Graciliano Ramos (o Prefeito) e seus Relatórios de Gestão

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Graciliano Ramos em 1928

Graciliano Ramos em 1928

Em 7 de outubro de 1927, uma pequena cidade do interior de Alagoas, Palmeira dos Índios, elegeu o seu prefeito. Este, toma posse em 7 de Janeiro de 1928 permanecendo no cargo até 10 de Abril de 1930, quando renuncia ao mandato de prefeito. Posteriormente, este ex-Prefeito seria o autor de um dos maiores clássicos da literatura brasileira: Vidas Secas.

Os relatórios de Graciliano Ramos enviados ao governador de Alagoas (1929, 1930),  já na época, chamaram a atenção da mídia (LIMA, p. 83), não somente pela qualidade literária (pois o Prefeito não se utilizou da formalidade que tais documentos normalmente carregam, e sim, de uma construção linguística própria dos grandes escritores), mas pela sua excelência na administração da cidade.

 

 

COMEÇOS
[…]
Havia em Palmeira innumeros prefeitos: os cobradores de impostos, o commandante do destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Municipio tinha a sua administração particular, com prefeitos coroneis e prefeitos inspectores de quarteirões. Os fiscaes, esses, resolviam questões de policia e advogavam.

Para que semelhante anomalia desapparecesse luctei com tenacidade e encontrei obstaculos dentro da Prefeitura e fóra della — dentro, uma resistencia molle, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, obliqua, carregada de bilis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam tres mezes para levar um tiro.
Dos funccionarios que encontrei em Janeiro do anno passado restam poucos: sahiram os que faziam politica e os que não faziam coisa nenhuma. Os actuaes não se mettem onde não são necessarios, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Dêvo muito a elles.

Não sei se a administração do Municipio é boa ou ruim. Talvez pudesse ser peor (ALAGOAS, 1929).

 

Graciliano (ao centro, de chapéu). À direita, de vestido escuro, Heloísa. Palmeira dos Índios, 1929

Graciliano (ao centro, de chapéu). À direita, de vestido escuro, Heloísa. Palmeira dos Índios, 1929

 

Exerceu a administração com excelência. Com poucos recursos em caixa, elaborou projetos, realizou obras na cidade, construiu escolas, abriu estradas, saneou comunidades, soube lidar com a vontade dos soberanos da terra e vetou apadrinhamentos políticos. Foi talvez o único gestor de toda a história da cidade a deixar dinheiro nos cofres ao sair do cargo, cortando gastos e equilibrando as receitas e contas públicas (LOPES, 2016; FREITAS, 2015).

 

COMEÇOS
[…]
Dos funccionarios que encontrei em Janeiro do anno passado restam poucos: sahiram os que faziam politica e os que não faziam coisa nenhuma. Os actuaes não se mettem onde não são necessarios, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Dêvo muito a elles (ALAGOAS, 1929).

 

LEIS MUNICIPAES
Em Janeiro do anno passado não achei no Municipio nada que se parecesse com lei, fora as que havia na tradição oral, anachronicas, do tempo das candeias de azeite.

Constava a existencia de um codigo municipal, coisa inattingivel e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quasi a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o codigo era uma especie de lobishomem.

Afinal, em Fevereiro, o secretario descobriu-o entre papeis do Imperio. Era um delgado volume impresso em 1865, encardido e dilacerado, de folhas soltas, com apparencia de primeiro livro de leitura do Abilio Borges. Um furo. Encontrei no folheto algumas leis, aliás bem redigidas, e muito sêbo.

Com ellas e com outras que nos dá a Divina Providencia consegui aguentar-me, até que o Conselho, em Agosto, votou o codigo actual (ALAGOAS, 1929).

 

MULTAS
[…]
E não se esmerilharam contravenções. Pequeninas irregularidades passam despercebidas. As infracções que produziram somma consideravel para um orçamento exiguo referem-se a prejuizos individuaes e foram denunciadas pelas pessoas offendidas, de ordinario gente miuda, habituada a soffrer a oppressão dos que vão trepando.

Esforcei-me por não commetter injustiças. Isto não obstante, atiraram as multas contra mim como arma politica. Com inhabilidade infantil, de resto. Se eu deixasse em paz o proprietario que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pastio a lavoura, devia enforcar-me (ALAGOAS, 1930).

 

ILLUMINAÇÃO

A illuminação da cidade custou 8:921$800. Se é muito, a culpa não é minha: é de quem fez o contracto com a empresa fornecedora de luz (ALAGOAS, 1929).

— 7:800$000 A Prefeitura foi intrujada quando, em 1920, aqui se firmou um contracto para o fornecimento de luz. Apesar de ser o negocio referente a claridade, julgo que assignaram aquillo ás escuras. É um bluff. Pagamos até a luz que a lua nos dá (ALAGOAS, 1930).

 

CONCLUSÃO

Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só ha curvas onde as rectas foram inteiramente impossiveis.

Evitei emmaranhar-me em teias de aranha.

Certos individuos, não sei porque, imaginam que devem ser consultados; outros se julgam com autoridade bastante para dizer aos contribuintes que não paguem impostos.

Não me entendi com esses.

Ha quem ache tudo ruim, e ria constrangidamente, e escreva cartas anonymas, e adoeça, e se morda por não ver a infallivel maroteirazinha, a abençoada canalhice, preciosa para quem a pratica, mais preciosa ainda para os que della se servem como assumpto invariavel; ha quem não comprehenda que um acto administrativo seja isento da idéa de lucro pessoal; ha até quem pretenda embaraçar-me em coisa tão simples como mandar quebrar as pedras dos caminhos.

Fechei os ouvidos, deixei gritarem, arrecadei 1:325:500 de multas.

Não favoreci ninguem. Devo ter commetido numerosos disparates. Todos os meus erros, porem, foram erros da intelligencia, que é fraca.

Perdi varios amigos, ou individuos que possam ter semelhante nome.

Não me fizeram falta.

Ha descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois annos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e prosperidade (ALAGOAS, 1929).

 

POBRE POVO SOFFREDOR
É uma interessante classe de contribuintes, modica em numero, mas bastante forte. Pertencem a ella negociantes, proprietarios, industriaes, agiotas que esfolam o proximo com juros de judeu.

Bem comido, bem bebido, o pobre povo soffredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer hygiene. É exigente e resmungão.

Como ninguem ignora que se não obtêm de graça as coisas exigidas, cada um dos membros desta respeitavel classe acha que os impostos devem ser pagos pelos outros (ALAGOAS, 1930).

 

PROJECTOS

[…]
Empedrarei, se puder, algumas ruas.

Tenho tambem a idéa de iniciar a construcção de açudes na zona sertaneja.

Mas para que semear promessas que não sei se darão fructos? Relatarei com pormenores os planos a que me referi quando elles estiverem executados, se isto acontecer.

Ficarei, porém, satisfeito se levar ao fim as obras que encetei. É uma pretenção moderada, realizavel. Se se não realizar, o prejuizo não será grande.

O Municipio, que esperou dois annos, espera mais um. Mette na Prefeitura um sujeito habil e vinga-se dizendo de mim cobras e lagartos.

Paz e prosperidades (ALAGOAS, 1930).

 

Relatórios ao Governador do Estado de Alagoas (1929, 1930)

Relatórios ao Governador do Estado de Alagoas (1929, 1930)

 

Sua renúncia partiu das pressões políticas contra o seu trabalho na prefeitura e das dificuldades financeiras privadas decorrentes e agravadas pela crise de 1929, que afetou os negócios da família. Embora ganhasse subsídios simbólicos como Prefeito, não se locupletava com a corrupção. Empobrecera em dois anos de mandato (LOPES, 2016).

Em Maio de 1930 muda-se para Maceió e é nomeado, pelo Governador, diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. Em 1933, é nomeado diretor da Instrução Pública de Alagoas, cargo equivalente a Secretário Estadual da Educação e contratado como redator do Jornal de Alagoas. Publica o romance Caetés, seu primeiro livro, pela Editora Schmidt – RJ, neste mesmo ano.

 

 

REFERÊNCIAS:

ALAGOAS. Prefeitura Municipal de Palmeira dos Indios. Relatório ao Governador do Estado de Alagoas. 1929. Disponível em: https://pt.wikisource.org/wiki/Relatorio_ao_Governador_do_Estado_de_Alagoas

ALAGOAS. Prefeitura Municipal de Palmeira dos Indios. Relatório ao Governador do Estado de Alagoas. 1930. Disponível em: https://pt.wikisource.org/wiki/2.%C2%B0_Relatorio_ao_Sr._Governador_Alvaro_Paes

FREITAS, Eber. Os relatórios de Graciliano Ramos, ou o Político que nós queremos. 2015. Disponível em: http://www.livreironomade.com.br/2015/06/os-relatorios-de-graciliano-ramos-ou-o.html

LIMA, Mário Hélio Gomes de.  Graciliano Ramos: Relatórios. Rio de Janeiro: Record; Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1994.

LOPES, Marcus. O prefeito Graciliano Ramos e seus relatórios de gestão. 2016. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/reportagem/2016/03/12/O-prefeito-Graciliano-Ramos-e-seus-relat%C3%B3rios-de-gest%C3%A3o

MIRANDA, André. Graciliano Ramos, o político: ordem na literatura e na administração. 2013. Disponível em: http://blogs.oglobo.globo.com/prosa/post/graciliano-ramos-politico-ordem-na-literatura-na-administracao-501614.html

RAMOS, Graciliano. Site Oficial do Escritor Graciliano Ramos. Disponível em: http://graciliano.com.br/

Rodrigo M. Garcia

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