Spix, Martius e o legado histórico-científico-ficcional das Viagens

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Por Alice Santana de Lima

O legado de Spix e Martius

O zoólogo Johann Baptist von Spix e o botânico Carl Friedrich Martius figuram entre os mais famosos e importantes viajantes que já desembarcaram no Brasil. O século XIX foi um período de intensa movimentação no país com a chegada de cientistas e artistas empenhados em descobrir e reproduzir em seus estudos e obras a biodiversidade brasileira: Spix e Martius, mais especificamente, embarcaram então na que ficou conhecida como expedição austríaca que, além de razões políticas, nas palavras do imperador Maximiliano I do então reino da Baviera, tinha o intuito de realizar investigações científicas pelo bem da ciência e da humanidade. 

De fato, a viagem dos dois pesquisadores propiciou a mais completa exploração da fauna e da flora brasileiras até os dias de hoje, dando origem a uma série de produções responsáveis por revelar detalhes fascinantes e profundos do Brasil ao Velho Mundo: Spix e Martius lançaram as bases para a divisão dos biomas brasileiros além de catalogar quase metade de todas as espécies de plantas brasileiras até hoje conhecidas. Em apenas 3 anos — de 1817 a 1820 — os naturalistas percorreram mais de 10 mil km, passando por diversos estados, entre os quais São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas, legando uma vasta produção científica publicada em diversos volumes e, ainda, um relato da viagem, intitulado Viagem pelo Brasil, publicado em 1823. 

Physiognomicae in Flora Brasiliensis. 1850.


O relato da viagem foi publicado e dividido em 3 volumes e um atlas. Mais tarde, Spix publicou mais 9 volumes sobre a fauna e um ensaio histórico, mas não pôde dar muita continuidade ao trabalho porque falece 6 anos depois de retornar da viagem. Martius, no entanto, publica Flora Brasiliensis (Flora Brasileira), uma monumental obra dividida em 15 volumes e 40 partes publicadas a partir de 1840 dedicadas à flora brasileira e a estudos etnográficos dos povos indígenas. Na Biblioteca Brasiliana constam exemplares de quase toda essa vasta produção.

O novo mundo: do primitivismo ao exuberante desconhecido

A influência dos estudos de Spix e Martius é tal que ultrapassa até mesmo o ramo científico, tendo contribuído grandemente para a produção literária de Johann Wolfgang von Goethe. O poeta alemão, atraído pelos estudos de botânica, se correspondeu com Martius e ainda o encontrou algumas vezes quando este retornou da viagem ao Brasil. Além disso, há fortes indícios de que tenha lido Flora Brasiliensis enquanto escrevia a segunda parte de seu célebre poema trágico, Fausto: segundo o professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, Marcus Mazzari, as metáforas botânicas presentes em Fausto II podem ser fruto da influência dos estudos legados por Martius, nos quais Goethe demonstrava interesse.

Mas não foi Goethe o único a beber em fontes alheias para o desenvolvimento de seu trabalho: da mesma forma que o autor serviu-se dos estudos da fauna realizados por Martius, Martius também serviu-se da produção do poeta para aperfeiçoar sua própria escrita. Além de ter lido Metamorfose das Plantas, obra escrita por Goethe em 1790 — e que o denuncia um também excepcional cientista —, Martius leu Fausto I. Há registros, inclusive, de poemas por ele escritos sobre os locais por onde passou no Brasil. 

Aspectos dessa inventividade de Spix e Martius aparecem em certas descrições, como esta em que Martius chega a comparar uma floresta onde esteve ao inferno Dante, a fim de salientar sua vastidão desconhecida e aterrorizante:

Escura como o inferno de Dante fechava-se a mata, e cada vez mais estreita e mais íngreme, a vereda nos levou por labirínticos meandros, a profundos abismos, por onde correm águas tumultuosas de riachos, e ora aqui, ora ali, jazem blocos de rocha solta. Ao horror, que esta solidão agreste infundia na alma, acrescentava-se ainda a aflitiva perspectiva de um ataque de animais ferozes ou de índios inimigos que a nossa imaginação figurava em pavorosos quadros, com os mais lúgubres pressentimentos.

(MARTIUS e SPIX, 1981: 220, livro 1)
Viagem ao Brasil, 1823 – 1831


O país que era antes visto como “exótico” pelo olhar estrangeiro, primitivo do ponto de vista de relatos como os de Hans Staden no século XVI e sua exposição de episódios de canibalismo, selvagem pela imagem estereotipada atribuída à população indígena, passa, finalmente, a partir do século XIX, a ser lido através de uma perspectiva mais científica. Essas imagens pré concebidas do Brasil, porém, não desapareceram de súbito do imaginário comum; no entanto, ganharam outros contornos que deixaram de se referir somente ao excêntrico, mas sobretudo à grande diversidade natural que abriga.

Litogravura de um Carcará, 1824
Litogravura de um aguapé, 1824

                                             

Os naturalistas alemães contribuíram grandemente para a difusão dessa particularidade do país, sem, contudo, deixar de fazê-lo com um toque de ficcionalidade, como nessa descrição de Martius em que o célebre universo dantesco é evocado para fins de comparação. Segundo Gabriela Reinaldo, o primeiro volume de Flora Brasiliensis é exemplar dessa tendência narrativa de Martius: é na introdução dele que o cientista oferece uma visão genérica de diversas partes do Brasil — esboçando as cinco regiões geográficas que deram origem ao que são denominados hoje nossos biomas —, além de aderir a uma linguagem relativamente mais simples diante de um tema que normalmente exigiria muitos termos técnicos, de modo que pudessem familiarizar leitores leigos no assunto.

Da mesma forma, Gabriela considera que até as imagens que compunham o livro serviam não somente como meio de reproduzir a vegetação da qual se tratava, mas ampliar as relações entre o ambiente como um todo, a combinação entre as plantas, os animais e o clima. As populações nativas, nesse sentido, também se tornavam parte da composição. Assim como as relações da natureza eram ilustradas entre si, a relação de seus habitantes com ela também era e, assim, as litogravuras de Flora Brasiliensis eram capazes não só de documentar aspectos meramente técnicos sobre aqueles determinados locais, mas também de contar histórias sobre eles.

Às margens do Rio Itaípe na Província da Bahia, c. 1842. Litografia em preto e sépia sobre papel. Carl Friedrich Philipp von Martius

Entre a ciência, a história e a ficção

Paul Veyne, em Como se Escreve a História, discorre sobre a relação entre História e verdade, indicando que a história não se dá somente a partir de análises objetivas das fontes, mas também de construções narrativas bem elaboradas já que, segundo Walter Benjamin, é impossível acessar o passado tal qual realmente aconteceu, de modo que este seja reconstruído também através de lembranças e memórias. Os relatos de Spix e Martius, embora mais comprometidos com a ciência e não necessariamente com a história, acabam abraçando essa tendência em certa medida por conta das dificuldades em se retratar o vasto universo natural e desconhecido com o qual se depararam ao chegar ao Brasil. Assim, além de reclamar um notável rigor científico, esses relatos demandaram também bastante sensibilidade e inventividade por parte dos naturalistas. 

Isso fica evidente em alguns trechos do Tabulae Physiognomicae, pranchas litogravadas que ilustram o primeiro volume de Flora Brasiliensis, nos quais há um tom de lamento por parte de Martius devido ao fato de que a imagem é incapaz de representar o real e, assim, a composição de seu relato seria comprometida. Suas descrições, portanto, e até a reprodução das cenas partem dessa premissa, de forma que seus aspectos narrativos acabam por compensar essa suposta falta de autenticidade. Ao se referir à natureza, por exemplo, a coloca como uma entidade materna, sempre salientando a sua fecundidade e o deslumbre de sua vegetação: “A enorme força de gerar que possui esta terra é submetida ao império da beleza e que tudo é nela tocado pelo sopro de uma doce harmonia” (Tabula VII). Esse trecho é exemplar da proposição de Karen Macknow Lisboa de que, nos relatos de Martius, a natureza não é somente um objeto científico, mas também sentimental.

Além disso, o olhar amplo de seus estudos apreendiam a natureza para além da fauna e da flora: muito mais do que se dedicar somente às pesquisas técnico-científicas centradas em conhecimentos biológicos, físicos e geológicos, a dupla também abraçou “estudos das diversas línguas, do folclore, dos mitos e tradições históricas” e “do material histórico antigo e recente”. Isso era possível uma vez que, segundo Marcus Lopes, “a rota era traçada de maneira empírica e de acordo com o que iam encontrando pelo meio do caminho”; assim, além da flora e da fauna, Spix e Martius também entravam em contato com “outros viajantes, comerciantes, populações locais e, claro, índios, que também foram estudados.”

Viagem pelo Brasil, 1817


Nesse sentido, entendiam que estudar o homem também era importante para compreender a natureza em toda a sua dimensão, para além da fauna e da flora, objetos de estudo dos quais se ocupavam habitualmente. Como esperado pelo contexto da época, o faziam a partir de um ponto de vista bastante eurocêntrico, que relegava sobretudo aos índios e africanos a posição de “raças inferiores” em relação ao caucasiano. Os consideravam incivilizados, de modo que a miscigenação com o branco europeu, segundo os naturalistas, seria capaz de alçar o povo brasileiro à civilidade. 

Felizmente, no entanto, anos mais tarde, Martius se redime dessa visão racista em seu livro Frei Apollonio. O romance, com certo aspecto autobiográfico, conta a história de Hartoman que, depois de chegar ao Brasil com uma visão eurocêntrica, a desconstrói conforme conhece melhor o local e seu povo nativo, deixando de lado seus preconceitos. Martius, assim, mostra uma rejeição ao suposto primitivismo dos povos indígenas no qual acreditara outrora. Somada aos seus extensos estudos de línguas indígenas, sem contar ainda o enorme legado para a botânica, essa mudança de percepção demonstra seu compromisso com a ciência, que não acaba sendo comprometida mesmo diante de uma grande sensibilidade para com o esplendor da natureza brasileira.

Glossário de vocábulos indígenas, Beitrãge zur Ethnographie und Sprachenkunde Amerika’s zumal Brasiliens (Volume 1), 1867


Referências

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LAHUERTA, Flora Medeiros. Viajantes E A Construção De Uma Idéia De Brasil No Ocaso Da Colonização (1808-1822). Scripta Nova, Universidad de Barcelona, v. 10. 01 ago. 2006. Disponível em: <http://www.ub.edu/geocrit/sn/sn-218-64.htm>. Acesso em: 03 jul. 2019.

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Alice Santana de Lima é graduanda em Letras – com habilitação em português e italiano – pela FFLCH-USP.

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