Vidas Secas – a história por trás do título

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Se é válida a recomendação de não se julgar um livro pela capa, o mesmo deve valer para seu título. Mas se a capa pode mudar de edição para edição, o título permanece e se oferece ao leitor como a verdadeira fachada da obra. Uma escolha feliz é capaz de sugerir ao leitor o ambiente que ele encontrará no interior do livro. Guardados na memória, títulos de livro – como nomes de pessoas – enfeixam expectativas, sensações, ilusões, conhecimentos. Por meio deles acessamos impressões vívidas ou vagas, lembranças prazerosas ou decepcionantes, desejos de encontro ou reencontro.

Um dos livros mais famosos da literatura brasileira, talvez o mais famoso de seu autor, Graciliano Ramos, nasceu aos poucos nas páginas de jornais e revistas. Como disse Rubem Braga, por necessidade econômica de Graciliano, a obra foi estruturada de modo a ser vendida no atacado e no varejo.

“Baleia” foi o primeiro de uma série de contos publicados, posteriormente reunidos em nova ordem como capítulos de um romance. Em carta à mulher, Graciliano comenta sobre a experiência de escrever o conto:

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Página de rosto da prova tipográfica de Vidas Secas – o momento em que o romance ganha seu título definitivo

Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. É a quarta história feita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos parados. Tento saber o que eles têm por dentro.

Foi justamente o nome de um dos personagens mais emblemáticos do livro, Baleia, a primeira escolha de Graciliano para o título, como se vê na capa do datiloscrito original da obra. Mas a primeira escolha já está coberta por outro título, manuscrito: “O mundo coberto de penas”, o título do 12º capítulo do livro. Foram enviados os originais à editora José Olympio, que imprimiu a prova tipográfica com esse título. Mas mais uma vez o autor muda de ideia e risca o nome impresso e escreve à mão o definitivo: Vidas Secas.

Segundo “O velho Graça”, biografia do escritor alagoano escrita por Dênis de Moraes, o poeta Augusto Frederico Schmidt sugeriu que o livro se chamasse Vidas amargas. Daniel Pereira, irmão de José Olympio, trocou amargas por secas e Graciliano se convenceu de que esse seria o melhor nome para o livro.

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Detalhe da página de rosto do datiloscrito de Vidas Secas, onde se pode os dois títulos provisórios do romance, “O mundo coberto de penas” e Baleia (escrito à maquina e rasurado)

Cristalizado um título, é difícil imaginar se outra possibilidade caberia melhor a um livro. Em relação à “Baleia” e “O mundo coberto de penas”, Vidas secas parece mais de acordo com o esforço de depuração de linguagem, tão característica da escrita de Graciliano. “Baleia” talvez sintetizasse o projeto de “saber o que eles têm por dentro” e “O mundo coberto de penas” traria a imagem factual das aves que arribam anunciando o início da seca e de uma nova etapa de agruras, mas também permite ser lido como imagem da condição humana, a penar pelo mundo. No título Vidas secas, ao contrário, não há subentendidos nem ambiguidades, ele condensa tema e estrutura da obra de forma simples e transparente. Não é difícil de imaginar que ao ouvir a sugestão de Daniel Pereira, Graciliano tenha dito: é isso! 

João

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