O capítulo excluído de Macunaíma

Share

Em sua primeira edição, publicada em 1928, Macunaíma era composto por 18 capítulos e um epílogo. A partir da segunda edição, que saiu em 1937, a rapsódia de Mário de Andrade contava com 17 capítulos e um epílogo. O que difere a primeira das demais edições é o capítulo intitulado “As três normalistas”, que era o décimo primeiro da edição de 1928 e que foi suprimido pelo autor na edição seguinte. Contudo, muito do que havia nesse capítulo suprimido foi preservado, tendo sido incorporado ao capítulo “A velha Ceiuci”, o décimo segundo na primeira e o décimo primeiro nas demais edições. O que só se pode ler na primeira edição do livro é o episódio em que Macunaíma tenta conquistar três estudantes da Escola Normal da Praça da República, em São Paulo. Não se sabe o que levou Mário de Andrade a excluir esse episódio do livro. O autor talvez tenha cedido à pressão da provinciana elite paulista, que teria visto no episódio o questionamento dos bons costumes das meninas de boas famílias paulistanas. Noutro sentido, Telê Ancona Lopez em sua edição crítica de Macunaíma, argumenta que a passagem quebraria a lógica narrativa do personagem principal, invencível conquistador amoroso. Excluído o malogro reiterado das investidas às normalistas, ficaria restituída a coerência da construção do personagem. Seja qual for a razão, abaixo é possível apreciar o capítulo “As três normalistas” na íntegra. Vale notar que o trecho vetado a partir da segunda edição vai do parágrafo inciado por “Mas estava muito contrariado por ter perdido a aposta” até o fim do capítulo.

astrêsnormalistas

No outro dia o herói acordou muito constipado. Era porque apesar do calorão da noite ele dormira de roupa com medo da Caruviana que pega indivíduo dormindo nu. Mas estava muito ganjento com o sucesso do discurso da véspera. Esperou impaciente os quinze dias da doença resolvido a contar mais casos pro povo. Porém quando se sentiu bom era manhãzinha e quem conta história de dia cria rabo de cotia. Por isso convidou os manos pra caçar, fizeram.

Quando chegaram ao bosque da Saúde o herói murmurou:

– Aqui serve.

Dispôs os manos nas esperas, botou fogo no bosque e ficou também amoitado esperando que saísse algum viado mateiro pra ele caçar. Porém não tinha nenhum viado lá e quando queimada acabou, jacaré saiu? pois nem viado mateiro nem viado catingueiro, saíram só dois ratos chamuscados. Então o herói caçou os ratos chamuscados, comeu-os e sem chamar os manos voltou pra pensão.

Lá chegado ajuntou os vizinhos, criados a patroa cunhãs datilógrafas estudantes empregados-públicos, muitos empregados-públicos! todos esses vizinhos e contou pra eles que tinha ido caçar na feira do Arouche e matara dois…

– …mateiros, não eram viados mateiros não, dois viados catingueiros que comi com os manos. Até vinha trazendo um naco pra vocês mas porém escorreguei na esquina, caí derrubei o embrulho e cachorro comeu tudo.

Toda a gente se sarapantou com o sucedido e descofiaram do herói. Quando Maanape e Jiguê voltaram, os vizinhos foram perguntar pra eles si era verdade que Macunaíma caçara dois catingueiros na feira do Arouche. Os manos ficaram muito enquizilados porque não sabiam mentir e exclamaram irritadíssimos:

– Mas que catingueiros esses! O herói nunca matou viado! Não tinha nenhum viado na caçada não! Gato miador, pouco caçador, gente! Em vez foram dois ratos chamuscados que Macunaíma pegou e comeu.

Então os vizinhos perceberam que tudo era mentira do herói, tiveram raiva e entraram no quarto dele pra tomar satisfação. Macunaíma estava tocando numa flautinha feita de canudo de mamão. Parou o sopro, aparou o bocal da flautinha e se admirou muito sossegado:

– Pra que essa gentama no meu quarto, agora!… Faz mal pra saúde, gente!

Todos perguntaram pra ele:

– O que foi mesmo que você caçou, herói?

– Dois viados mateiros.

Então os criados as cunhãs estudantes empregados-públicos, todos esses vizinhos principiaram rindo dele. Macunaíma sempre aparando o bocal da flautinha. A patroa cruzando os braços ralhou assim:

– Mas, meus cuidados, pra que você fala que foram dois viados e em vez foram dois ratos chamuscados! Macunaíma parou assim os olhos nela e secundou:

– Eu menti.

Todos os vizinhos ficaram com cara de André e cada um foi saindo na maciota. E André era um vizinho que andava sempre encalistrado. Maanape e Jiguê se olharam, com inveja da inteligência do mano. Maanape inda falou pra ele:

– Mas pra que você mentiu, herói!

– Não foi por querer não… quis contar o que tinha sucedido pra gente e quando reparei estava mentindo…

Jogou a flautinha fora, pegou no ganzá pigarreou e descantou. Descantou a tarde inteirinha uma moda tão sorumbática mas tão sorumbática que os olhos dele choravam a cada estrofe. Parou porque os soluços não deixaram mais continuar. Largou do ganzá. Lá fora a vista era uma tristura de entardecer dentro da cerração. Macunaíma sentiu-se desinfeliz e teve saudades de Ci a inesquecível. Chamou os manos pra se consolarem todos juntos. Maanape e Jiguê sentaram junto dele na cama e os três falaram longamente da Mãe do Mato. E espalhando a saudade falaram dos matos e cobertos cerrações deuses e barrancas traiçoeiras do Uraricoera. Lá que eles tinham nascido e se rido pela primeira vez nos macurus… Encostados nas maquiras pra lá do limpo do mocambo os guirás cantavam o que não dava o dia e eram pra mais de quinhentas as famílias dos guirás… Perto de quinze vezes mil espécies de animais assombravam o mato de tantos milhões de paus que não tinham mais conta… Uma feita um branco trouxera da terra dos ingleses, dentro dum sapicuá gótico, a constipação que fazia agora Macunaíma tanto chorar de sodades… E a constipação tinha ido morar no antro das formigas mumbucas mui pretas. Na escureza o calor se amaciava como saindo das águas; pra trabalhar se cantava; nossa mãe ficara virada numa coxilha mansa no lugar chamado Pai da Tocandeira… Ai, que preguiça… E os três manos perceberam pertinho o murmurejo do Uraricoera! Oh! como era bom por lá… O herói se atirou pra trás chorando largado na cama.

Quando a vontade de chorar parou, Macunaíma afastou os mosquitos e quis espairecer. Se lembrou de ofender a mãe do gigante com uma bocagem novinha vinda da Austrália. Virou Jiguê na máquina telefone porém o mano inda estava muito confundido com o caso da mentira do herói e não houve meios de ligar. O aparelho tinha defeito. Então Macunaíma fumou fava de paricá pra ter sonhos gostosos e adormeceu bem.

No outro dia lembrou que precisava se vingar dos manos e resolveu passar um pealo neles. Levantou madrugadinha e foi esconder no quarto da patroa. Brincou pra fazer tempo. Depois voltou falando afobado pros manos:

– Oi, manos, achei rasto fresco de tapir bem na frente da Bolsa de Mercadorias!

– Que me diz, perdiz!

– Pois é. Quem que havia de dizer! Ninguém inda não matara tapir na cidade. Os manos se sarapantaram e foram com Macunaíma caçar o bicho. Chegaram lá, principiaram procurando o rasto e aquele mundão de gente comerciantes revendedores baixistas matarazos, vendo os três manos curvados pro asfalto procurando, principiaram campeando também, todo aquele mundão de gente. Procuraram procuraram, você achou? nem eles! Então perguntaram pra Macunaíma:

– Onde que você achou rasto de tapir? Aqui não tem rasto nenhum não! Macunaíma não parava de campear falando sempre:

– Tetápe dzónanei pemonéite hêhê zeténe netaíte. E os manos regatões zangões tequeteques madalenas e hungareses recomeçavam procurando o rasto. Quando cansavam e paravam pra perguntar, Macunaíma campeando sempre secundava:

– Tetápe dzónanei pemonéite hêhê zeténe netaíte. E todo aquele mundão de gente procurando. Era já perto da noite quando pararam desacorçoados. Então Macunaíma se desculpou:

– Tetápe dzónanei pemo… Não deixaram nem que ele acabasse, todos perguntando o que significava aquela frase. Macunaíma respondeu:

– Sei não. Aprendi essas palavras quando era pequeno lá em casa.

E todos se queimaram muito. Macunaíma fastou disfarçado falando:

– Calma, gente! Tetápe hêhê! Não falei que tem rasto de tapir não, falei que tinha! Agora não tem mais não.

Foi pior. Um dos comerciantes se zangou de verdade e o repórter que estava ao pé dele vendo o outro zangado zangou também por demais.

– Isso não vai assim não! Pois então a gente vive trabucando pra ganhar o pão-nosso e vai um indivíduo tira a gente o dia inteiro do trabalho só pra campear rasto de tapir!

– Mas eu não pedi pra ninguém procurar rasto, moço, me desculpe! Meus manos Maanape e Jiguê é que andaram pedindo, eu não! Culpa é deles!

Então o povo que já estava todo zangado virou contra Maanape e contra Jiguê. Já todos, e eram muitos! estavam com vontade de armar uma briga. Então um estudante subiu na capota dum auto e fez discurso contra Maanape e contra Jiguê. O povo estava ficando zangadíssimo.

– Meus senhores, a vida dum grande centro urbano como São Paulo já obriga a uma intensidade tal de trabalho que não permite-se mais dentro da magnífica entrosagem do seu progresso siquer a passagem momentânea de seres inócuos. Ergamo-nos todos una voce contra os miasmas deletérios que conspurcam o nosso organismo social e já que o Governo cerra os olhos e delapida os cofres da Nação, sejamos nós mesmos os justiçadores…

– Lincha! lincha! que o povo principiou gritando.

– Que lincha nada! exclamou Macunaíma tomando as dores pelos manos.

E todos se viraram contra ele outra vez. E agora já estavam zangadíssimos. O estudante continuava pra si:

– …e quando o trabalho honesto do povo é perturbado por um desconhecido…

– O quê! quem que é desconhecido! berrou Macunaíma desesperado com a ofensa.

– Você!

– Não sou, ’tá’í!

– É!

– Ora vá desmamar jacu com alpiste, moço! Desconhecida é a senhora vossa mãe, ouviu! – e virando pro povo: O que vocês estão pensando, heim! Não tenho medo não! nem de um nem de dois nem de dez mil e daqui a pouco eu arraso tudo isto aqui!

Uma madalena que estava na frente do herói, virou pro comerciante atrás dela e zangou:

– Não bolina, senvergonha!

O herói estava cego de raiva, pensou que era com ele e:

– Que “não bolina” agora! não estou bolinando ninguém, sua lambisgóia!

– Lincha o bolina! Pau nele!

– Pois venham, cafajestes!

E avançou pra multidão. O advogado quis fugir porém Macunaíma atirou um pontapé nas costas dele e entrou pelo povo distribuindo rasteiras e cabeçadas. De repente viu na frente um homem alto loiro mui lindo. E o homem era um grilo. Macunaíma teve ódio de tanta boniteza e chimpou uma bruta duma bolacha nas fuças do grilo. O grilo berrou, e enquanto falava uma frase em língua estrangeira agarrou o herói pelo congote.

– Prrreso!

O herói gelou.

– Preso por quê?

O polícia secundou uma porção de coisas em língua estrangeira e segurou firme.

– Não estou fazendo nada! que o herói murmurava com medo.

Porém o grilo não quis conversa e foi descendo a ladeirinha com o povo todo atrás. Outro grilo chegou e os dois falaram muitas frases, muitas! em língua estrangeira e lá foram empurrando o herói ladeira abaixo. Um testemunha de tudo contou o sucedido pra um senhor que estava na porta duma casa de frutas e o senhor penalizado atravessou a multidão e fez os grilos pararem. Era já na rua Líbero. Então o senhor fez um discurso pros grilos, que eles não deviam de levar Macunaíma preso porque o herói não fizera nada. Tinha ajuntado uma porção de grilos mas nenhum não entendia o discurso porque nenhum não pescava nada de brasileiro. As mulheres choravam com dó do herói. Os grilos falavam por demais numa língua estrangeira e uma voz gritou:

– Não pode!

Então o povo ficou com muita vontade de pelear outra vez e de todos os lados agora estavam gritando: “Larga!”, “Não leva!”, “Não pode!”, “Não pode!”, um chinfrim, “Solta!”. Um fazendeiro estava disposto a fazer discurso insultando a Polícia. Os grilos não entendiam nada e gesticulavam, muito atrapalhados falando em língua estrangeira. Formou-se um furdunço temível. Então Macunaíma se aproveitou da trapalhada e pernas pra que vos quero! Vinha um bonde na carreira badalando. Macunaíma pongou o bonde e foi ver como passava o gigante.

Venceslau Pietro Pietra já principiava convalescendo da sova apanhada na macumba. Fazia um calorão dentro da casa porque era hora de cozinharem a polenta e fora a fresca era boa por causa do vento sulão. Por isso o gigante com a velha Ceiuci as duas filhas e a criadagem pegaram cadeiras e vieram sentar na porta da rua pra gozar a frescata. O gigante ainda não saíra do algodão e estava talequal um fardo caminhando. Sentaram.

O curumi Chuvisco andava librinando pelo bairro e encontrou Macunaíma negaceando da esquina. Parou e ficou olhando o herói. Macunaíma virou-se:

– Nunca viu não!

– Que que você está fazendo aí, conhecido!

– Estou assustando o gigante Piaimã com sua família.

Chuvisco debicou:

– Qual! não vê que gigante tem medo de ti! Macunaíma encarou o curumi empalamado e teve raiva. Quis bater nele porém lembrou decor: “Quando você estiver embrabecendo conta três vezes os botões da vossa roupa”, contou e ficou manso de novo. Então secundou:

– Quer apostar? Eu faço e aconteço e garanto que Piaimã vai pra dentro com medo de mim. Esconde lá perto pra escutar só o que eles falam.

Chuvisco avisou:

– Oi, conhecido, tome tento com gigante! Você já sabe do que ele é capaz. Piaimã está fraco está fraco porém canudo que teve pimenta guarda o ardume… Si você não tem medo mesmo, aposto.

Virou numa gota e pingou rente de Venceslau Pietro Pietra com a companheira as filhas e a criadagem. Então Macunaíma pegou na primeira palavra-feia da coleção e jogou na cara de Piaimã. O palavrão bateu de rijo porém Venceslau Pietro Pietra nem se incomodou, direitinho elefante. Macunaíma chimpou outra bocagem mais feia na caapora. A ofensa bateu rijo porém se incomodar é que ninguém se incomodou. Então Macunaíma jogou toda a coleção de bocagens e eram dez mil vezes dez mil bocagens. Venceslau Pietro Pietra falou pra velha Ceiuci, bem quieto:

– Tem algumas que a gente não conhece inda não, guarda pra nossas filhas.

Então Chuvisco voltou pra esquina. O herói garganteou:

– Tiveram medo ou não tiveram!

– Medo nada, conhecido! até o gigante mandou guardar as bocagens novas pras filhas brincarem. De mim que eles têm medo, você aposta? Vá lá perto e escute só.

Macunaíma virou num caxipara que é o macho da formiga saúva e foi se enroscar na rama de algodão acolchoando o gigante. Chuvisco amontou numa neblina e quando ia passando em riba da família deu uma mijadinha no ar. Principiou peneirando uma chuva-de-preguiça. Quando os pingos vieram caindo o gigante olhou pra um agarrado na mão dele e teve paúra de tanta água.

– Vam’bora, gente!

E todos com muito medo foram correndo pra dentro. Então Chuvisco desapeou e disse pra Macunaíma:

– Está vendo?

E assim até hoje. A família do gigante tem medo de Chuvisco mas de palavra-feia não.

Macunaíma ficou muito despeitado e perguntou pro rival:

– Me diga uma coisa: você conhece a língua do limpim-guapá?

– Nunca vi mais gordo!

– Pois então, rival: Vá-pá-à-pá mer-per-da-pá!

E abriu o pala até a pensão.

Mas estava muito contrariado por ter perdido a aposta. Pra disfarçar imaginou noutra coisa. Fazia tempo que pusera reparo num bando de cunhatãs passeando todos os dias na praça da República. Perguntou e soube que aquilo eram normalistas. Dormiu sonhando com elas. No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que os manos saíssem e levantou, sem reparar, com o pé esquerdo. Tomou banho perfumado com macaca-poranga, botou um chapéu fino de ubuçu e deu uma chegadinha no cabeleireiro pra pingar essência de pau-rosa no cabelo. Depois foi na praça da República muito bem disposto.  Quando as cunhatãs vieram saindo da máquina Escola Normal Macunaíma ficou muito atrapalhado não sabendo qual a mais bonita. Coração batia com saltinhos apaixonados e Macunaíma andava dum lado pra outro sussurrando suavemente: “Mani! Mani! filhinhas da mandioca!”… Afinal se resolveu por uma lindeza de normalistinha branca ver garça-real. Pegou nela e foi caminhando pra pensão. A cunhatã achou graça e rindo feito boba perguntou:

– Aonde você me leva?

O herói exclamou:

– Pra mim!

– Praquê você me quer?

– Pra mim

– O que você vai fazer de mim, agora!

– Gostar!

– Mas, meus cuidados, eu não quero ir com você não.

– Que bem me importa!

Então a moça deu um tapa certo na cara dela. Ajuntou um despropósito de gente. Quando Macunaíma se viu naqueles assados se lembrou da Bolsa de Mercadorias. Largou da moça e partiu que partiu na disparada. Chegou na pensão muito contrariado. Os manos bem que perceberam porém Macunaíma não tugiu nem mugiu, deitou.

No outro dia esperou com o olho esquerdo dormindo que os manos saíssem. Pulou da cama não reparando que punha primeiro o pé esquerdo no chão. Tomou banho de cauré cheiroso, vestiu roupa chegada da lavanderia e perfumada com priprioca botou chapéu brilhante de jupati e deu uma chegada no cabeleireiro pra encharcar o cabelo com essência de pau-rosa, bastante essência. Depois foi na praça da República muito bem disposto. Quando as cunhatãs principiaram saindo Macunaíma tornou a se atrapalhar não sabendo escolher. O coração dele batia com coração ardente e Macunaíma ia dum lado pra outro murmuriando suavíssimo: “Mani! Mani! filhinhas da mandioca!”…  Afinal se resolveu por uma gracinha de cunhatã corada feito pena de guará. Pegou nela e foi caminhando pra pensão. A normalista ficou muito séria e perguntou:

– Aonde que você me leva?

– Pra mim!

– Praquê você me quer?

– Pra brincar?

– Como que você faz de-noite?

– Faço “juque”.

– Quero não! Me assusta!

– Que bem me importa!

Então a mocinha guspiu na cara dele. Ajuntou pouca gente. Macunaíma viu aquela pouca gente e matutou: “Home Chico!… quem foi mordido de cobra tem medo de minhoca, vou zarpando.” E foi embora pra pensão muito acabrunhado, muito! Sentia uma dor danada no corpo e se queixou pros manos. Foram ver e era cobreiro, de certo passara alguma cobra na roupa se enxugando no coaral. O herói deitou deitou e ficou muito doente.

Só no fim de duas semanas se sentiu bom e nem bem Maanape e Jiguê saíram se levantou outra feita com pé esquerdo e resolveu botar um caborge sério nas normalistas. Matou dois anuns, tirou o fígado deles e socou no pilão, rezando assim:

 

                                             Te piso e repiso

                                             Te reduzo a granizo

                                             No pilão de Salamão!

                                             Que o Setestrelo a prenda,

                                             Lhe dê força de luar

                                             Pra que possa se abrandar

                                             O seu duro coração!

                                             Quem isto beber

                                             Quem isto mastigar

                                             Te há-de gozar

                                             No Sol e na garoa,

                                                   Minha boa!

                                             Xiribiribi xiribiribó,

                                             Zaz-traz nó-cego!

E mastigou a paçoquinha ruim. Então mais sossegado tomou banho de perfume francês com sabão inglês, botou chapéu finíssimo de jijijapa, deu uma chegadona no cabeleireiro pra botar brilhantina italiana com loção alemã e passou na manicura pra polir as unhas bem. Inda passou um pouco de carajaru na cara pra ficar mais corado porque estava desmerecido com a doença e então foi na praça da República muitíssimo satisfeito. As cunhatãs já estavam lá e tudo se passou como das outras feitas. O herói gemegemia de amor olhando pra aquele desperdício de filhinhas da mandioca. Todo o corpo dele relumeava de paixão destemperada por causa do sabão, da brilhantina e das unhas polidas. Afinal escolheu uma gostosura de moça morena com olhos de tição ardendo, pegou nela e foi caminhando pra pensão. A normalista derramando muitas lágrimas perguntou:

– Aonde que você me leva!

– Pra mim!

– Praquê você me quer!

– Pra mim!

– Que prosa! me dá uma rosa, si não tem rosa, não conte prosa!

– Si você vem comigo te conto um caso!

– Mas o que você vai fazer comigo!

– Brincar!

– Do quê!

– Brincar de marido e mulher!

Então a morena ajoelhou aos pés dele e principiou arrancando os cabelos desinfeliz. Desta vez não ajuntou nenhuma gente. Macunaíma insistiu porém ela soluçava soluçava dizendo que não, que brincar não queria, que fosse pregar noutra freguesia. Macunaíma teve raiva. Virou a cunhatã na máquina bonde amarelo que nem papo de canindé. Trepou nele e mandou tocar pra Santo Amaro onde contemplou a Represa.

João

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *