A primeira história geral do Brasil

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Por Letícia Favoretto de Souza

Robert Southey foi um poeta e historiador inglês que se tornou conhecido em nosso país principalmente por sua História do Brasil. Southey pretendia, por volta do ano de 1800, escrever uma obra sobre a História de Portugal e para isso formou ao longo do tempo uma biblioteca sobre o tema com cerca de 14.000 volumes, que atualmente se encontram no Museu Britânico.

Retrato de Robert Southey, 1795, por Peter van Dyke

Alguns anos mais tarde, Southey mudou seu foco e deu início, em fevereiro de 1807, à obra History of Brazil, publicada em 3 volumes. Ingressou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em 07 de março de 1840 como sócio honorário, sendo sua obra traduzida e publicada em português no ano de 1862.

Tratando-se de uma obra elaborada na Inglaterra por um poeta romântico marginalizado e profundamente imbuído dos valores da ideologia conservadora da contrarrevolução“, como aponta Maria Odila Leite da Silva Dias em O fardo do homem branco, History of Brazil possibilitou que a história colonial brasileira fosse integrada pela primeira vez na civilização europeia moderna, dentro da perspectiva da superioridade das tradições e instituições europeias, que deveriam ser introduzidas nos trópicos.  

 

A obra

Os quarenta e quatro capítulos da História do Brasil, formando 2.327 páginas em três volumes na edição em inglês, compõem o que alguns estudiosos consideram como a primeira história geral do Brasil. Quanto aos ingleses, de forma geral, a autora Lilian Martins de Lima destaca que eles tinham interesses bem mais amplos do que a mera assinatura de tratados de aliança comercial e de amizade.

A natureza, a cultura, o cotidiano das cidades brasileiras e a própria história do país mereceram a atenção dos escritores e, consequentemente, do público inglês no decorrer do século XIX (Os ingleses e a história do Brasil (1809-1821)).

Os relatos de viagens, crônicas, entre outras publicações, foram de grande importância para os autores da época, que buscavam apresentar ao leitor inglês as informações mais acuradas sobre os principais eventos das terras brasileiras, oferecendo ao público a trajetória desde o descobrimento, com destaque para a presença holandesa, até o episódio da transmigração da Corte Portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808.

No primeiro volume de sua obra Southey faz uma apresentação que anuncia o que o leitor deve esperar dos acontecimentos narrados e seus personagens:

A serie pois das suas aventuras; a descoberta de extensas regiões; os hábitos e superstições de tribus não civilizadas; os esforços de missionários, em quem a mais fria política dirigia o zelo mais fanático; o crescimento e a queda do extraordinário domínio que elles estabelecerão; e o progresso do Brazil desde os seus mesquinhos princípios até a importância que actualmente atinge, tudo isto são tópicos de não vulgar interesse. (Historia do Brazil, vol. 1)

Dentro desta perspectiva, Southey é detalhista na apresentação dos acontecimentos. Todo começo de capítulo destaca uma lista com os temas que serão tratados, sempre em ordem cronológica. Podemos observar esses detalhes na lista do primeiro capítulo: Vicente Yanez Pinzon descobre a costa do Brazil e o rio Maranhão.— Viagem de Cabral. — Dá-se ao paiz o nome de Sancta Cruz. — Américo Vespucio vae reconhecer a costa. — Sua segunda viagem. — Primeiro estabelecimento por elle fecondado. — Toma o paiz o nome do Brazil.

 

A tradução para o português

A primeira edição brasileira foi traduzida por Luiz Joaquim de Oliveira e Castro e anotada pelo cônego Fernandes Pinheiro e tem servido de base para edições posteriores. O exemplar presente no acervo da BBM possui a chamada encadernação imperial, ou seja, brasão dourado com as marcas imperiais, característica, segundo Rubens Borba de Moraes, do primeiro estilo brasileiro de encadernação.

Capa da primeira edição em português

O tradutor adicionou ao início do volume uma nota ao leitor, onde aponta a importância de se traduzir uma obra como a de Southey para o português:

O trabalho que ora verto para o idioma nacional passa por ser a melhor historia do Brazil: mas não disputo preferencias, fale ella por si mesma. Em todo o caso é um escripto importante para a historia pátria, e como tal mui digno certamente de ser trasladado para a nossa lingua. Não receio pois haver commettido empreza ingrata. (Historia do Brazil, vol. 1)

Outra observação deixada na nota é um lembrete para aqueles que se sentissem ofendidos quanto ao fato da religião do autor da obra, um protestante, divergir da religião difundida no país, o catolicismo, deixando claro que os apontamentos do autor “não são doutrinas nem principios perigosos, são meras reflexões incidentais que faz o auctor”.

 

O sistema colonial

Iniciando sua obra com os primeiros contatos com a costa brasileira feitos na viagem de Vicente Yañez Pinzon, em 1499, Southey traça todo o percurso do sistema colonial até a vinda da Corte Portuguesa em 1808, sempre com sua preocupação em apontar todos os detalhes que conseguiu obter em suas pesquisas. Dentro dessa narrativa existem alguns pontos que foram os que mais chamaram a atenção e tornaram-se objetos de mais estudos.

Uma marca da obra são as inúmeras passagens em que Southey faz críticas severas ao procedimento dos colonos portugueses. Seus comentários vão desde o âmbito mais burocrático até o mais prático, como por exemplo o exercício da atividade pública e da administração da justiça, o sistema de exploração de metais preciosos e o despotismo fiscal da coroa portuguesa:

[…]Mas antes tivessem estes diamantes ficado nos leitos das correntes das serras, ou continuado a ser pizados pelos pés dos selvagens, e antes tivesse o governo portuguez levantado por outros meios essa parte da receita, ou prescindindo d’ella, do que estabelecer-se um systema que principia e termina em males, e que no governo tem produzido crueldade e injustiça, e fraude, falsidade e prevaricação no povo, traição, desconfiança, crimes, miséria, ruina. (Historia do Brazil, vol. 6) 

O autor se interessava pela transformação da sociedade colonial em um futuro estado-nação. Com isso, realça a obra missionária dos jesuítas, em especial a do Padre Antonio Vieira, e o cooperativismo teocrático das reduções guaranis. Silva Dias aponta que Southey, “como historiador de orientação essencialmente intelectualista, […] deposita grande fé na possibilidade de uma educação estatal:

Para refrear as propensões contra as quaes ensaiou aqui Portugal a força das leis, alguma couza pode fazer o governo; infinitamente mais pode porem contribuir para desarraigal-as pelo poderoso meio da educação. (Historia do Brazil, vol. 5)

Silva Dias destaca que, com o interesse na transformação da sociedade colonial, Southey elogia o trabalho dos jesuítas. Por outro lado, critica o atraso e as superstições católicas dos portugueses, além de outros “focos de dispersão e de anarquia”, como por exemplo os vícios da sociedade escravocrata e a ausência de laços comunitários que favorecessem a implantação das virtudes da civilização em meio à selvageria da colônia. 

O autor demonstra otimismo com a vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro e a fundação do novo império, atribuindo ao Estado Português a missão de modernizar o país para que ele se ajustasse aos benefícios do comércio inglês, garantindo a coesão social e o progresso com reformas administrativas e judiciárias.

 

Intelectualidade nacional

A chegada da família real em 1808 estimulou o desenvolvimento de novas formas de compreender a história local. Valdei Lopes de Araújo aponta que “junto com a Corte aportava a necessidade de abrigar uma nova dimensão de historicidade. A realeza trazia consigo outra dignidade histórica, bem como uma nova perspectiva de unidade da historiografia brasílica”.

Com a busca pela formação de uma identidade nacional, entre o fim do século XVIII e o início do XIX, o historiador ganhou um papel cada vez mais importante, não podendo mais ser o simples cronista. A história escrita no Brasil joanino estava em grande parte comprometida com um projeto de reforma interna do Estado, dessa forma a crise da independência foi um momento altamente problemático para o historiador.

Mapa do Brasil incluído na primeira edição de History of Brazil

Dentro desse contexto, alguns anos após a publicação da obra de Southey, a parcialidade do autor causou alguns descontentamentos vindos dos intelectuais nacionais que se encontravam em meio a luta de enraizamento e ao nativismo, exacerbado e xenófobo, que marcou o temperamento de alguns setores do Império. Podemos encontrar alguns desses descontentamentos na Revista do IHGB, como por exemplo o de Januário da Cunha Barbosa, no discurso de 1839: “E deixaremos sempre ao gênio especulador dos estrangeiros o escrever a nossa história, sem aquele acerto que melhor pode conseguir um escritor nacional?” 

Pode-se observar no trecho do relatório de Manuel de Araújo Porto Alegre, que saiu em 1858 na Revista do IHGB, uma crítica mais pontual: “Southey aglomerou uma série de memórias históricas e documentos e ligou tudo isto como um crítico que desconhece o país, o espírito do povo que descreve e suas tradições locaes; algumas vezes peca como Goldsmith (sic) na sua história romana“. E, por fim, o prospecto da publicação do Compêndio de Abreu e Lima, transcrito por Varnhagen:

A dignidade do país e a ilustração do povo brasileiro exigiam que uma pena nacional se ocupasse pela primeira vez de escrever a sua história, visto que até agora não possuíamos, além de poucos escritos do século XVI e XVII, senão algumas memórias incompletas ou esquecidas em mãos particulares. Era doloroso ver que a História do Brasil se tivesse tornado uma especulação estrangeira, e que se importassem no Brasil todas as falsidades, que ressumbram em cada página dessas produções, empestadas de mau gosto, e recheadas de insultos à inteligência nacional. (Rev. IHGB, tomo 6, 1844)

Apesar destes descontentamentos, History of Brazil, desde sua publicação, é constantemente revalidada como uma obra importante por autores como Capistrano de Abreu e Manoel Bonfim, tanto como horizonte para a historiografia posterior quanto como trabalho meticuloso de pesquisa. Também, a obra de Southey é considerada uma das mais extensas obras históricas sobre o Brasil colonial, junto com História Geral do Brasil, escrita por Francisco Adolfo Varnhagen, de 1854. Segundo Capistrano de Abreu a obra de Varnhagen “chegaria a ultrapassar a de Southey como documentação, mas não na amplitude da conceituação“.

 

Obras de Robert Southey no acervo digital da BBM

História do Brasil três volumes completos em inglês e seis volumes completos em português disponíveis em

<https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm-ext/1/browse?type=author&order=ASC&rpp=20&value=Southey%2C+Robert%2C+1774-1843>

 

Referências

ARAÚJO, Valdei Lopes de. Formas de ler e aprender com a História no Brasil Joanino. Acervo, Rio de Janeiro, v. 22, n. 1, p. 85-98, jan/jun, 2009. Disponível em:

<http://revistaacervo.an.gov.br/seer/index.php/info/article/view/67/52>

LIMA, Lilian Martins de. Os ingleses e a história do Brasil (1809-1821). Revista Territórios & Fronteiras, Cuiabá, vol. 7, n. 2, jul.-dez., 2014.

SILVA DIAS, Maria Odila Leite da. O fardo do homem branco. Southey, historiador do Brasil (um estudo dos valores ideológicos do império do comércio livre). São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974.

VARELLA, Flávia Florentino. Novas raças, novas doenças: a possibilidade colonizadora por meio da mistura racial em History of Brazil (1810-1819) de Robert Southey. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.23, supl., dez. 2016, p.15-32.

 

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro:

Perfil de Robert Southey

<https://ihgb.org.br/perfil/userprofile/Rsouthey.html>

Revista do IHGB, tomo 1, 1839, p. 15   

<https://ihgb.org.br/publicacoes/revista-ihgb/item/107695-revista-ihgb-tomo-i.html>

Revista do IHGB, tomo 6, 1844, p. 60

<https://ihgb.org.br/publicacoes/revista-ihgb/item/107700-revista-ihgb-tomo-sexto.html>

Revista do IHGB, tomo 21, 1858, p. 464

<https://ihgb.org.br/publicacoes/revista-ihgb/item/107715-revista-ihgb-tomo-xxi.html>

 

Letícia Favoretto de Souza é graduanda em História pela FFLCH-USP.

Curadoria

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