Portinari devora Hans Staden

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Nesta série de posts, o blog da BBM irá tratar de algumas releituras do relato do viajante alemão Hans Staden em diversas expressões artísticas. Publicado pela primeira vez em 1557, o livro descreve suas experiências no Brasil e como escapou de ser devorado por índios tupinambás em um ritual antropofágico. O texto teve um papel importante na construção de um imaginário sobre o Brasil e influencia até hoje produções na literatura, cinema e artes plásticas que se debruçam sobre a formação e a identidade nacional.

No final da década de 1930, Cândido Portinari já havia se consolidado como o artista mais prestigiado no Brasil e se alavancava para o reconhecimento internacional, participando de exposições nos Estados Unidos. Uma das mais importantes aconteceu em 1940, quando sua obra foi tema de uma exposição solo no Museum of Modern art (MoMA) de Nova York chamada “Portinari of Brazil”, sucesso de público e importante divulgadora da obra do artista brasileiro para novos projetos no exterior. Um dos interessados pelo trabalho de Portinari naquele momento foi George Macy, diretor do Limited Editions Club (LEC).

Hans Staden

LEC era uma editora que publicava edições luxuosas de clássicos da literatura ilustrados por artistas contemporâneos de peso. Naquele momento, havia um projeto de uma série de publicações que abrangessem o tema das Américas, e entre os volumes constava um dedicado ao Brasil. Uma particularidade da editora era que cada edição fosse elaborada e impressa no país ao qual se referia, e o responsável pelo volume brasileiro seria o editor José Olympio, que reforçou a indicação de Portinari a Macy. Depois de algumas trocas de cartas entre os três, o editor americano finalmente propôs que Portinari ilustrasse o relato de viagem de Hans Staden, de 1557. O aventureiro alemão narra como durante uma expedição ao Brasil foi capturado por índios tupinambás, escapando por muito pouco de ser morto em um ritual antropofágico. Apesar do relato ter sido publicado sob o título “História verídica e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas terras de Hesse até os dois últimos anos, visto que Hans Staden, de Homberg, em Hesse, a conheceu por experiência própria e agora a traz a público com essa impressão”, atualmente é comum o livro ser referido por trechos desse nome.

Portinari recusado

Enquanto o texto de Staden é facilmente encontrado em diversos idiomas e edições, os desenhos de Portinari ainda são praticamente desconhecidos. Isso porque a edição do LEC nunca chegou a ser publicada e os desenhos passaram quase 60 anos fora de circulação. Em 1941, depois de um ano de negociações, o editor recebeu 26 desenhos de Portinari e recusou todos:

“Ora, os desenhos que o senhor me enviou não se parecem em nada com aqueles desenhos [vistos no MoMA]. Não são tão simples, não são tão realistas. Tenho certeza de que meus clientes não gostariam deles, não os achariam inteligíveis. (…) Penso que o senhor deu ênfase demasiada à carnificina e à brutalidade do livro; o livro não é totalmente repleto desse tipo de horror. […] Eu estava esperando receber algumas paisagens simples do país no qual Hans Staden se encontrava quando foi capturado pelos canibais, e alguns desenhos simples ou litografias dos índios daqueles dias”. (Trecho da carta de George Macy a Portinari, 1941)

Em nova carta a Portinari, o editor interpreta que os trabalhos estariam emulando desenhos primitivos feitos pelos próprios tupinambás, o que até que seria interessante, mas que a presença de aguadas e tinta sobre as linhas anularia essa leitura. Macy também rejeita o conteúdo que se inclinaria mais ao ritual antropofágico do que às paisagens, alegando que não é isso que seu público desejaria. Portinari, em telegrama seco, responde que os desenhos eram bons e que o artista deveria ter liberdade criativa independente do que pensa o público, retomando algo que o próprio Macy disse a ele no início das negociações: “a tarefa de fazer as ilustrações será deixada completamente em suas mãos”. Portinari se recusa a fazer novas versões dos desenhos e assim acabou a parceria.

A antropofagia por quem não a pratica

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As exposições das quais Portinari participou em cidades como Pittsburg e Nova York nos anos de 1930 e 40 se deram em um contexto de consolidação de relações dos EUA com a América Latina e as trocas culturais vinham muitas vezes como consequência das novas relações econômicas e políticas. Na Feira Mundial de Nova York, também no ano de 1939, no mesmo local onde estavam expostas grandes inovações tecnológicas do mundo todo em grandes pavilhões temáticos, Portinari expôs seus painéis dos ciclos econômicos no pavilhão brasileiro. Ou seja, durante as negociações sobre o livro havia um cenário de cultivo de relações entre os países e de fortalecimento das imagens nacionais, portanto, cautela sobre aquilo que era veiculado em um país sobre o outro.

É possível que a desaprovação de Macy tenha vindo do receio de publicar qualquer imagem que poderia ser lida pejorativamente em relação ao Brasil. Macy talvez achasse que as cenas de antropofagia fossem demasiado polêmicas e então esperava receber desenhos simples de paisagens e atividades corriqueiras de povos indígenas, o que não diz muito sobre as particularidades do texto de Staden. O registro atento que Staden fez dos costumes dos tupinambás contribuiu para a grande repercussão do relato, no entanto, é evidente que a notoriedade do livro veio da descrição do ritual antropofágico e dos meses que o viajante viveu sob a ameaça de ser devorado. Portanto é curiosa a escolha desse livro acompanhada da rejeição das suas imagens mais notórias. O próprio livro enfatiza essas imagens: na primeira edição de 1557, a folha de rosto ilustra a antropofagia, assim como o título original, que menciona “terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos”.  

A rejeição categórica de Macy às imagens de Portinari aponta para um tratamento da antropofagia carregado de juízo de valor, fora do seu sistema cultural e como uma prática que construiria uma imagem indesejável de povos indígenas e como consequência, do Brasil. O discurso de Macy acaba ecoando as censuras dos colonizadores europeus aos costumes dos povos nativos do Brasil com os quais Hans Staden dialoga. O viajante alemão, no entanto, de alguma forma redime-se de uma visão eurocêntrica com a sua descrição que realmente procurava entender a lógica da cultura dos tupinambás, e isso transparece no trabalho de Portinari.

Hans Staden devorado

Ainda que Macy tenha justificado sua recusa com o argumento de que as imagens de Portinari eram excessivamente brutais, a verdade é que aquelas retratando a antropofagia não são maioria, ainda que realmente haja uma crueza nos traços. Não há sutilezas ou delicadezas nas imagens, no entanto, elas tampouco estão presentes no relato de Hans Staden, e muito menos nas gravuras originais que ilustram seu texto.

Depois da recusa, os desenhos caíram no esquecimento por décadas até sua publicação muito tardia em 1998, trinta e seis anos depois da morte do artista. Com o título de Portinari devora Hans Staden, a edição organiza o texto do relato, as gravuras que acompanhavam a publicação de 1557, e os desenhos de Portinari. Considerando que não faltariam ofertas para a publicação de trabalhos não divulgados de Portinari, provavelmente ocultar os desenhos foi vontade do artista.

É possível a recusa vindo de um estrangeiro tenha tido peso na decisão de manter o trabalho longe de ainda mais escrutínio. O fato de Portinari ter sido colocado pelo próprio governo brasileiro como grande representante da arte nacional dentro e fora do Brasil põe o artista em uma posição delicada. Especialmente no contexto de ser comissionado para retratar uma ideia de Brasil muito específica, que pode não coincidir com aquela afável ou triunfante que agradaria tanto ao estrangeiro afeito ao exotismo quanto ao projeto de construção de uma imagética nacional gloriosa e pronta para exportação.

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As ilustrações do relato de Hans Staden estão disponíveis no Portal Portinari.

Versões digitalizadas do livro de Hans Staden disponíveis na BBM Digital:

tamanduá

Cris

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