Um retorno a Hans Staden

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Nesta série de posts, o blog da BBM irá tratar de algumas releituras do relato do viajante alemão Hans Staden em diversas expressões artísticas. Publicado pela primeira vez em 1557, o livro descreve suas experiências no Brasil e como escapou de ser devorado por índios tupinambás em um ritual antropofágico. O texto teve um papel importante na construção de um imaginário sobre o Brasil e influencia até hoje produções na literatura, cinema e artes plásticas que se debruçam sobre a formação e a identidade nacional.

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Página de rosto da primeira edição, 1557. Acervo da Brasiliana.

Hans Staden foi um viajante alemão do século XVI, e por viajante deve-se entender mercenário, no sentido de trabalhador livre contratado para um cargo temporário. O que hoje seria chamado de freelancer, em 1554 preferia-se aventureiro. O relato tornou-se célebre por narrar, entre descrições de navegações e da natureza, os nove meses e meio que Staden foi mantido em cativeiro por índios tupinambás, sob a ameaça de ser morto e devorado em um ritual antropofágico.

O relato da viagem foi publicado em 1557 sob o seguinte título:

“História verídica e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hesse até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hesse, a conheceu por experiência própria e agora a traz a público com essa impressão” ( Tradução de Angel Bojadsen.)

E contém a narrativa de duas viagens ao Brasil, uma partindo de Portugal até Pernambuco e outra da Espanha até Santa Catarina; esta última interrompida por um naufrágio na região de São Vicente onde Staden foi capturado pelos índios.

Durante a segunda viagem

A natureza do trabalho de Staden como mercenário – empregado de quem se dispusesse a contratá-lo – fez com que fosse confundido com portugueses, aliados dos tupiniquins, povo inimigo dos tupinambás, que por sua vez eram aliados dos franceses. Essa rede complexa de relações políticas revela uma disputa por territórios em um Brasil ainda não efetivamente ocupado pelos portugueses – e, dadas as devidas proporções, mantém alguma linearidade com conflitos existentes ainda hoje.

A capa do livro ilustra o canibalismo citado no título com uma cena, aos olhos de hoje, cômica de tão explícita, em que braços e pernas assam sobre o fogo, ao lado de um índio que devora seu inimigo. Pelo destaque concedido, fica colocado que a prática é um traço essencial do relato e também dos indígenas, que são descritos ainda como selvagens nus e cruéis, qualidades que aqui se equiparam.

Etimologicamente, “selvagem” remete ao contato com a natureza e a princípio não carrega conotação negativa. Porém, a palavra acaba ganhando um peso de barbárie, já que não raro relatos de viagens de europeus a outros continentes atribuem indistintamente selvageria e barbárie aos estrangeiros em geral, índios na selva ou turcos em Constantinopla. Ou seja, a imagem dos índios que Staden constrói com essas atribuições não está necessariamente ligada a um rancor pelo seu aprisionamento, mas tem sim uma carga de condescendência. Assim, o canibalismo aparece mais como um agravante das já condenáveis nudez, crenças pagãs e poligamia: uma vida não-cristã e, portanto, bárbara. Staden está longe, por exemplo, da abertura de espírito de Montaigne, que décadas mais tarde tentaria entender o canibalismo dos índios a partir dos valores dos próprios índios.

Staden revisitado

 

Staden encontra o chefe Cunhambebe

Staden encontra o chefe Cunhambebe

Com a multiplicação das expedições à América no século XVI, o contato entre povos indígenas e europeus se tornava mais frequente e a documentação sobre ele mais numerosa e detalhada, até pela demanda do público europeu por relatos de viagem. Nesse contexto, Staden é um exemplar típico do olhar europeu sobre os povos nativos americanos, ao lado de outros como Jean de Léry. Na primeira edição livro, além de descrições da natureza, dos costumes e relações dos brancos com os tupinambás, acompanhavam o texto gravuras que retratavam passagens e esquematizavam a organização das aldeias, a indumentária e, obviamente, o ritual antropofágico.

O valor documental, já muito pertinente por si só, une-se ao apelo pitoresco e praticamente anedotário que tem o viajante ao descrever como foi aprisionado e esteve prestes a ser devorado. Esse aspecto aventuresco do relato ajuda a explicar o sucesso do livro no seu tempo, e as razões do texto manter sua relevância até hoje, sendo referido para além de meios acadêmicos.

O ritual antropofágico

“Desembarcamos. Nesse momento, todos, jovens e velhos, saíram de suas cabanas, que ficavam num morro, e queriam me ver. Os homens foram com arcos e flechas para suas cabanas e entregaram-me às mulheres, que ficaram comigo. Algumas andavam à minha frente, outras andavam atrás de mim, e enquanto isso dançavam e cantavam uma canção, o que, segundo seus hábitos, fazem perante o prisioneiro que querem comer”.  (passagem do capítulo 21 do relato)

O blog da BBM irá tratar de alguns trabalhos que se voltaram ao relato de Hans Staden no cinema, nas artes plásticas e na literatura. Desde Théodore de Bry, que ainda no século XVI criou versões em gravura em metal baseadas nas xilogravuras mais rudimentares da primeira edição, até trabalhos do século XX, como desenhos de Portinari, filmes de diretores como Nelson Pereira dos Santos e Gustavo Dahl e a literatura infantil de Monteiro Lobato. Em tais produções, a abordagem de temas como a ocupação do Brasil, o canibalismo e as relações entre povos indígenas e europeus acaba superando um interesse puramente histórico ou um rigor na adaptação do texto. Um filme como “Como era gostoso meu francês” de Nelson Pereira dos Santos parte do livro para ir além do relato objetivo, construindo discursos sobre o processo de colonização, a formação do Brasil e a relação com os povos indígenas que se tem hoje, fora as questões estéticas inerentes ao trabalho de arte.

Staden se transforma assim em um meio, uma ferramenta para a construção de uma fala mais ampla. Por exemplo, Antônio de Alcântara Machado escreve no “Abre-alas” do Manifesto Antropófago em 1928:

Assim a experiência moderna (antes: contra os outros; depois: contra os outros e contra nós mesmos) acabou despertando em cada conviva o apetite de meter o garfo no vizinho. Já começou a cordial mastigação […]. No fim sobrará um Hans Staden. Esse Hans Staden contará aquilo de que escapou e com os dados dele se fará a arte próxima futura”.

O Hans Staden passa a ser Um Hans Staden. O viajante alemão chega então na posição quase mítica do narrador que vai a uma terra distante, adquire uma vivência fora do alcance dos seus pares e volta com o seu relato, que será repetido e retomado pelas gerações seguintes, para depois se transformar ao longo do tempo em outras expressões e adquirir novos sentidos.

 

Versões digitalizadas do livro de Hans Staden disponíveis na BBM Digital:

Cris

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