O Quinze de Rachel de Queiroz – A gênese da seca

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Por Alice Santana de Lima

 

A crítica genética e a investigação do processo de criação  

A crítica genética é uma área de estudos que se ocupa de refletir sobre as origens de um determinado texto literário e seus processos de composição, tendo como ponto de partida, sobretudo, os documentos manuscritos do autor. Em 1992, com a publicação do livro Introdução aos estudos genéticos, novos rumos passaram a ser delineados para esse campo e seus limites foram ampliados e estendidos também para outras modalidades artísticas, como as artes plásticas, a música, o teatro etc. Mesmo assim, continuou tendo um papel muito abrangente dentro da literatura.

Diferente da crítica textual, que pretende restituir o texto a sua forma original, isto é, àquela pretendida pelo autor inicialmente, a genética vai além do texto literário já publicado, se debruçando também sobre todo o caminho percorrido pelo autor até atingir o resultado final. Além disso, se ocupa de pensar quais foram as condições de produção do autor no determinado momento em que compôs sua obra e em que medida esta dialoga com o contexto cultural no qual se insere, desde sua gênese até a publicação, além das conexões que estabelece com o tempo no qual se situa, com o que lhe é anterior e posterior.

No Brasil, no entanto, esse tipo de trabalho é dificultado em razão da falta de políticas voltadas para a aquisição e conservação de arquivos literários, de modo que os documentos manuscritos dos autores não sejam submetidos a cuidados específicos. Ainda assim, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin tem em seu acervo alguns manuscritos de obras consagradas da literatura brasileira. Entre os mais importantes estão os da obra O Quinze de Rachel de Queiroz.

Capa da primeira edição da obra

 

A seca d’O Quinze

O romance, escrito pela autora quando ela tinha apenas 19 anos, foi publicado em 1930 e se refere, desde o título, à grande seca de 1915 que assolou o Nordeste do Brasil. Os desdobramentos desse fenômeno, embora se trate de uma narração em 3ª pessoa, são expostos através do olhar de Conceição uma professora de Fortaleza que vai visitar a família durante as férias numa fazenda do interior , passando também por seu romance com Vicente e pelas dificuldades do vaqueiro Chico Bento.

José Mindlin adquiriu os manuscritos da obra através de uma pessoa cuja condição para vendê-los era de permanecer em anonimato. Além disso, também pediu a Mindlin que apenas revelasse ter os documentos em seu acervo após a morte de Rachel de Queiroz. Assim, somente em 2008 a família da autora permitiu a produção de uma edição fac-símile dos manuscritos, o que facilitou grandemente a realização de estudos a respeito da gênese da obra.

No lançamento da edição, na Biblioteca do Senado Federal, Mindlin destacou como o manuscrito permite acompanhar o processo de criação de Rachel, além de mostrar sua preocupação em chegar à melhor forma, mesmo diante das condições adversas que a obrigaram a se mudar de Fortaleza para a cidade interiorana de Quixadá devido à suspeita de ter contraído tuberculose, o mal daquele tempo. Assim, se recolhia nessa nova residência durante a noite, à luz de um lampião, e escrevia à mão em seus cadernos de escola.

 

A primeira versão, preservação e mudanças  

Alternando a escrita entre o lápis e a caneta, a primeira versão do texto de Rachel é bastante rasurada, tendo até mesmo parágrafos inteiros rabiscados ou cancelados, provando a dedicação que empregava em busca da forma adequada, não importando o quanto tivesse de sacrificar do texto “já pronto”. Há diversos trechos, por exemplo, que, depois de teoricamente acabados, recebem extensas adições, sinalizadas pela autora, como neste trecho, que conta com vários acréscimos posteriores para além do “texto original”.

Rasuras e inserções numa página do manuscrito

No prefácio da primeira edição, assinalando tê-lo escrito numa linguagem corriqueira, deixando que “a pena corresse como corre a língua”, Rachel conta também como foi arrumando “os verbos e as locuções, os adjetivos e os pronomes” no decorrer da escrita. Trata-se de uma espécie de trabalho de revisão realizado pelo próprio autor, quase simultâneo ao da produção, que vai diferenciando uma primeira versão de uma segunda como é o caso do trecho inicial do romance e talvez, ainda, da versão final. Na primeira, Rachel escreve “Depois de se benzer duas vezes e duas vezes beijar uma medalinha de São José…” Já na segunda,  “Depois de se benzer e de beijar duas vezes uma medalinha de São José…”, versão essa que acaba sendo publicada. São grandes as controvérsias acerca da “intencionalidade do autor”, mas pode-se levantar hipóteses sobre a possível pretensão de Rachel em “atenuar” a religiosidade de Dona Inácia, personagem a qual o trecho se refere, que soa excessiva na primeira versão, da mesma forma que pode se tratar apenas de uma alteração com o intuito de limpar o texto, corrigindo-o, dando preferência por deixá-lo menos repetitivo.

Obra publicada e obra manuscrita – trecho inicial do primeiro capítulo do romance

Já o capítulo 7, que narra a retirada da família de Chico Bento em mais um dia de seca entre a fome, a sede e o cansaço, também sofre suas modificações ao longo do percurso. A resposta dada pelo vaqueiro à esposa quando esta reclama por ele ter dividido com desconhecidos o pouco que lhes restava para alimentar a família no dia seguinte, é grafada, na primeira versão do texto, com um ponto de interrogação: “Sei lá!! Deus ajuda!! Mas se eu haveria de deixar esses desgraçados roerem osso podre?”. Posteriormente, na segunda versão, a frase é pontuada com reticências e tem sua estrutura um pouco modificada: “Sei lá! Deus ajuda! Eu é que não haveria de deixar esses desgraçados roerem osso podre…”

Trecho do capítulo 7

Isso pode apontar para uma decisão tomada por parte da autora de dar outra cara à fala de Chico Bento. Na primeira versão, ele parece um pouco mais resignado e conciliatório em relação à reclamação de Cordulina, sua esposa; na segunda, é como se justificasse seu ato com mais convicção, mais certo de ter tomado a atitude correta. A mudança interfere também na imagem dela: sua submissão e passividade são acentuados à medida que o esposo parece mais seguro do que diz. Assim, uma modificação aparentemente trivial pode acabar interferindo diretamente na forma como o personagem é visto pelo leitor dentro das circunstâncias em que está inserido, à proporção que o autor acredita conveniente fazê-la, conforme avança na produção da obra.

 

O sertão – e as mudanças – estão em toda parte…

No prefácio da primeira edição Rachel coloca em questão sua juvenilidade à época em que escreveu o livro, considerando-o “uma ousadia ingênua de ensaísta” devido aos seus dezenove anos. Diz ainda que este “há de ter todos os defeitos daquilo que a gente produz nesta idade”, quando “não se tem a sossegada prudência de ir devagar para fazer bem feito, quando nos governa a impaciência insofrida de não esperar, de ver o nosso pensamento, mal é concebido, logo escrito, impresso, disseminado, cotejado com outros alheios, fazendo parte do patrimônio mental da humanidade…”

Nesse trecho, a autora traz reflexões interessantes sobre o processo criativo do texto não apenas na situação particular que se refere a ela, de tê-lo escrito ainda muito jovem, mas também no sentido de que este, tão logo vem à mente, é já registrado. Apesar de atribuir essa tendência diretamente à juventude, a reflexão pode ser ampliada para a produção independentemente da idade de quem a faça: Guimarães Rosa, já mais experiente ao escrever Grande sertão: veredas, por exemplo, também faz modificações e supressões no texto do romance, eliminando ou acrescentando uma coisa ou outra conforme julgou conveniente depois da euforia das primeiras versões, movimento natural na elaboração de um texto literário ou de qualquer espécie.

Dedicatória de Rachel de Queiroz a José Mindlin na primeira edição de O Quinze

Além disso, para além da escrita propriamente dita, o processo investigativo empreendido pelo autor, ainda anterior a ela, também pode interessar à crítica genética. O de Rachel se deu sobretudo através de relatos daqueles que padeceram na seca. A autora tinha apenas 4 anos quando seu estado natal foi atingido pelo desastre, de modo que tinha lembranças bastante limitadas sobre o ocorrido. Fica ainda mais evidente, portanto, o seu empenho, não se contentando com uma experiência particular, mas partindo de exposições diversas a esse respeito e, portanto, mais universais, inclusive no sentido da linguagem, indicando ter se valido do “jeito habitual e caseiro” do povo cearense e suas expressões.

Segundo o poeta e crítico alemão Friedrich Schlegel, a atribuição de significado a uma obra não passa apenas pelo autor, mas também pelo leitor:  este, segundo ele, não deve se satisfazer com a literatura como ela é, mas mudá-la e ampliá-la a partir de suas interpretações. A própria Rachel o reconhece ao final do prólogo, sugerindo que “cada um vá julgando por si” o que será lido. O contato com os manuscritos da obra é um caminho possível para a realização dessa experiência, além de ser, no caso de Rachel, a documentação, somada à investigação por ela empreendida, de sua persistência. Enquanto mulher escritora, estreante na carreira quando muito jovem e desacreditada por essas mesmas razões, conseguiu, ainda assim, marcar seu nome para sempre na história da literatura brasileira.

 

Referências

ABREU, Laile Ribeiro de. O texto queiroziano e seu percurso crítico. Em Tese, [S.l.], v. 18, n. 1, p. 106-123, abr. 2012. ISSN 1982-0739. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/emtese/article/view/3797/3744>. Acesso em: 28 mar. 2019. doi:http://dx.doi.org/10.17851/1982-0739.18.1.106-123.

BORTOLOTTI, Plinio. Edição fac-similar de “O quinze”: a emoção de ter a cópia do original nas mãos. 2010. Disponível em: <http://blogs.opovo.com.br/pliniobortolotti/2010/11/18/edicao-fac-similar-de-o-quinze-a-emocao-de-ter-a-copia-do-original-nas-maos/>. Acesso em: 18 nov. 2010.

CAMINHA, Edmílson. Rachel de Queiroz: a Senhora do Não Me Deixes. – Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2010. 74 p.

MELO JÚNIOR, Maurício. Seca Doçura. Rascunho, São Paulo, v. 9, n. 104, p.6-7, dez. 2008.

PINO, Claudio Amigo. Crítica genética: o que interpretar? Revista do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, v. 10, n. 2, p.259-273, dez. 2014.

QUEIROZ, Rachel. O Quinze (manuscritos originais). Disponível em: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, São Paulo.

QUEIROZ, Rachel. O Quinze. 1ª edição. Fortaleza: Est. Graphico Urania, 1930.

 

Alice Santana de Lima é graduanda em Letras – com habilitação em português e italiano – pela FFLCH-USP.

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