontecimentos históricos, o autor  utiliza numerosos elementos e documentos que conferem certa fidedignidade ao seu escrito. A narrativa desenvolvida por Kucinski retrata as angústias vividas pelo próprio autor na busca incansável pela sua irmã. Retrata também as inquietações vividas por mais de 430 famílias de desaparecidos políticos que buscam incansavelmente por respostas.


Ainda estou aqui (2015)

de Marcelo Rubens Paiva

PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. São Paulo: Alfaguara, 2015.


O paulista Marcelo Rubens Paiva (1959) é dramaturgo, jornalista e um dos maiores escritores brasileiros da atualidade. Vítima de alguns traumas de infância, como ser filho do ex-deputado federal Rubens Paiva, cassado e morto pelo Regime Militar, Marcelo é uma grande voz ativa na luta pelos direitos humanos e pela democracia. Seus livros investigam parte da história recente do país ao mesmo tempo que investigam boa parte de sua própria vida – como o premiado romance Feliz Ano Velho (1982), que retrata o acidente que o deixou tetraplégico e momentos da época em que seu pai desapareceu por conta da ditadura militar brasileira. Muito premiado por sua obra, Marcelo Rubens Paiva já foi indicado ao Emmy de melhor roteiro de série e ganhou três prêmios Jabuti de literatura: com o já citado romance Feliz Ano Velho, e também com Ainda Estou Aqui (2015) e o livro infantil O Menino e o Foguete (2016). 

Ainda Estou Aqui foi lançado em 2015 pela editora Alfaguara. Sucesso de crítica e de público, a história que rendeu a Marcelo Rubens Paiva seu segundo prêmio Jabuti fala sobre a vida de seus pais durante o período da ditadura militar. Paiva, com a ascensão de movimentos de extrema direita pelo Brasil a partir de 2013, decidiu escrever as história de luta de sua mãe, a ativista Eunice Paiva. Durante o regime militar, ela buscou pela verdade a respeito do destino de seu marido Rubens Paiva (preso, torturado e morto pelo regime). Já idosa, ela lutou contra o Mal de Alzheimer. Narrado em primeira pessoa do singular, Ainda Estou Aqui tem uma prosa intimista e fluida, como se estivéssemos em uma conversa franca com o autor, o que proporciona diversas reflexões acerca do regime militar e de suas atrocidades, além da própria relação dualista com a mãe. É um livro potente, que revela, a partir de um pequeno núcleo familiar, uma parte obscura da nossa história e que nos ajuda a superar, ou ao menos entender, grandes traumas que assolaram a vida de milhares de famílias brasileiras.


Curadoria

2 Comments

  1. Parece que temos novamente Policarpo Quaresma na lista. Depois de aparecer na lista “O campo e a cidade na Literatura Brasileir” ele ressurge na lista “Militares no Governo”.

    • Bem notado, Marcelo, você tem razão. Eventualmente, achamos que faz sentido incluir uma obra em dois posts de temas diferentes. Foi o caso de Triste fim de Policarpo Quaresma, que aparecem em dois posts sob dois pontos de vista diversos.

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