Um cartógrafo alemão no Brasil do século XVIII

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Por: Thayna Mesquita

O Tratado de Madri de 1750, firmado entre os monarcas Dom João V (1689-1750) de Portugal e Fernando VI (1713-1759) da Espanha, tinha como objetivo encerrar as disputas territoriais entre as coroas e oficializar as demarcações de limites de suas colônias na América. Definir os novos limites sul-americanos por meio do trabalho de especialistas era indispensável, e para isso alguns cartógrafos, geógrafos e astrônomos vieram para o Brasil contratados pelo governo português pelo prazo de cinco anos. Os cartógrafos tiveram notável importância na formação territorial do estado brasileiro, viajando por áreas que conservavam grande potencial de recursos naturais que podiam ser explorados economicamente. 

O capitão-mor e engenheiro Johann Andreas Schwebel, estava entre os cartógrafos de maior referência. Existem poucas informações sobre sua trajetória, sabe-se que era de origem germânica, mais precisamente de Nuremberg, possuía grau militar de capitão e graduação em matemática. Foi designado por Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700-1769), um administrador colonial português, e na expedição de que participou (1751-1753) registrou algo em torno de 60 vilas na capitania do Grão-Pará. Na época, ainda estava vigente a divisão territorial por capitanias, e a do Grão-Pará englobava os atuais estados do Pará, Amazonas, Roraima, Acre, Amapá e Rondônia. Em sua jornada, Schwebel retratou as primeiras vilas e aldeias que existiam na região norte do país, limitando-se a explorar, de acordo com seus mapas, locais próximos às margens dos rios.

O trabalho do cartógrafo alemão se materializou em várias versões. A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin possui um exemplar do material cartográfico de Schwebel, datado de 1758, com mapas e prospectos aquarelados de vilas e missões. Ao todo são 25 prospectos e 11 mapas dos rios da bacia amazônica feitos por Schwebel, que auxiliaram a metrópole na identificação da existência de numerosas aldeias em locais pouco conhecidos. Na maioria dos casos, os nomes dos lugares representados na obra foram alterados. Contudo, por meio de uma pesquisa de referências históricas e geográficas foi possível localizar a maior parte dos pontos. No mapa que pode ser visualizado logo abaixo, seguimos as informações contidas nos mapas e prospectos do cartógrafo alemão – tais como nomes das aldeias, das missões religiosas e dos rios pelos quais transitou – para apresentar uma rota que se aproximasse do trajeto real realizado no século XVIII. Não foi possível, contudo, fazer a identificação mais precisa de alguns dos locais que compõem o trajeto dos cartógrafos, tais como: Prospecto do Sítio de Maruarú, Prospecto do Sítio de Aycajo e Prospecto da Aldeia de Dari.

Há versões da obra de Schwebel no Arquivo Militar do Ministério da Guerra do Rio de Janeiro e no Itamaraty. A versão guardada pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro encontra-se carimbada e digitalizada, o que facilita breves comparações com a da Brasiliana. Na primeira, a data é de 1756 e tem título mais descritivo sobre alguns dos lugares pelos quais passou a expedição: “Coleção dos prospectos das aldeias, e lugares mais notáveis que se acham no mapa que tiraram os engenheiros da expedição, principiando da Cidade do Pará a Aldeia de Mariua no Rio Negro (…)”. Na segunda, a data é de dois anos depois e seu título faz menção a alguns dos rios do norte do país: “Mapa geografico do do Rio das Amazonas thè donde conserva este nome, e toma o do Rio dos Solimoens chamado assim pellas nações q’ nelle habitam juntamente com a grande parte do Ryo Negro thè a Cachoeyra grande, compreendendo-se neste ultimo todas as Missoens que administram os P.P. Carmelitas : com os Prospectos dos Lugares mais famozos cerconvezinhos dos ditos Rÿos : Executado pelo Capm. Enghro. … no Anno 1758”.. Além disso, no exemplar da Brasiliana não consta as indicações do curso do rios com uso de setas, mas reúne mapas hidrográficos de boa parte da região norte, o que está ausente da versão da Biblioteca Nacional. 

 

Referências

Meirelles Filho, João Carlos. Grandes expedições à Amazônia Brasileira, 1500-1930. Metalivros, 2009.

Oberacker, Carlos Henrique. “Dois cartógrafos alemães a serviço do Brasil no século XVIII: Johann Andreas Schwebel e Filipe Sturm.” Revista de história 44.89 (1972): 93-109.

[link] http://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/131263/127654

Schwebel, Johann AndreasCollecçam dos prospectos das aldeas, e lugares mais notaveis que se acham em o mapa que tiraram os engenheiros de expediçam principiando da cidade do Pará the a aldea de Mariua no Rio-Negro, onde se acha o arrayal, alem dos prospectos de outras tres ultimas aldeas chamadas Camarâ, Bararuâ, Dari; situadas no mesmo rio. 1756.

[link] http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_manuscritos/mss1095066/mss1095066.pdf 

 

Thayna Mesquita é graduanda em Ciências Sociais pela FFLCH-USP.

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