Por Milena Miyazaki Grigoletto
No amplo acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), exemplares de variados gêneros textuais podem ser encontrados. Faz parte desse grande conjunto o manuscrito em formato de diário de Patrícia Rehder Galvão (1910-1962) e Oswald de Andrade (1890-1954): o romance da época anarquista ou livros das horas de Pagu que são minhas — o romance romântico — 1929–1931.
Para detalhar o manuscrito, obteve-se informação por meio de Mariana Diniz Mendes, doutoranda em Literatura Brasileira pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), cujos estudos são voltados à escrita memorialística, com foco no exercício da escrita feminina no gênero textual diário. Um de seus objetivos é observar como mulheres praticavam nesses diários uma voz autoral, já que o processo de afirmação feminina como escritoras no Brasil foi lento. Ela lembra que, ainda no século XIX, muitas mulheres encontraram no diário uma forma de exercitar uma voz autoral. Como pesquisadora residente na BBM, ela trabalhou com a transcrição do diário compartilhado de Patrícia Galvão e Oswald de Andrade. Apelidado por Mendes de o romance, com o objetivo de “estabilizar uma primeira leitura capaz de identificar, quando possível, a escrita de Patrícia Galvão e de Oswald de Andrade”. Seu primeiro contato com o manuscrito ocorreu na exposição que celebrou os 10 anos da BBM, realizada em 2023.
Além de investigar a expressão autoral feminina no romance, há também a preocupação em realizar uma leitura integral do manuscrito, algo que, de acordo com Mariana, foi pouco feito por outros pesquisadores. Ela explica que o primeiro a olhar para o romance com uma ideia de documento é Augusto de Campos, poeta e tradutor brasileiro, em Pagu vida-obra, que teve suas primeiras três tiragens publicadas a partir do ano de 1982 pela editora Brasiliense (CAMPOS, 2014, p. 11) e as publicações sobre o diário geralmente remetem a essa fonte.
Conforme apurado pela pesquisadora, a trajetória do diário até o acervo da BBM sucedeu-se por meio de Rudá, filho de Patrícia Galvão e Oswald de Andrade, que o vendeu a José Mindlin. O romance da época anarquista ou livro das horas de Pagu que são minhas, título dado por Oswald de Andrade, foi escrito entre os anos de 1929 a 1931, nem sempre em ordem cronológica “ou que contenha padrões ou regularidades, pelo contrário”, observa Mendes.
O romance apresenta uma encadernação convencional plena em couro verde escuro, parte do ex–libris de José Mindlin, medindo 19 centímetros de altura por 12 centímetros de largura e encontra-se catalogado na plataforma Dedalus da Universidade de São Paulo como o romance da época anarquista, com autoria somente de Patrícia Galvão, assunto que será discutido mais adiante.

Crédito: Milena Miyazaki Grigoletto.

Crédito: Milena Miyazaki Grigoletto

Crédito: Milena Miyazaki Grigoletto
Das 96 folhas que compõem o diário, desconsiderando as 4 que foram arrancadas, 68 são páginas são de Pagu e 28 de Oswald de Andrade. Dessas 96 páginas, 68 apresentam registros escritos ou desenhos feitos a tinta e a lápis. Entre elas, 24 são entradas, ou seja, páginas que são datadas como um diário: 18 escritas por Pagu e 6 por Oswald. Além disso, há cinco desenhos assinados por “P.”, que são de autoria de Patrícia Galvão; Oswald por sua vez não realiza nenhum desenho ao longo do diário. Por fim, em relação às páginas em branco, Mendes aponta que se devem tanto pelas manchas de tinta quanto por uma preocupação estética de se escrever nas páginas pares.
De modo geral, o que se observa ao longo das páginas é um jogo de chiste entre Pagu e Oswald: quando se sente provocado, Oswald reage e escreve em seguida nas páginas. São frequentes as interpolações e trocas entre os dois, além dos momentos em que ambos chegam a escrever juntos; por isso, em muitos trechos, torna-se difícil distinguir a autoria de Pagu e Oswald.
De acordo com o que foi examinado por Mariana, “o caráter transgressor do próprio gênero diário é o que se destaca” e o ponto forte do manuscrito são os epigramas e biogramas, sendo os epigramas aqueles que trazem uma carga maior de poesia se aproximando de versos. A exemplo de epigrama, são destacados por Mariana dois trechos transcritos entre Pagu e Oswald:


“Amor já tive tudo de ti e quero mais
(Transcrição realizada por Mariana Diniz Mendes)
V. não pode comigo
Vou arranjar outro
P.
Eu mesmo arranjo”
Como mencionado anteriormente, há uma questão de autoria que circunda o romance anarquista, o diário acaba sendo mais conhecido como sendo de autoria de Patrícia Galvão. Quando questionada em relação a isso, a pesquisadora afirmou que além de possuir mais entradas no diário, Pagu exibe uma escrita mais experimental com traços próprios na pontuação, letras espalhafatosas e grandes, enquanto Oswald faz entradas mais humoradas, com presença mais pontual e distanciadas de um registro do “eu”.


A respeito do gênero, Mendes observa que o diário é visto historicamente como uma prática mais associada às mulheres. No entanto, lembra que, paradoxalmente, foram os diários masculinos os mais publicados. Ainda que não exista um levantamento quantitativo sobre o tema, ela destaca estudiosos como Philippe Lejeune, que já apontaram a frequência com que o “eu” feminino se valia desse registro como espaço de desabafo e organização íntima. Em o romance, esse aspecto se torna evidente: “a carga emocional, confessional, sentimental, amorosa, do corpo, do sangue, do aborto” impregna o manuscrito. A pesquisadora comenta que essa intensidade dá a impressão de “Oswald parecer uma visita, algo que é apenas uma falsa impressão, pois ele é autor do manuscrito, tanto quanto ela.”

Crédito: Milena Miyazaki Grigoletto

Crédito: Milena Miyazaki Grigoletto.
No ano em que o romance da época anarquista começa a ser escrito, ainda faltando dois meses para o início das entradas no diário, no dia 24 de março de 1929, é publicada a primeira colaboração de Patrícia Galvão na Revista de Antropofagia, nessa época difundida em uma página no Diário de São Paulo (FONSECA, 1982, p. 59), em sua segunda dentição n° 02, com “Desenho de Pagú”.
Em 24 de maio de 1929 iniciam-se as entradas em o romance da época anarquista e, de acordo com Augusto Campos, essa data possivelmente marca também o início do relacionamento amoroso entre os dois (2014, p. 422); no diário há menções da chácara chamada Villa Rafaella, local onde se encontravam.



Em 28 de Setembro, Pagu se casa com o pintor Waldemar Belisário, primo de Tarsila do Amaral. Segundo aponta Gênese Andrade, estudiosa do modernismo brasileiro, existem diferentes versões em relação ao motivo do casamento. Em Paixão Pagu: Autobiografia precoce, Galvão cita um casamento de fachada para que ela, ainda menor de idade, pudesse se emancipar de sua família (GALVÃO, 2005, p. 59-60), enquanto outra versão seria que Pagu desejava “salvar a imagem prezada pela sociedade e ir ao encontro de Oswald” (ANDRADE, 2023, p. 14); esse casamento seria anulado pouco tempo depois.
Ainda nesse mesmo ano de 1929, Oswald de Andrade rompe com vários amigos, incluindo Antônio Alcântara Machado e Mário de Andrade. Em outubro, com a crise da bolsa de Wall Street, que desencadeou no Brasil a crise do café, inicia-se o período em que começam as dificuldades financeiras de Oswald (FONSECA, 1982, p. 97).
Em dezembro, Pagu e Oswald viajam para a Bahia. Em sua autobiografia, Galvão afirma que já estava grávida de Oswald de Andrade “sem o saber”. Ao retornar da Bahia, Oswald encerra seu casamento com Tarsila (GALVÃO, 2005, p. 61).
Aos 19 anos e 39 anos de idade, casaram-se Pagu e Oswald de Andrade, no dia 5 de janeiro de 1930. Nesse momento há uma entrada no diário com letra de Oswald (ANDRADE, 2009, p. 11):

“Nesta data contrataram casamento a jovem amorosa Patrícia Galvão e o crápula forte Oswald de Andrade.
Foi diante do túmulo do cemitério da Consolação, a rua 17, n° 17, que assumiram o heroico compromisso.
Na luta imensa que sustentam pela vitória da poesia e do estômago, foi o grande passo prenunciador, foi o desafio máximo.
Depois se retrataram diante de uma igreja. Cumpriu-se o milagre. Agora sim, o mundo pode desabar.”
(ANDRADE, 2009, p. 11)
No dia 25 de Setembro de 1930, Pagu faz uma entrada no diário sobre o nascimento de Rudá Poronominare Galvão de Andrade.

Crédito: Milena Miyazaki Grigoletto
No último ano que o diário recebeu entradas de seus autores (1931), Pagu e Oswald de Andrade criam em conjunto, em 27 de março de 1931, O Homem do Povo, jornal panfletário em que Patrícia assinava as ilustrações sob pseudônimos e contribuía na seção chamada A Mulher do Povo. Mendes destaca que nesse período de produção do jornal a aparece a crítica à burguesia feita por Pagu em um de seus artigos mais conhecidos, “As normalinhas”, publicado na edição n° 7 em 9 de abril de 1931. O jornal teve pouca duração e foi empastelado nos dias 9 e 13 de abril de 1931 pelos estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.
Por volta da mesma época, Pagu ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCB), que mantinha sua sede no Rio de Janeiro. Após o empastelamento do jornal O Homem do Povo, o casal viajou a Montevidéu onde conheceu Luís Carlos Prestes; influenciado por Pagu, Oswald então aderiu ao comunismo (ANDRADE 2023, p. 15-16).
A penúltima entrada do diário foi feita em 23 de novembro de 1930. Após um grande intervalo, Oswald e Pagu registram a última entrada do diário em 2 de junho de 1931. Nesse contexto, o casal deixa de viver junto e Pagu inicia sua militância fora de São Paulo (ANDRADE, 2023, p. 15).

Crédito: Milena Miyazaki Grigoletto


Mais do que a trajetória pessoal de seus autores durante o período em que foi escrito, Mariana ressalta o valor intrínseco dos diários enquanto objeto de estudo, “fascinante por si só”, mesmo antes de ser tomado como complemento para análises literárias ou biográficas. Como afirma: “seja qual for a biografia sobre a qual um diário se desenvolva, ele sempre se torna um prisma para examinar a escrita, essa atividade tão misteriosa. No caso das mulheres, a escrita de diários é parte do processo de conquista de uma voz autoral.”
Ao refletir sobre o manuscrito em si, a pesquisadora conclui: “quem se aproxima do romance se sente fascinado. É um caderno pequeno de onde se depreende movimento: letras variadas, irregularidade no modo de preencher as páginas, saltam desenhos e há nele uma escrita fragmentada que é caótica e poética, simultaneamente.
”O romance da época anarquista permanece aberto a novas leituras e possibilidades de investigação, acessível a partir do acervo da BBM, localizada na Cidade Universitária na Rua da Biblioteca, nº 21.
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Notas
* GALVÃO, Patrícia Rehder. Paixão Pagu : a autobiografia precoce de Patrícia Galvão. Rio de Janeiro: Agir,
2005, p. 31.
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Referências
ANDRADE, Gênese (org). Meu corpo quer extensão: Uma antologia [1929-1948]. 1. ed. São
Paulo: Companhia das Letras, 2023.
ANDRADE, Gênese. Pagu, Oswald, Segall. 1. ed. São Paulo: Museu Lasar Segall; Imesp,
2009.
CAMPOS, Augusto de. Pagu vida-obra. 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
FONSECA, Maria Augusta. Oswald de Andrade. O Homem que Come. São Paulo:
Brasiliense, 1982.
GALVÃO, Patrícia Rehder. O romance da época anarquista: ou livro das horas de Pagu que
são minhas. [s.l]: [s.n.], [1929-1931].
GALVÃO, Patrícia Rehder. Paixão Pagu: a autobiografia precoce de Patrícia Galvão. Rio de
Janeiro: Agir, 2005.
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Milena Miyazaki Grigoletto é graduanda em Letras (Português/Alemão) pela FFLCH-USP e bolsista do projeto “Literatura brasileira na BBM”, coordenado por Hélio de Seixas Guimarães (PUB-2024-2025).



