Editora do Autor – quatro estreias e uma pré-estreia

Share

Presente de Natal

 

Um bom presente para o Natal de 1960 era uma caixa contendo quatro livros de “quatro big names federais” como dizia um anúncio de jornal da época. Eram eles Vinícius de Morais (Antologia poética), Rubem Braga (Ai de ti, Copacabana! – crônicas), Fernando Sabino (O homem nu – contos) e Paulo Mendes Campos (O cego de Ipanema – crônicas). Quem estivesse no Rio de Janeiro no início de dezembro daquele ano, mais precisamente nos arredores do Posto 6 em Copacabana, poderia arrematar a caixa com a ajuda de artistas de teatro e cinema, como Tônia Carreiro ou Lourdes de Oliveira, que havia estrelado Orfeu Negro um ano antes.  Em seguida poderia pedir autógrafos aos quatro autores ou mesmo para outro big name da literatura, Manuel Bandeira, que num volume da Antologia de Vinicius escreveu:

 

Aqui, neste volumão,EA_02_bxEA_04_bx

Vai condensado Vinicius:

Delicadeza, paixão,

Poesia e mulher – dois vícios.

 

Num exemplar de Ai de ti, Copacabana! Ele escreveria:

 

Quando crônico, uma fina

Angústia, uma angústia vaga

Me dói, não enfarte ou angina

É inveja do velho Braga:

 

Bandeira ainda veria uma briga inexistente entre garçons, Drummond e Aníbal Machado, por conta de uma batida de caju (“Quarteto Opus 2”, crônica de Manuel Bandeira no Jornal do Brasil de 14/12/1960). O clima era mais de festa que de briga e os livros tiveram grande sucesso de venda; cerca de dois meses depois o quarteto viajava para o Recife para lançar as segundas edições.

O lançamento das quatro obras inaugurava oficialmente as atividades da Editora do Autor, fundada por Fernando Sabino em sociedade com Rubem Braga e Walter Acosta. Das quatro obras, duas são de crônicas, uma de contos (dos quais muitos poderiam ser classificados como crônicas) e uma de poesia. Além da caixa natalina, há algo que dá unidade a esses livros. Há neles uma espécie de compromisso com a realidade mais imediata e cotidiana, uma atenção às coisas miúdas da vida. A “Advertência” do único livro de poesia da caixa marca “os movimentos de aproximação do mundo material” e a “repulsa do idealismo dos primeiros anos” de atividade do poeta. O que pode ser visto como processo no livro de Vinícius (que por essa época passaria a se dedicar mais à canção popular) é fato consumado nas três obras em prosa. Seu feito na verdade é consagrar a escrita descompromissada, de palpite, como diz Braga numa das crônicas de seu livro. Recolhidos em livro, os palpites felizes deixam de ser simples textos jornalísticos e perduram enquanto literatura – o texto em forma de causo, conversa fiada permanece, mas seu registro se modifica.

 

Aposta na literatura brasileira contemporânea

 

De alguma maneira a Editora do Autor tinha o palpite como marca. Palpitava selecionando das páginas dos jornais as crônicas que mereciam sorte mais duradoura e, dos livros de poesia, os poemas antológicos. Foi assim que, após sua inauguração, a editora continuou a privilegiar em seu catálogo as seleções de crônicas contemporâneas (como as Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz) e as antologias dos mais importante poetas modernos brasileiros (Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana entre outros).

Fora dessas vertentes, a editora publicaria ainda duas glórias da literatura nacional: A Paixão segundo GH, de Clarice Lispector e A Educação pela Pedra, de João Cabral de Melo Neto. Publicaria também um best-seller internacional, O apanhador no campo de centeio, de J.D. Salinger.  

A Editora do Autor teria vida relativamente efêmera. Inaugurada em 1960, seguiu suas atividades até 1966, quando a sociedade se desfez. Fernando Sabino e Rubem Braga, contudo, continuaram a parceria editorial e fundaram, nesse mesmo ano, outra editora, a Editora Sabiá, que foi vendida e incorporada à Livraria José Olympio Editora em 1972. Se durou pouco a história da Editora do Autor, não há dúvidas de que em seus anos de atividade ela foi um meio importante para a divulgação do que se produzia de melhor na literatura brasileira.

 

A pré-estreia

 

Embora a estreia oficial da Editora do Autor tenha se dado em dezembro de 1960 pelo lançamento das quatro obras dos quatro escritores brasileiros contemporâneos, dois meses antes a editora havia lançado de fato sua primeira obra. O livro era de autoria de uma grande personalidade intelectual, o filósofo francês Jean Paul Sartre, que esteve no Brasil entre agosto e outubro de 1960. Tempos antes, ele havia publicado em jornais uma série de artigos sobre Cuba, onde esteve para conferir de perto os primeiros passos da revolução cubana. A reunião desses artigos viraria o livro O Furacão sobre Cuba, a pré-estreia da Editora. A primeira missão editorial da Editora do Autor foi então preparar a edição a toque de caixa para lançá-la na presença de seu autor. Fernando Sabino conta que uma semana se passou entre a entrega dos originais e o aparecimento do primeiro exemplar. Em setembro de 1960 o livro foi lançado num shopping em Copacabana, onde Sartre estava presente para autografar a obra. A pré-estreia não poderia ter sido melhor. Em duas semanas foram vendidos os cinco mil exemplares impressos. No dia do lançamento, Sabino perguntou a Sartre se ele também não faria um livro semelhante sobre o Brasil. E o filósofo francês respondeu: “Façam uma revolução”.

 

João

2 Comments

  1. Caros amigos, busco informação sobre a noite de lançamento, em 26/11/1962, de 5 livros/autores da Editora do Autor: Vinicius (Para viver um grande amor), Drummond (A bolsa e a vida), Fernando Sabino (A mulher do vizinho), Paulo Mendes Campos (o homenzinho na ventania) e Otto Lara Resende (O retrato na gaveta). A festa foi no Clube Marimbás em Copacabana e faz parte da crônica literário do Rio de Janeiro… agradeço qualquer info… abraço…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *