Aconteceu na BBM: “Rumos Atuais e Futuro da Conservação no Brasil”

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O seminário “Rumos Atuais e Futuro da Conservação no Brasil” aconteceu nos dias 07 e 08 de agosto de 2017, no auditório István Jancsó, que faz parte do complexo Brasiliana.

O evento trouxe especialistas que expuseram suas experiências, pesquisas e perspectivas em relação à conservação no Brasil, levando em conta, também, as mudanças ocorridas com a introdução das tecnologias digitais na preservação do patrimônio documental.

O seminário foi realizado em homenagem aos 100 anos de Guita Mindlin, pioneira na área de encadernação, conservação e restauro no Brasil. Sérgio Mindlin, filho de Guita, iniciou o evento com o relato emocionado sobre a trajetória da especialista, destacando sua dedicação em ampliar seus conhecimentos sobre o assunto e a sua preocupação em difundir as atividades de conservação e restauro no país. Interesses estes que levaram, inicialmente, à montagem de um atelier em sua própria casa e posteriormente, em 1988, à criação da Aber – Associação Brasileira de Conservação e Restauro, juntamente com Thereza Brandão Teixeira.

 

Sérgio Mindlin fala em homenagem a Guita Mindlin.

Sérgio Mindlin fala em homenagem a Guita Mindlin.

 

Isis Baldini, quem teve a oportunidade de conviver com Guita, abriu a primeira mesa com a palestra Conservação, uma história não escrita”. Baldini especializou-se em conservação e restauro de obras de arte em suporte de papel e já esteve à frente dos setores de documentação e conservação do Museu de Arte Contemporânea-USP e do Centro Cultural São Paulo. A palestrante levantou alguns fatores envolvidos no trabalho de conservação dentro das instituições, entre eles a necessidade de profissionais com formação abrangente, que possuam não só o conhecimento técnico, mas também o histórico e artístico-cultural. Isso porque o especialista em conservação e restauro tem de lidar frequentemente com a decisão de intervir nas marcas do tempo de uma obra, tratando-as como um defeito a ser corrigido, ou optar pela preservação do objeto em seu estado, tomando a possível deterioração como parte do valor histórico e simbólico associado à obra.

Isis Baldini ainda expôs a necessidade da regulamentação da profissão, que hoje sofre com a falta de reconhecimento e consequente falta de condições, equipamentos e colaboração das instituições e da esfera pública.

 

Isis Baldini: "Conservação, uma história não escrita".

Isis Baldini: “Conservação, uma história não escrita”.

 

Em diálogo com a apresentação de Isis Baldini, Martin Grossmann falou, em sua palestra intitulada “Conservação e os desafios da coletividade cultural”,  sobre a relação entre cultura, espaços e coletividade nas instituições culturais brasileiras, trazendo exemplos de como é possível, através de um bom trabalho de gestão cultural, integrar todos esses aspectos. Em seu discurso, Grossmann considerou a importância do conservador e restaurador para a salvaguarda do patrimônio cultural e, diante das tecnologias digitais, refletiu sobre como a reprodutibilidade possibilitou desvincular o acesso à informação dos objetos originais.

Martin Grossman, hoje professor titular da Escola de Comunicação e Artes da USP, contribuiu com importantes instituições culturais do país, entre elas o MAC-USP, cujo serviço educativo foi idealizado e implementado sob sua coordenação, e o Centro Cultural São Paulo, do qual foi diretor geral entre os anos de 2006 e 2010.

 

Martin Grossmann: "Conservação e os desafios da coletividade cultural".

Martin Grossmann: “Conservação e os desafios da coletividade cultural”.

 

A palestra “Conservar ou desconservar: ‘bicho tem em qualquer lugar, até na minha casa'”, do bibliotecário, editor e apaixonado por livros Briquet de Lemos, colocou em foco a deteriorização do patrimônio contido em bibliotecas onde as condições de acondicionamento são deficientes. Sob uma perspectiva histórica, o palestrante trouxe estatísticas sobre incêndios, alagamentos e pragas que culminaram na destruição de acervos numerosos. Tais danos poderiam ter sido evitados caso houvesse uma maior preocupação no sentido de preservar o patrimônio e maior investimento em proporcionar abrigos adequados a estes materiais. Com isso, Briquet de Lemos colocou o trabalho de conservar, de um lado, e a necessidade de evitar a desconservação, de outro, como duas faces indissociáveis na preservação dos documentos históricos.

 

Briquet de Lemos: "Conservar ou desconservar: 'bicho tem em qualquer lugar, até na minha casa'"

Briquet de Lemos: “Conservar ou desconservar: ‘bicho tem em qualquer lugar, até na minha casa'”.

 

Após a apresentação de Briquet de Lemos, Aloisio Castro, restaurador de artes plásticas do Museu de Arte Murilo Mendes da Universidade Federal de Juiz de Fora, fechou o primeiro dia do evento contando um pouco da história da conservação no Brasil. Sua palestra “Conservação-Restauração de Bens Culturais Móveis no Brasil: reflexões sobre a constituição do campo na Administração Pública Brasileira (1855-2008)” expôs a trajetória da atividade do restaurador no Brasil desde o Governo D. Pedro I até a atualidade, destacando personalidades, influências internacionais, políticas culturais e vieses teóricos que contribuíram para a formação deste campo especializado no âmbito brasileiro.

 

Aloisio Castro: "Conservação-Restauração de Bens Culturais Móveis no Brasil: reflexões sobre a constituição do campo na Administração Pública Brasileira (1855-2008)"

Aloisio Castro: “Conservação-Restauração de Bens Culturais Móveis no Brasil: reflexões sobre a constituição do campo na Administração Pública Brasileira (1855-2008)”

 

O segundo dia do evento começou com a palestra de Rizio Bruno Sant’ana: “O bibliotecário na conservação de livros raros”. Com quase 30 anos de experiência no acervo da Biblioteca Mário de Andrade, o bibliotecário destacou casos vividos que ilustram a conjuntura da conservação e restauração no país. A falta de cursos de especialização e a dificuldade em conseguir equipamentos específicos fazem com que os profissionais brasileiros busquem recursos no exterior, como fez o próprio Rizio, que tendo iniciado sua formação em biblioteconomia, especializou-se em conservação e restauro fora do país.

 

Rizio Bruno Sant'ana: "O bibliotecário na conservação de livros raros".

Rizio Bruno Sant’ana: “O bibliotecário na conservação de livros raros”.

 

Valeria Gauz, quem atua como bibliotecária de obras raras desde 1982, contribuiu com a discussão sobre a formação especializada que o profissional de preservação requer. A palestra “A Interdisciplinaridade e a formação de profissionais na área de Preservação de Acervos no Brasil: um olhar preliminar” apresentou dados da pesquisa feita pela bibliotecária acerca da grade curricular oferecida nos cursos de arquivologia e biblioteconomia no estado de São Paulo. Em seu estudo, Valeria Gauz levantou que, na formação do bibliotecário, a disciplina é oferecida apenas como optativa, sendo possível que se complete o curso sem ser introduzido oficialmente ao assunto; já na formação do arquivologista, as matérias relativas à conservação são obrigatórias. Ainda, analisando o conteúdo das disciplinas oferecidas, a pesquisadora constatou que, no geral, há uma lacuna nos cursos de biblioteconomia no que tange a assuntos como conservação e história do livro.

 

Valéria Gauz: "A Interdisciplinaridade e a formação de profissionais na área de Preservação de Acervos no Brasil: um olhar preliminar".

Valeria Gauz: “A Interdisciplinaridade e a formação de profissionais na área de Preservação de Acervos no Brasil: um olhar preliminar”.

 

Carlos Augusto Calil, professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA/USP e gestor cultural, em sua palestra “A implantação do Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo e a renovação da Biblioteca Mário de Andrade”,  falou um pouco sobre o sistema público de bibliotecas. Calil destacou o projeto ônibus-biblioteca, do qual participou ao retomá-lo durante sua gestão como Secretário de Cultura da cidade de São Paulo, e da importância das bibliotecas itinerantes em promover a leitura nas regiões que têm difícil acesso às bibliotecas municipais.

Calil trouxe, ainda, sua experiência à frente de centros culturais — ele foi diretor da Cinemateca e do Centro Cultural São Paulo — e levantou questões acerca do uso dos espaços e da organização das atividades nestas instituições.

 

Carlos Augusto Calil: "A implantação do Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo e a renovação da Biblioteca Mário de Andrade".

Carlos Augusto Calil: “A implantação do Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo e a renovação da Biblioteca Mário de Andrade”.

 

O ciclo de palestras fechou com a presença de José Teixeira Coelho Neto, professor Emérito da ECA-USP e quem fez parte da direção e coordenação de museus como o MAC-USP e MASP. Na palestra “A ideia de arte não é mais a mesma”, José Teixeira Coelho Neto propôs uma reflexão sobre o impacto das mudanças tecnológicas no modo como encaramos a arte, a cultura ou mesmo as questões do cotidiano. Os novos suportes, a reprodutibilidade e a individualização dos produtos, que passaram a ser produzidos a partir de demandas individuais e não mais para as massas, provocaram mudanças na concepção que temos de objeto original. Nesse contexto, o trabalho do conservador, em relação ao livro raro e aos documentos históricos, terá de ser repensado.

 

José Teixeira Coelho Neto: "A ideia de arte não é mais a mesma".

José Teixeira Coelho Neto: “A ideia de arte não é mais a mesma”.

 

Por fim, a partir da iniciativa de Isis Baldini, os especialistas em conservação presentes no evento que tiveram, de alguma maneira, suas vidas motivadas pelo trabalho de Guita Mindlin reuniram-se em sua homenagem.

 

Profissionais da área de conservação fazem homenagem a Guita Mindlin.

Profissionais da área de conservação fazem homenagem a Guita Mindlin.

 

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin agradece a presença de todos!

Sílvia Voss

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