200 livros: Modernidade e herança modernista na literatura brasileira (1926-1977)

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A Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo em fevereiro de 1922, foi o ponto de encontro de um grupo de artistas, em sua maioria paulistas, que, sob influência das vanguardas europeias e em confronto com o parnasianismo, pretendiam criar uma nova arte que fosse “genuinamente brasileira”. A ideia geral que aqueles jovens escritores, pintores e compositores traziam era que a arte, a fim de acompanhar o desenvolvimento daqueles tempos modernos, não deveria mais empreender o esforço acadêmico de imitar a natureza, mas de assumir na técnica o seu caráter desfigurante e primitivo, e de abraçar como tema o que fosse, segundo as suas interpretações, essencialmente nacional. Embora mais tarde alguns desses artistas viessem a confessar que seu “modernismo” estava antes na sua atitude do que na sua arte, basta um poema da primeira obra dessa fase, Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade, do mesmo ano, para se perceber a diferença que a poética de 1922 tinha em relação a toda a literatura produzida anteriormente. 

As obras reunidas neste post, no entanto, não representam estritamente esses ideais, mas devem a eles a herança das suas experimentações. A liberdade formal, por exemplo, é uma conquista modernista legada aos seus sucessores modernos. A composição em padrões rígidos de metrificação e ritmo, como defendidos pelos parnasianos, foi desconfigurada em prol das demandas formais e estéticas particulares a cada obra, segundo seu assunto e pertinência ao gosto do autor. A gama temática também se diversificou, superando as tópicas duais românticas e simbolistas (natureza vs. cultura, sublime vs. grotesco, espírito vs. matéria), além de incorporar elementos da história nacional antes renegados ou reduzidos a estereótipos. Como consequência, tais circunstâncias propiciaram o protagonismo de grupos marginalizados – de meninos órfãos da periferia de Salvador a jagunços do interior mineiro -, a visibilidade crítica de sequelas da escravidão, a (de)formação de um herói brasileiro “sem nenhum caráter” e a ressignificação de uma rosa: imagem que no romantismo simbolizava a pureza feminina ou o defloramento sexual e que então se torna símbolo de luta coletiva e resistência à opressão.

O próprio Mário de Andrade viria a reconhecer no seu balanço sobre o modernismo, conforme a sua conferência registrada por escrito em “O Movimento Modernista”, de 1942, que sua geração, apesar das limitações individualistas, havia legado “o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística; e a estabilização de uma consciência criadora nacional”. Sua obra aqui selecionada, bem como a de Oswald, ambos protagonistas da Semana, são um exemplo de amadurecimento dos ideais e das propostas estéticas daquela primeira fase. Macunaíma, ao passo que eleva a poética lúdica e nativista na sua forma, recebe em seu tema um tratamento crítico e menos eufórico do que receberia num momento anterior. Mesmo movimentos ideologicamente opostos ao progressismo destes autores viriam a compartilhar de algumas dessas características. É o caso de Plínio Salgado, do movimento direitista “Verde-amarelo”, cuja obra, embora se opusesse à poética do Pau-Brasil, de Oswald de Andrade, não podia deixar de ser tão idealizada quanto esta (BOSI, 2017).   

E se, simbolicamente, o modernismo se deu a partir do centro de São Paulo, foi na sua chegada a outros estados do Brasil que ganhou esses novos aspectos que, segundo Alfredo Bosi (2017), “iriam compor um quadro mais matizado que é o conjunto da literatura moderna brasileira”. É sobretudo a partir dos anos 1930 e 1940, com as tensões ideológicas do Estado-Novo e da Segunda Guerra Mundial, que a literatura brasileira aproveitou as portas abertas pelo modernismo e, tomando outros rumos, produziu essa escrita mais interessada na dimensão social, ainda que muitas vezes introspectiva. A essa altura não fazia mais parte da agenda literária a tematização das conquistas da técnica moderna ou a entoação dos ritos de um Brasil pretensiosamente selvagem (BOSI, 2003). No seu lugar, surgia o teatro paródico de denúncia de Oswald de Andrade, a lírica drummondiana do sujeito em conflito com o mundo, a escrita intimista e a dimensão histórica da obra de Cecília Meireles, o realismo bruto de Jorge Amado, os causos de Ruth Guimarães acerca de um Brasil colonial perpetuado na modernidade, a escrita neologística e a jornada épica dos sertanejos de João Guimarães Rosa e a prosa existencial de Clarice Lispector.


Referências

ANDRADE, Mário de. O Movimento Modernista. Rio de Janeiro: Casa do Estudante do Brasil, 1942.

BOSI, Alfredo. “Moderno e modernista na literatura brasileira”. In: Céu, Inferno. 2ª edição. São Paulo: Editora 34, 2003.

____________. História Concisa da Literatura Brasileira. 52ª edição. São Paulo: Editora Cultrix, 2017.


Macunaíma (1928)

de Mário de Andrade

ANDRADE, Mário de. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. 1ª edição. São Paulo, 1928.  


Mário de Andrade nasceu em São Paulo, em 1893. Em 1917 publicou o seu primeiro livro, Uma gota de sangue em cada poema, enquanto se formava em piano no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Estudioso dedicado à cultura e à música popular, Mário foi figura central no movimento de vanguarda de São Paulo e um dos responsáveis pela Semana de Arte Moderna de 1922. Ano esse em que também lançou seu primeiro livro modernista, Paulicéia Desvairada, cujo “Prefácio Interessantíssimo” descreve o seu complexo trabalho de articular a estética moderna, influenciada pelas vanguardas européias, e a realidade brasileira. Aprofundando essas ideias, mais tarde Mário viria a propor uma poética nativista, de ordem expressiva, espontânea, crítica e nacional, mas, segundo ele, sem cair no regionalismo. O ápice desse projeto poético foi em 1928 com a publicação de Macunaíma.

A rapsódia Macunaíma: o herói sem nenhum caráter (1928) é uma montagem resultante da extensa pesquisa de Mário sobre a cultura, a música e o folclore brasileiro. Na história, Macunaíma vai da Amazônia à São Paulo em busca do talismã, a muiraquitã, que recebeu de Ci, Mãe do Mato, e que foi furtado pelo gigante Venceslau Pietro Pietra. Durante a jornada do “herói de nossa gente”, Mário de Andrade compõe um universo-mosaico a partir de uma larga diversidade de canções, folclores, costumes, crenças e falares. A própria narrativa varia de forma, tal qual o protagonista que se metamorfoseia o tempo inteiro, assumindo ora o tom de épico-primitivo, ora de crônica jocosa ou de paródia. Desse modo, Macunaíma é o encontro de dois projetos: um estético, do nativismo onírico, e o outro ideológico, de interpretação histórica. Macunaíma não é, no entanto, uma conclusão de Mário de Andrade sobre quem é o brasileiro: antes disso, é a busca por essa resposta.   


O estrangeiro (1926)

de Plínio Salgado

SALGADO, Plínio O estrangeiro. 1ª edição. São Paulo: Editorial Helios LTDA., 1926.


Plínio Salgado (1895-1975) nasceu na pequena cidade paulista de São Bento do Sapucaí, no Vale do Paraíba. Em sua cidade natal, Salgado atuou como jornalista e professor. Em 1920, transferiu-se para São Paulo e trabalhou no Correio Paulistano, veículo oficial do Partido Republicano Paulista (PRP). No jornal, aproximou-se de intelectuais que participariam da Semana de Arte Moderna de 1922, como Menotti del Picchia. Sua participação na Semana, porém, foi discreta. Em 1926 e 1927, fundou, respectivamente, o movimento Verde-Amarelo e o Grupo Anta, linha nacionalista e conservadora do modernismo, que se opunha ao cosmopolitismo mais progressista de Mário de Andrade e Oswald de Andrade, por exemplo. Seus principais parceiros eram Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo. Em 1932, liderou a fundação da Ação Integralista Brasileira (AIB), movimento político de extrema-direita. Inspirado no fascimo italiano, a ideologia da AIB era pautada pelo nacionalismo, autoritarismo político, anti-liberalismo, anti-comunismo e valores cristãos. A AIB foi extinta em 1937 pelo Governo Vargas, mas Plínio Salgado continuou ativo politicamente nas décadas seguintes. Apoiou o Golpe Militar de 1964 e foi deputado pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação da ditadura. 

Lançado em 1926, o romance O estrangeiro é a primeira e mais conhecida obra literária de Plínio Salgado. O livro teve grande sucesso editorial no momento de sua publicação e recebeu muitas críticas positivas, a citar a de Monteiro Lobato, por exemplo. A trama se passa na pequena cidade Mandaguary, onde se relacionam “caboclos brasileiros”, imigrantes italianos e um imigrante revolucionário russo. O narrador, Mestre Juvêncio, encarna os valores ideológicos de Salgado. Sua defesa é pelo “verdadeiro caboclo”, herdeiro da figura mítica do bandeirante paulista. Embora vistos com desconfiança, os imigrantes europeus são considerados uma necessidade, mas devem abandonar suas ligações com a terra natal e integrar-se totalmente à nação brasileira. O estrangeiro é fundamentalmente um romance ideológico, que revela o projeto político nacionalista, agrário e conservador de Salgado.


O Rei da Vela (1937)

de Oswald de Andrade


ANDRADE, Oswald de. O Rei da Vela. In: Teatro: A Morte – O Rei da Vela. 1ª edição. São Paulo: Livraria José Olympio Editora, 1937.


Oswald de Andrade (1890-1954) foi um romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta e jornalista paulista. Dedicado à atividade da escrita desde a juventude, Oswald foi um dos principais expoentes do modernismo brasileiro e um dos articuladores da Semana de Arte Moderna. São de sua autoria os principais manifestos dessa fase: “Manifesto da Poesia do Pau-Brasil”, de 1924, e “Manifesto Antropófago”, de 1928, ambos, em suma, pregando a descolonização do Brasil por meio da arte. O seu primeiro livro de poesia, Pau-Brasil (1925), foi considerado por Paulo Prado como o “primeiro esforço organizado para a libertação do verso brasileiro”. E se já havia alguma veia revolucionária na sua obra até então, foi sob influência da crise de 1929 que ele se dedicou mais intensamente à causa proletária, chegando a considerar no prefácio a Serafim Ponte Grande (1933) que mesmo o movimento do Pau-Brasil havia sido parte de uma “operação imperialista”. É com tom semelhante que, em 1937, publicou a peça O Rei da Vela.

O Rei da Vela é uma peça em três atos que, por meio da paródia, expõe as relações subservientes e oportunistas da burguesia brasileira nas décadas de 1920 e 1930. A peça conta a história do agiota burguês Abelardo I, que enriquece às custas de pobres enjaulados no seu escritório e que pretende ascender com um contrato matrimonial, o qual é estabelecido com Heloísa de Lesbos, membra da aristocracia agrícola, que, por sua vez, planeja salvar sua família da falência. A relação entre os dois acontece sob a influência de Mr. Jones, um americano com quem Abelardo I faz negócios e que acaba desenvolvendo intimidades com Heloísa. Apesar de publicada em 1937, a peça só viria a ser realizada nos palcos em 1967, com direção de Zé Celso, marcando a volta do Teatro Oficina. Para o diretor, na época, “o humor grotesco, o sentido da paródia, o uso de formas feitas” faziam do texto uma colagem do Brasil de 1930, que permanecia ainda mais violenta trinta anos depois, pois acrescia “a denúncia da permanência e da velhice destes mesmos e eternos personagens”. A peça foi remontada pela companhia em 2018.


Capitães da Areia (1937)

de Jorge Amado

AMADO, Jorge. Capitães da Areia. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1937.


Jorge Leal Amado de Faria nasceu em 1912 em Itabuna (BA). Viveu boa parte de sua infância no município de Ilhéus, cenário presente em diversos romances do autor. Graduou-se em direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas não chegou a exercer a profissão. Publicou cerca de 45 livros, dentre eles Capitães da Areia, Gabriela, Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos e Mar Morto. Seus livros foram traduzidos para mais de 40 idiomas e muitas de suas obras foram adaptadas para o teatro, cinema e televisão. Além de escritor, foi jornalista e político. Eleito deputado federal em 1946 pelo Partido Comunista Brasileiro, foi autor de importantes projetos de leis e emendas constitucionais, como a emenda da Constituição de 1946 pelo fim da intolerância religiosa. Em 1948, teve seu mandato cassado e exilou-se em Paris com sua esposa, episódio que se repete algumas vezes na vida do autor devido à sua atuação política. Faleceu na cidade de Salvador, em 2001.

Capitães da Areia (1937), publicado às vésperas da implementação da ditadura do Estado Novo no Brasil e ambientado na capital baiana, conta a história de meninos órfãos que vivem em bando, sobrevivem de furtos e golpes e são cercados por conjunções hostis. Os membros do bando, formado por mais de 50 crianças que vivem em um trapiche na orla, são apresentados e caracterizados ao longo da narrativa. O autor constrói uma linearidade que apresenta o desenvolvimento dos personagens, dando forma ao romance. Os meninos, que estão em busca contínua de meios de sobrevivência, têm diversas facetas expostas na obra: a ingenuidade e a malandragem de Pedro Bala, Professor, Volta Seca, Gato, Sem-pernas, João Grande e do restante do grupo são enfatizadas em uma contínua antítese, sempre perpassada pelo meio e pelas condições sociais impostas às crianças. A obra pertence à segunda geração modernista, que colocou as questões sociais como primordiais para a produção literária. Em Capitães da Areia, temáticas como a crise sanitária (surto de varíola), a desigualdade social, a negligência com as populações marginalizadas, a violência policial e carcerária e, sobretudo, o abandono das crianças órfãs, ganharam enorme espaço, daí a importância da obra, não somente para a literatura, mas como enunciadora das objeções vividas pela população marginal de Salvador. 


A rosa do povo (1945)

de Carlos Drummond de Andrade

ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro, 1945.


Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro (MG) em 1902. Por vontade da família, formou-se no curso de Farmácia em 1925, em Ouro Preto, porém, logo iniciou sua atividade literária com artigos e crônicas para o Diário de Minas Gerais, jornal do qual foi diretor entre 1926 e 1939. Em 1945, chegou a ser co-editor da Tribuna Popular, diário do Partido Comunista Brasileiro (PCB), mas, por discordâncias quanto à orientação do jornal, ficou poucos meses no cargo. Drummond também manteve carreira burocrática, tendo sido oficial de gabinete na Secretaria do Interior e Justiça de Minas Gerais (1930-1932) e chefe de gabinete do Ministério da Educação e Saúde (1934-1945) durante as gestões do político mineiro Gustavo Capanema. Tal carreira, entretanto, não o impediu de continuar escrevendo e, ao longo de toda a vida, manteve-se como jornalista e poeta. Foi abertamente defensor dos movimentos de vanguarda e colaborou nas revistas Ilustração Brasileira e Para Todos. Foi um dos diretores de A Revista (disponível no Acervo Digital da BBM), principal veículo das ideias modernistas em Belo Horizonte. Com recorrente ironia de temas realistas, Drummond reflete em suas obras temas referentes ao homem moderno, sua luta por liberdade e dignidade. Dentre suas várias publicações, destacam-se os livros de poesia Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945) e Claro Enigma (1951).

A Rosa do Povo (1945) é o livro de Drummond mais explícito quanto a questões políticas. O livro é composto por 55 poemas, nos quais são abordadas com profundidade questões como a vida nos centros urbanos, a opressão do regime Vargas, o conflito de classes, a Segunda Guerra Mundial e a cisão ideológica da Guerra Fria que então emergia. Drummond também reflete, metalinguisticamente, sobre a possibilidade de expressar os vários acontecimentos traumáticos que cercaram o mundo no período. Sendo o principal livro de inspiração social do autor, há na obra uma forte relação tanto de contrariedade quanto de complementaridade entre o engajamento político e o engajamento com as palavras. De acordo com o próprio poeta, os poemas do livro em questão representam suas principais linhas temáticas. Escrita num momento de maior maturidade do autor, a Rosa do Povo nos oferece um olhar crítico para o passado, como um testemunho de ideias e afetos. 


Água funda (1946)

de Ruth Guimarães

GUIMARÃES, Ruth. Água Funda. 1ª ed. Editora Globo, 1946.


Ruth Guimarães Botelho nasceu em Cachoeira Paulista (SP) em 1920. Dos 3 aos 8 anos residiu na Fazenda Campestre, em Pedra Branca. Aos 17 anos mudou-se para São Paulo em busca de emprego e terminou ali seus estudos médios. Trabalhou como revisora, funcionária pública e jornalista. Em 1943, conheceu Mário de Andrade, que se tornaria seu orientador em suas pesquisas folclóricas, e passou a frequentar o Grupo Baruel, dedicando-se a leituras e pesquisas em cultura popular. Em 1947 ingressou no curso de Letras Clássicas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde se formou em 1950. Posteriormente, tornou-se pesquisadora, tradutora, revisora e jornalista, com contribuições em diversos jornais e revistas de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Foi também professora de português por mais de 30 anos em escolas da rede pública de São Paulo. Em 2008, foi eleita para a cadeira 22 da Academia Paulista de Letras. Faleceu em 2014, legando várias obras sobre o folclore brasileiro, como Filhos do Medo (1950), Lendas e Fábulas do Brasil (1972), Calidoscópio – A saga de Pedro Malazarte (2006), e, em especial, seu romance Água Funda, de 1946.

Água Funda é um romance memorialista. Ele não possui um tempo narrativo especificado, no entanto, através de certos elementos que compõem a descrição das cenas, como a existência de um pelourinho, ou a venda de terras para investimento em automóveis, consegue-se situar os acontecimentos no final do século XIX até a primeira metade do século XX. O cenário da fazenda Olhos D’Água, no Vale do Paraíba, é acompanhado por um personagem/narrador onisciente não denominado, que é conhecedor dos causos da região. A narrativa possui duas partes: uma delas conta a história de Sinhá Carolina enquanto proprietária e administradora da Fazenda de Olhos D’Água até a venda desta à Companhia. Este evento marca o início da segunda parte da história: centrada na vida de Juca e Curiango, a relação de ambos com a sua realidade social é abalada pela chegada do agronegócio industrial. Também ganha destaque a presença da figura folclórica da Mãe d’Ouro, que permeia as duas partes e define o destino dos personagens. Ruth Guimarães escreve uma obra modernista, não apenas pelas suas temáticas, quando aborda o folclore como um sistema simbólico entranhado na vida social dos sujeitos daquela região, mas também por via da linguagem, ao vocalizar o falar caipira do Vale do Paraíba sem reproduzir os clichês de representação fonética da fala na escrita, sendo esta uma das característica mais apreciadas pelo crítico Antonio Candido.


Romanceiro da inconfidência (1953)

de Cecília Meireles

CECÍLIA, Meireles. Romanceiro da Inconfidência. 1ª ed. Livros de Portugal. 1953.


Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964) foi uma educadora, professora universitária, jornalista, tradutora e poeta brasileira. Em 1910, ao concluir seus estudos primários, recebeu a “Medalha de Ouro Olavo Bilac”, das mãos do próprio poeta, pelo seu desempenho como estudante. Seis anos mais tarde, diplomou-se em estudos da educação e, enquanto pesquisadora e acadêmica, voltou-se para a educação infantil, sendo uma das signatárias do Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova (1932),  ao lado de Anísio Teixeira e Fernando Azevedo, entre outros. Em 1934 fundou a primeira biblioteca pública voltada ao público infantil. Nesse meio tempo se firmou como jornalista, tradutora e poeta. Seu primeiro livro foi Espectros (1919), que tinha fortes influências simbolistas. Seu livro Viagem (1939), no qual se percebe o afastamento do estilo simbolista, recebeu o prêmio de poesia da ABL. Cecília é valorizada pela forma como entrelaça conteúdo social com uma poética intimista. Ora ligada esteticamente à tradição, ora aos modernistas, tem como temas o sentimento religioso, o tempo e a morte. Essas características são claramente percebidas em Romanceiro da Inconfidência, seu livro mais consagrado.

O Romanceiro da Inconfidência (1953) é um retorno lírico à Conjuração Mineira. Cecília foi buscar na Península Ibérica medieval o gênero capaz de abordar efetivamente sua proposta literária, o romanceiro. Por ser um gênero híbrido, feito por cenas, instantes e comentários, ele foi capaz de abordar e revelar conteúdos da Conjuração para os quais a epopéia ou o lirismo puro se mostrariam contraproducentes. Conta-se a história de Vila Rica antes, durante e depois da “Inconfidência”. Os críticos dividem a obra em cinco seções, iniciando com a descrição do ambiente de Vila Rica e com narrativas locais que ajudam a compor a temporalidade da Conjuração. Parte então para a trama e frustração do levante, seguido pelos martírios de Cláudio Manuel da Costa e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A quarta seção aborda a vida dos personagens Tomás António Gonzaga e Alvarenga Peixoto, que foram expatriados nas inóspitas colônias portuguesas na África. A quinta parte apresenta Dona Maria I, “a rainha louca”, que assinara as sentenças da repressão, perdida em seu remorso que a leva à morte. Mas é com Fala aos Inconfidentes Mortos, em tom nostálgico, que a poeta finaliza seu retorno lírico. A história passou, e assim, com ela, os conflitos e as ambições que mataram os insurgentes. Mas seus legados, no entanto, permanecem.


Grande sertão: Veredas (1956)

de João Guimarães Rosa

ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 1ª edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956.


João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG), em 1908. Formado em Medicina, atuou como médico no interior mineiro até servir como oficial-médico no 9º Batalhão de Infantaria de Barbacena, que atuou na Revolução Constitucionalista em 1932. Dois anos depois, ingressou na carreira diplomática, servindo como cônsul-adjunto em Hamburgo, na Alemanha. Seu primeiro trabalho literário foi o livro de poesia Magma, o qual recebeu o prêmio da Academia Brasileira de Letras em 1937. Nesse ano também participou de um concurso com Sagarana, um livro de contos que viria a ser publicado oficialmente em 1946. Já nesses primeiros livros é possível reconhecer o projeto literário de Guimarães: a partir do universo sertanejo, o autor embaça as fronteiras entre narrativa e poesia para contar, numa via mítica, as complexas e ambíguas relações do homem com o mundo.

Grande Sertão: Veredas (1956) é o único romance do autor e é frequentemente classificado por críticos como uma das grandes épicas brasileiras. Em primeira pessoa, o personagem Riobaldo conta ao seu interlocutor as suas aventuras de jagunço. A trama, que não segue a linearidade do tempo, mas o fluxo da memória e das reflexões de quem conta, segue a travessia do personagem pelas guerras entre grupos de jagunços, pelas juras de vingança e justiça, pelo amor errado que sente pelo companheiro Diadorim, e pelas constantes indagações e negações sobre a existência do Diabo. Nesse percurso, Riobaldo confunde-se com a natureza, que é agente na obra de Rosa, e ganha dimensões metafísicas na medida em que pensa a relação entre homem-Sertanejo e mundo-Sertão. Desse modo, embora se passe em cenário semelhante, seus temas e formas não são os mesmos do regionalismo de 1930. Segundo Antonio Candido, trata-se de um desses raros momentos em que nossa realidade particular brasileira se transforma em substância universal.


A hora da estrela (1977)

de Clarice Lispector

LISPECTOR, Clarice. A Hora da Estrela. 1ª Edição. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1977.


Clarice Lispector nasceu em Chechelnyk, na Ucrânia, em 1920. É autora de diversos contos, romances e ensaios. Veio para o Brasil ainda criança devido à perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa. Viveu grande parte de sua infância no nordeste do país e, aos 12 anos, mudou-se com sua família para o Rio de Janeiro. Durante sua formação escolar estudou inglês e francês, além de já se dedicar a escrever pequenos contos. Formou-se em Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas, motivada por seu grande interesse pela literatura, atuou como tradutora e jornalista desde o início de sua graduação. Publicou seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, no ano de 1944. Segundo Alfredo Bosi, a escrita de Clarice Lispector possui como principais características o uso de metáforas, a presença de diversos fluxos de consciência e a ruptura com o enredo factual.

Em A Hora da Estrela, livro publicado em 1977, temos a história de Macabéa, uma jovem alagoana que migra para o Rio de Janeiro. A trama é narrada por Rodrigo SM, que nos conta a história ao mesmo tempo em que a escreve. O livro é marcado pelo seu caráter intimista e pelos seus três níveis narrativos: a história da própria narrativa, a história de Rodrigo SM – o narrador, e a história de Macabéa. A Hora da Estrela foi o último livro publicado por Clarice Lispector, em meio ao contexto de ditadura militar, tratando do tema com sutileza a partir das relações pessoais entre o oprimido e o opressor.

Curadoria

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