Bestiário – Preguiça

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Na Idade Média, bestiário era o tipo de publicação que descrevia seres, reais e fabulosos, do mundo animal. Com a conquista europeia do Novo Mundo, os viajantes se depararam com muitas espécies de animais nunca vistas pelo olhar europeu. Essa série de publicações reúne algumas imagens e textos do acervo da biblioteca que descrevem animais da fauna brasileira e de outras regiões.  

Três descrições de uma preguiça

A preguiça foi um dos animais que mais chamou a atenção dos viajantes europeus. As três descrições que seguem foram feitas durante o século XVI. Os franceses André Thevet e Jean de Léry estiveram no Brasil durante o período em que a França tentou estabelecer pela primeira vez uma colônia na costa brasileira (1555-1560). Ambos publicaram livros que relatam sua viagem e estadia na colônia. Thevet publicou Les singularitez de la France Antarctique (As singularidades da França Antártica) em 1557 e em 1578  Léry publicou Histoire d’un voyage faict en la terre du Bresil (História de uma viagem feita na terra do Brasil). O português Gabriel Soares de Sousa foi um agricultor que esteve no Brasil entre 1565 e 1569. Seu Tratado descriptivo do Brasil é de 1587, mas permaneceu inédito até meados do século XIX.

Há elementos comuns na descrição dos três autores: a estranheza do bicho, a comparação de suas características com as de animais conhecidos do leitor europeu, seu hábito alimentar muito peculiar, que levam Thevet e Léry a dizer que o animal vive de ar. As descrições talvez sejam resultado uma mescla de observação direta, influenciada tanto pelos bestiários europeus quanto pelo conhecimento dos índios sobre o animal. Nos dois casos, o saber sobre o bicho é a mescla de lenda e realidade.  

Preguiça segundo André Thevet

“Esse animal, para ir direto ao ponto, é tão disforme quanto possível e quase inacreditável àqueles que não o tenham visto. Ele é chamado ou aiti, é do tamanho de um grande macaco africano e seu ventre se arrasta pelo chão. Tem a cabeça e a face quase iguais à de uma criança, como se vê na figura seguinte, tirada de exemplo natural. Quando aprisionado, suspira como uma criança afligida pela dor. Sua pele é acinzentada e aveludada como a de um pequeno urso. Tem apenas três unhas nos pés de quatro dedos, e elas têm a forma de grandes espinhas de carpa, com as quais escala as árvores, onde vive mais que na terra. Sua cauda mede três dedos de comprimento e quase não tem pelos.

Outra coisa digna de memória é que nenhum homem vivo jamais viu esse bicho comer, ainda que os selvagens, como eles mesmos me disseram, tenham gasto muito tempo para vê-lo se alimentar. Eu não teria acreditado nisso, até que um capitão da Normandia chamado De l’Espiné e o capitão Mogneuille, nativo da Picardia, que passeavam num bosque de árvores muito altas, acertaram um tiro de arcabuz em dois desses animais, que estavam num galho de árvore, os quais caíram no chão, um muito ferido e outro apenas zonzo, que me foi dado como presente. Observando-o no espaço de vinte e seis dias percebi que nunca quis comer nem beber, mas manteve sempre o mesmo estado, sendo por fim estrangulado por alguns cães que tínhamos levado conosco.

Alguns estimam que esse animal vive apenas das folhas de certa árvore, chamada em sua língua de amaí, que é mais alta que todas as outras dessa terra e tem folhas pequenas e delicadas. E como de hábito ficam nessas árvores, chamam-nos de . De mais a mais, o bicho se afeiçoa muito ao homem quando domesticado, buscando apenas subir em suas costas, – como se sua natureza fosse sempre buscar coisas altas – o que os selvagens suportam a duras penas, pois vivem nus e o bicho tem unhas muito afiadas e mais longas que as do leão ou qualquer outra fera que já tenha visto. Sobre isso, vi pessoalmente alguns camaleões mantidos em cativeiro em Constantinopla, os quais notou-se viverem apenas de ar. E assim percebi ser verdadeiro o que me diziam os selvagens desse bicho. Além disso, quando fica pendurado dia e noite no vento e na chuva (pois a terra é muito sujeita a isso), ainda assim permanece seco como de hábito.”

André Thevet. Les singularitez de la France Antarctique. (As singularidades da França Antártica). Paris: chez les héritiers de Maurice de La Porte, 1558, fl. 99-100.

Preguiça segundo Jean de Léry

“O maior, que os selvagens chamam , é do tamanho de um grande cão d’água e sua face é como a de um macaco, se aproximando da do homem. Seu ventre pende como o de uma porca prenha,  o pelo é cinza esfumaçado, como a lã da ovelha negra, a cauda é curta, as pernas peludas como de um urso e as garras muito longas.

E ainda que na floresta ele seja muito arisco, não é difícil domesticá-lo. É verdade que por causa de suas garras afiadas aos nossos tupinambás, estando sempre nus, não agrada muito brincar com ele. De resto, ouvi, coisa que parecerá fabulosa, não somente selvagens, mas também de intérpretes que habitaram muito tempo essas terras, que nunca um homem, nem na mata, nem em casa viu esse animal comer, de tal maneira que alguns estimam que viva do vento.”

Jean de Léry. Histoire d’un voyage faict en la terre du Bresil (História de uma viagem feita na terra do Brasil). La Rochelle: Antoine Chuppin, 1578, p. 165-166.

Preguiça - Grassmann_tratada_

Xilogravura de Marcello Grassmann. Parte de Bestiario: trechos do Tratado descritivo do Brasil em 1587, de Grabriel Soares de Sousa.

Preguiça segundo Gabriel Soares de Sousa

“Nestes matos se cria um animal mui estranho, a que os índios chamam , e os portugueses preguiça, nome certo mui acomodado a este animal, pois não há fome, calma, frio, água, fogo, nem outro nenhum perigo que veja diante, que o faça mover uma hora mais que outra; o qual é felpudo como cão d’agua, e do mesmo tamanho; e tem a cor cinzenta, os braços e pernas grandes, com pouca carne, e muita lã; tem as unhas como cão e muito voltadas; a cabeça como gato, mas coberta de gadelhas que lhe cobrem os olhos; os dentes como gato. As fêmeas parem uma só criança, e trá-la desde que a pare ao pescoço dependurada pelas mãos, até que é criada e pode andar por si; e parem em cima das árvores, de cujas folhas se mantém e não descem nunca ao chão, nem bebem; e são estes animais tão vagarosos que posto um ao pé de uma árvore, não chega ao meio dela desde pela manhã até ás vésperas, ainda que esteja morta de fome e sinta ladrar os cães que a querem tomar; e andando sempre, mas muda uma mão só muito devagar, e depois a outra, e faz espaço entre uma e a outra, e da mesma maneira faz aos pés, e depois a cabeça; e tem sempre a barriga chegada à árvore, sem se pôr nunca sobre os pés e mãos; e se não faz vento, por nenhum caso se move do lugar onde está encolhida até que o vento lhe chegue: os quais dão uns assobios, quando estão comendo de tarde em tarde, e não remetem a nada, nem fazem resistência a quem quer pegar deles, mais que pegarem-se com as unhas à árvore onde estão, com que fazem grande presa; e acontece muitas vezes tomarem os índios um destes animais, e levarem-no para casa, onde o têm quinze e vinte dias, sem comer cousa alguma, até que de piedade o tornam a largar; cuja carne não comem por terem nojo dela.”

Gabriel Soares de Sousa. Tratado descriptivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro: João Inácio da Silva, 1879. p. 236.

João

One Comment

  1. Gostei. Muito. Eu gostaria de ler um livro sobre tesla de cadastro cientista

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