Interpretar é Construir

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Por Norberto de Assis

Muitos autores da história brasileira levantaram suas penas e penaram na tentativa de elaborar uma interpretação nacional. Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Paulo Prado, Oliveira Vianna, Darcy Ribeiro e tantos outros digladiaram-se pela hegemonia da definição do caráter do homo-brasileirus. O brasileiro é cordial ou mordaz? Alegre ou triste? Povo dócil ou inflamado? Independente de qual dessas definições é a correta, o mais importante é que foram maneiras de construir o mesmo povo que os autores tentaram entender.

Interpretar uma suposta identidade nacional não é criação nossa e, tampouco, exclusiva. Diversos outros autores se debruçaram sobre isso antes dos brasileiros. Victor Hugo (1802 – 1885) é um bom exemplo de escritor que fez uma interpretação do seu país por meio de suas obras literárias e que não necessariamente constituiu a realidade francesa tal como era em sua época. Sua maior obra, Les Misérables, é praticamente uma forma de construção do povo francês. Seus personagens marcaram todo o imaginário do mundo sobre os franceses e também dos franceses sobre sua consciência nacional. Se pararmos para observar, a nação que Victor Hugo elabora é fruto de sua imaginação, mesmo que tenha um arcabouço histórico por trás, sobre um certo caráter nacional que se transborda para outros. Mesmo que sua intenção não fosse fazer isso, é impossível escapar da influência que ele exerceu na constituição de sua nação.

É bem comum encontrarmos por aqui diversas pessoas que falam como o brasileiro tipo-ideal deveria ser. Certamente, você deve conhecer algum parente ou conhecido que diz que o brasileiro é… (insira aqui qualquer adjetivo que já tenha escutado). Afinal, de onde veio isso? Essa construção que as pessoas normalmente fazem não pode vir estritamente de suas cabeças; posso afirmar que essas definições são construções históricas que demandaram diversos atores para serem construídas.

Imagine que no começo do Brasil (que nem se chamava Brasil) as pessoas que aqui viviam não tinham uma identificação com esse território (tirando, é claro, os povos originários que já estavam neste lugar há muito tempo). Como disse o escritor e professor Silviano Santiago, de modo geral, os brasileiros viviam “em pequenas comunidades, rurais na maioria dos casos, não de maneira completamente indiferenciada à semelhança de animais num conglomerado, mas em situação social amorfa, que beirava muitas vezes o caos. Essa situação não deixava de ser preocupantemente negativa para os que tinha o ideal de nação”. Pense que a partir dessa situação, num contexto de pouquíssima coesão entre os habitantes do território, seria muito complicado criar uma nação. Dessa maneira que, então, as obras de interpretação do Brasil obtiveram algumas peculiaridades: os livros escritos à cada espaço de tempo não só traziam uma nova roupagem àqueles habitantes soltos pelo mapa, como hierarquizaram os supostos problemas que o lugar enfrentava e as supostas formas de resolvê-los.

Dos primeiros textos escritos pelos portugueses a respeito da Terra Nova aos famosos Casa-Grande & Senzala e Raízes do Brasil, assim como no exemplo de Victor Hugo referenciado acima, há sempre uma característica em comum, mesmo que inconscientemente: a ideia de utilizar uma interpretação pessoal do contexto para definir características comuns. Bons exemplos concretos disso são passíveis de se encontrar em passagens dos primeiros autores portugueses que se incumbiram de escrever sobre o Brasil. Na interpretação de Pero Vaz de Caminha, era muito interessante notar o valor simbólico europeu que ele atribuía a certos aspectos indígenas, como, por exemplo, a organização política das tribos. Segundo Santiago, os portugueses enxergavam os indígenas com uma imagem cordial (o que lembra certos autores brasileiros séculos depois). Esse eurocentrismo permeou grande parte da interpretação nacional; os valores europeus estabelecidos há diversos anos eram comparados com os valores incertos e nebulosos do Brasil. O mais curioso e cômico é que essa transposição de valores de uma cultura a outra criou tanto o processo de interpretar como o processo de construir uma cultura e uma nação. Quando esses valores e características dadas são absorvidas pelos habitantes de um território é que os mesmos começam a compartilhar o ideal de uma característica comum entre eles e a constituir a “comunidade política imaginada” que Benedict Anderson descreve em sua obra.

Enfim, só depois dessa consciência coletiva produzida é que começam a aparecer os autores canônicos que fazem o “brasileiro ser brasileiro”. Quer você concorde ou não com que o Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes escreveram em sua época, é necessário que se entenda a importância deles na construção do que somos. As críticas às obras devem existir sempre, até porque a nação mudou, e muito, de lá para cá. Entretanto, mesmo que tenha mudado, muito do que eles escreveram ainda são compartilhados por nós. O seu parente chato falando que o brasileiro é isso ou aquilo é reflexo do que essas pessoas falaram há muito tempo e da disputa em determinar quais desses autores seriam legítimos para isso. Contudo, não se preocupe, isso não quer dizer que o povo daqui seja qualquer uma dessas definições propostas; afinal, existem tantas interpretações do que é ser brasileiro; por que se atentar a uma delas que não é de seu agrado? Pegue seu livro favorito sobre Brasil e vá discutir com eles!

A construção da nação nunca parará desde que estejamos dispostos a interpretá-la.

(Este artigo faz parte do Boletim 3X22, uma publicação bimestral da BBM. Para conferir outros, acesse: https://www.bbm.usp.br/3×22)

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