O Manifesto Antropofágico

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Por Giovane Direnzi

O modernismo brasileiro surge no bojo de uma crítica à tradição conservadora e à sua
estética; nasce de um deslumbre com os avanços da cidade grande e de uma forte
influência dos intelectuais, artistas e cientistas europeus que, entre os séculos XIX e XX,
promovem uma onda de valorização das cantigas, danças, mitos e outras tradições nativas
de países africanos, asiáticos e americanos e que ressaltam neste momento a importância
de os países reconhecerem os valores da própria cultura – sobretudo os que foram
submetidos a fortes processos de colonização.

É neste contexto que, segundo Paulo Prado no prefácio de Poesia Pau-Brasil, “Oswald de
Andrade, numa viagem a Paris, do alto de um atelier da Place Clichy – umbigo do mundo –
descobriu, deslumbrado, a sua própria terra”. Tomado pela inquietude desse
internacionalismo cosmopolitano articulado aos seus valores nativos, e daí por uma nova
noção de nacionalismo, Oswald e seus parceiros modernistas, além de se esforçarem para
romper com o passado, embarcaram em uma profunda busca pelo que Alfredo Bosi chama
de um Brasil adormecido.

Em 1924 no jornal Correio da Manhã, Oswald publica seu Manifesto Pau-Brasil, enfatizando
a necessidade de se compor uma arte baseada nas características do povo brasileiro,
reivindicando uma linguagem natural e se opondo aos bacharelismos e pedantismos, mas
ainda prezando por um processo de assimilação que, embora crítico, seja de certa forma
harmonioso entre a tradição primitiva e a latina (herança européia).

Em maio de 1928, por sua vez, na primeira edição da Revista de Antropofagia, Oswald
publica o Manifesto Antropófago, encabeçando o movimento antropofágico, ápice da
primeira fase do modernismo. As ideias do manifesto são explicitamente aproximadas às
teorias de Freud, Marx e Rousseau e, embora siga a linguagem metafórica e repleta de
aforismos de seu antecessor, Pau-Brasil, tem um tom muito mais político e radical que
aquele. Oswald não fala mais da assimilação harmoniosa entre externo e interno, mas da
deglutição crítica das influências; da consciência do que é ingerido e de como a indigestão
cultural arruina o organismo nacional.

Antropofagia, do grego anthropo (homem) + phagía (comer), é o ato de se comer carne
humana, mas de maneira ritual e não enquanto hábito alimentar, o que o difere do
canibalismo. A antropofagia era praticada por comunidades que acreditavam que, ao ingerir
a carne do inimigo capturado, obtinham-se as suas virtudes. Existem relatos de
comunidades indígenas antropofágicas que habitaram o território brasileiro por volta do
século XVI.

A ideia de usar a metáfora da antropofagia para intitular o movimento e seu manifesto partiu
da pintura Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral. O título, sugestão do poeta Raul Bopp,
vem do tupi Aba (homem) + Pora (gente) + ú (comer), ou seja, o homem que come gente.
No ano seguinte, Tarsila pintaria ainda Antropofagia (1929), onde faria a junção de Abaporu
com a anterior A Negra (1923).

A figura do antropófago (o canibal pecador e condenado pelo moralismo religioso), segundo
Benedito Nunes em A Antropofagia ao Alcance de Todos, é parente do bom selvagem de
Rousseau, o primitivo socializado que consegue viver em equilíbrio entre a cultura e a
natureza, contrabalanceando a piedade e o amor próprio, uma vez que em sua sociedade
não há nem propriedade privada, nem concentração do poder do Estado.

Dessa forma, além de criticar a história do Brasil e as consequências do processo colonial,
a antropofagia estabelece um horizonte utópico. No manifesto, Oswald cria um passado em
que o matriarcado comunista substitui o sistema burguês patriarcal e despreza o processo
civilizatório exercido pelo europeu sobre o índio selvagem e antropófago. Em seus
parágrafos, o processo colonial aparece sob o símbolo da catequese que, além de ser o rito
de iniciação cristã, invoca todos os valores, tabus e moralismos que vêm como sua
consequência, desde o patriarcado destrutivo até a negação da sexualidade e o hábito de
andar vestido. Ao negá-la e certificar em seu manifesto que nunca fomos sujeitos a isto,
Oswald assinala a ineficácia do processo e garante que, apesar de sermos supostamente
civilizados, no fundo o antropófago pagão tupi-africano ainda vive em nosso íntimo e será
resgatado pelo modernismo mais cedo ou mais tarde.

É importante ressaltar, no entanto, que Oswald não prega a pura e simples oposição à
civilização moderna industrial. Crê que é graças a alguns dos benefícios proporcionados por
ela que é possível a existência de formas primitivas, mas que, por outro lado, somente a
antropofagia é capaz de enxergar os elementos positivos dessa civilização, descartando o
que não serve e promovendo, enfim, o que chama de “Revolução Caraíba”.

3x22

2 Comments

  1. A “valorização” das culturas nativas periféricas esteve sempre dentro do preconceito europeu de que civilizados são eles, outros selvagens. Não se pode esquecer que esta cultura do século XIX/XX ainda trabalha com a ideia de uma evolução humana comum (a ideia que vai dar inspiração a Jung pra seus arquétipos). Esta abordagem legitima p pensamento de que a Europa já estaria mais adiante na “evolução humana”. O modernismo bebeu e respirou, portanto, nasceu dentro desta abordagem eurocentrista e preconceituosa que, de forma um pouco modificada, está viva até hoje… Acreditar no “costume cultural” da Antropofagia do indígena brasileiro e de todos os povos periféricos, e construir um movimento a partir desta crença, mesmo querendo dignifica-la, ao meu ver eterniza a posição de “selvagem oposição ao civilizado”.

    • Olá, Ana!
      Agradecemos o seu comentário e o consideramos um grande e importante acréscimo. Acreditamos que você tem razão e queremos que sinta-se convidadx a expor de maneira mais ampla o seu ponto de vista na nossa próxima publicação do Boletim 3×22.
      Escreva-nos em 3vezes22@gmail.com 😉

      Um abraço!

      A Redacção.

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