Cruz e Sousa, o simbolismo à margem

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por Patrick Martins Barbosa

Nascido em Desterro, atual Florianópolis, o poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) é considerado o inaugurador do Simbolismo no Brasil, o que se se deu com a publicação de duas obras: os poemas em prosa de Missal, publicados em fevereiro de 1893, e os poemas de Broquéis, que saiu em agosto nesse mesmo ano. Publicadas postumamente, Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905) são outras importantes obras do poeta. Na opinião do crítico literário Alfredo Bosi, seus livros de estreia são exercícios literários da técnica simbolista e Broquéis se destaca como renovador da expressão poética em língua portuguesa.

Broquéis, 1893

Simbolismo na Europa e no Brasil

O Simbolismo surge na Europa nos finais do século XIX. O movimento é marcado por uma visão subjetiva, simbólica e espiritualizada do mundo, que se contrapõe às perspectivas realistas e parnasianas que lhe antecederam. Do ponto de vista histórico-social, o Simbolismo pode ser visto como expressão da insegurança e desconfiança em relação ao suposto progresso social, técnico e econômico promovido pelas revoluções industriais, científicas e sociais que perpassaram a Europa ao longo do século. 

Diferentemente da Europa, o cenário sócio-político brasileiro do fim do século foi marcado pela Abolição da Escravidão (1888) e pela Proclamação da República (1889). No Brasil, o campo social dividia-se de um lado pela luta das campanhas abolicionistas e de outro pelo reavivamento do racismo.

O simbolismo brasileiro ocupará sempre uma posição marginal em relação à  literatura oficial, dominada pelo realismo (que adere ao darwinismo social e determinismo geográfico) e pelo parnasianismo (marcado pelo preciosismo linguístico e pelo culto à forma).

Formas e temas da poesia de Cruz e Sousa

A obra de Cruz e Sousa é o princípio da experiência estética simbolista no Brasil e foi influenciada sobretudo pelos poetas franceses Charles Baudelaire (1821-1867), Stéphane Mallarmé (1842-1898) e Paul Verlaine (1844-1896). Na escrita de Cruz e Sousa, temas como a dor, o absoluto, o individualismo e o sensualismo aparecem sob a nova roupagem dos símbolos. No poema Siderações, por exemplo, a angústia sexual pode ser compreendida pela chave do processo psicológico de sublimação, pelo qual um impulso socialmente inaceitável assume uma forma aceitável: 

“Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo…
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…
Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta…
E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta…”

SOUSA, Cruz e. Broquéis. Rio de Janeiro: Magalhães Editores; Typ. G. Leuzinger e Filhos, 1893.

A musicalidade é outra característica marcante da poesia de Cruz e Sousa. Num dos poemas mais conhecidos do autor, Violões que Choram, a musicalidade é criada por meio da aliteração, figura de linguagem que se caracteriza pela repetição de fonemas idênticos ou parecidos. Nesse poema, o ritmo, o som e o sentido das palavras representam de maneira muito expressiva o som do instrumento: 

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso…
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso.

SOUSA, Cruz e. Pharóes. Rio de Janeiro: Typographia do Instituto Profissional, 1900.

Em Últimos Sonetos é possível notar outro elemento importante da obra de Cruz e Sousa: a temática religiosa, que se apresenta de forma diferente do catolicismo tradicional, esvaziado em fórmulas e doutrinas. O Amor é o guia da conduta humana, diante da inevitabilidade da morte. É o momento da poesia em língua portuguesa alcançar alto grau existencial, como pode ser observado no poema Sorriso Interior.

“O ser que é ser e que jamais vacila
nas guerras imortais entra sem susto,
leva consigo esse brasão augusto
do grande amor, da nobre fé tranquila.
Os abismos carnais da triste argila
ele os vence sem ânsias e sem custo…
Fica sereno, num sorriso justo,
enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores…
E para ironizar as próprias dores
canta por entre as águas do Dilúvio!”

SOUSA, Cruz e. Últimos Sonetos. Paris: Typ, Aillaud, 1905.

A dor do poeta negro em uma sociedade racista

A dor é mais um tema recorrente na obra de Cruz e Sousa e está inevitavelmente ligada às atribulações vivenciadas pelo poeta. Filho de escravos alforriados, Cruz e Sousa abandonou os estudos para procurar emprego após a morte de seus protetores, os ex-proprietários de seus pais. Foi impedido de assumir cargo público por políticos que não aceitavam um negro no cargo de promotor do município de Laguna. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como arquivista e colaborou com diversos jornais. Os quatro filhos que teve com sua esposa, Gavita Gonçalves, morreram precocemente de tuberculose, o que levou sua esposa à loucura. Também acometido pela tuberculose, Cruz e Sousa morreu em 1898, em Curral Novo, Minas Gerais, para onde tinha se transferido para tratar da doença.

“[…] Tu és dos de Cam,
maldito, réprobo, anatematizado!
Falas em abstrações, em Formas,
em Espiritualidades, em Requintes,
em Sonhos!
Como se tu fosses das raças
de ouro e da aurora,
se viesses dos arianos,
depurado por todas as civilizações,
célula por célula, tecido por tecido,
cristalizado o teu ser num verdadeiro cadinho de ideias,
de sentimentos […]”

SOUSA, Cruz e. Evocações. Rio de Janeiro: Typ, Aldina, 1898.

O poema em prosa Emparedado é um dos exemplos mais ardentes do protesto de Cruz e Sousa contra as ideologias racistas de sua época e constitui importante instrumento de libertação, pois, embora legalmente alforriado, mantinha-se oprimido por causa do racismo. A liberdade, dilema da vida e da obra do autor, é um caminho com infinitos obstáculos. A angústia em Emparedado está na longa espera que o atormenta e de que se vale para afrontar os dogmas do racismo:

“Ah! Aquela era bem a hora infinita da esperança!

“De que subterrâneos viera eu já, de que torvos caminhos, trôpego de cansaço, as pernas bambaleantes, com a fadiga de um século, recalcando nos tremendos e majestosos infernos do Orgulho o coração lacerado, ouvindo sempre por toda parte exclamarem as vãs e vagas bocas: Esperar! Esperar! Esperar!”

SOUSA, Cruz e. Evocações. Rio de Janeiro: Typ, Aldina, 1898

Cruz e Sousa, em sua breve e intensa existência, vivenciou até aos últimos limites as consequências do racismo. O caráter etéreo e transcendente de muitos de seus poemas pode ser lido tanto como causa quanto como reação à posição marginal em que uma sociedade racista sistematicamente tentou colocá-lo, a despeito de todo o valor que demonstrou como homem e artista.  

“Abre os olhos à Vida e fica mudo!
Oh! Basta crer indefinidamente
Para ficar iluminado tudo
De uma luz imortal e transcendente.

[…]

Abandonar os lânguidos rugidos,
O infinito gemido dos gemidos
Que vai no lodo a carne chafurdando.

Erguer os olhos, levantar os braços
Para o eterno Silêncio dos Espaços
e no Silêncio emudecer olhando…”

SOUSA, Cruz e. Últimos Sonetos. Paris: Typ, Aillaud, 1905

Conteúdos complementares

Seleção BBM Digital – João da Cruz e Souza (1863-1898)

Documentário: Cisne Negro – Uma homenagem ao poeta Cruz e Sousa. Por: Street Art Tour, julho de 2020. Disponível no Youtube.

Referências

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2015.

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

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Patrick Martins Barbosa é graduando em filosofia pela FFLCH-USP e bolsista da BBM pelo Programa Unificado de Bolsas (PUB-2020-2021).

A arte da capa deste post é uma cortesia dos designers Heitor Cameu e Rodolpho Malvestiti.

Curadoria

3 Comments

  1. Recomendo ao autor o excelente livro de Uelinton Farias Alves (que hoje se assina Tom Farias e tem escrito na Folha de São Paulo), biografia de Cruz e Sousa, bem como a biografia de José do Patrocínio pelo mesmo autor.
    O texto do blog ficou bem interessante!

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