Formação de uma geração de críticos: revista Clima (1941-44)

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Vídeo: Cris Ambrosio; artigo: Guilherme Rabelo Fernandes

 

O ano de 1939 marca o início das atividades de um grupo de jovens estudantes que se consagraram na atividade crítica. Antonio Candido, Paulo Emilio Salles Gomes, Lourival Gomes Machado e Decio de Almeida Prado são alguns dos nomes que estiveram envolvidos na criação da revista Clima. Voltava-se para a crítica intelectual de objetos culturais – cinema, teatro e literatura – além de ser espaço para a publicação de trabalhos inéditos. O espaço de onde se originou foi a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, tendo como ponto de encontro para as relações o curso de filosofia do professor francês Jean Mäugué.

Da esquerda para direita, em pé: Antonio Branco Lefèvre, Decio de Almeida Prado, Paulo Emilio Salles Gomes e Roberto Pinto Souza. Sentados: Alfredo Mesquita, Antonio Candido e Lourival Gomes Machado. Acervo Decio de Almeida Prado

O grupo dos “chato-boys”

Chato-boys” foi o apelido dado pelo modernista Oswald de Andrade para a turma de Clima. A sisudez dos integrantes presente nos primeiros números foi o mote para a acidez do escritor. Segundo Ruy Coelho, as críticas eram críveis, pois o grupo era muito universitário, com todos os pedantismos e vícios que tem uma posição universitária. O grupo de jovens críticos tinha como alguns de seus integrantes Antonio Candido, Decio de Almeida de Prado e Paulo Emílio Sales Gomes – que se tornaram célebres críticos e docentes universitários. Entre os colaboradores merece destaque Gilda de Mello e Souza, que foi professora do Departamento de Filosofia da USP e notável ensaísta, além de uma das poucas mulheres do grupo.

A publicação possibilitou a definição de seus participantes em suas respectivas áreas. Decio de Almeida, em entrevista concedida à Heloisa Pontes em junho de 1995, detalha que o momento de Clima foi de percepção de vocações. Comenta, sobre o colega Lourival, que parecia ser o mais indicado para escrever sobre artes plásticas, “mas ele não escreveu nada antes do Clima, como eu também não escrevi nada sobre teatro antes do Clima, como Antonio Candido não escreveu nada sobre literatura e nem o Paulo Emílio sobre cinema.” No entanto, Decio se tornaria crítico de teatro, Paulo Emilio de cinema, Candido de literatura e Lourival de artes plásticas. 

O patrono do grupo foi Alfredo Mesquita, conhecido frequentador dos cursos e atividades culturais da faculdade. Antonio Candido conta, em depoimento dado em fevereiro de 1974, que Mesquita teve o ímpeto de lançar uma publicação ao ver um grupo de jovens “que pareciam capazes de dizer e fazer alguma coisa no campo da cultura, imaginou fundar com eles uma revista que lhes servisse de oportunidade para se definirem e de veículo para se manifestarem.” Alfredo ainda teve um destacado papel na formação de Clima – angariou anúncios para as peças publicitárias da revista, prometendo mantê-los por seis ou doze números.

Primeiro número da revista

O nome da revista foi dado por Lourival, no  início de 1941, enquanto o grupo saía da Confeitaria Seleta – localizada na região central da cidade de São Paulo. Avistou uma vitrine com um cartaz enorme escrito, em letras bem grandes, a palavra Climat, em francês. Apontou o dedo e lá estava o nome da revista: seria Clima. Responsável pelo projeto de capa e diretor por orientação de Alfredo Mesquita, Lourival fez com que a sede da redação da revista fosse em sua casa até o número 12. O ambiente familiar é corroborado no depoimento de Candido sobre o grupo, presente no livro Destinos Mistos:

Conversávamos, ríamos muito, inventávamos coisas, discutíamos as aulas e os professores, frequentávamos concertos, procurávamos filmes esquecidos em cinemas de bairro, íamos passear em Santo Amaro, o que naquele tempo significava uma excursão fora da cidade. Éramos um grupo alegre, sociável, irreverente […]

 

Influências determinantes

Incisivos para o desenvolvimento crítico da turma de Clima foram os professores franceses Jean Maügué, Claude Lévi-Strauss e Roger Bastide, que faziam parte da missão francesa encarregada de implementar na Faculdade de Filosofia uma nova forma, mais eficaz, de trabalho e pensamento pautados por parâmetros propriamente acadêmicos e científicos.

Professor na cadeira de sociologia da Faculdade de Filosofia, Roger Bastide exerceu a crítica literária e artística em revistas culturais da época, assim como foi um destacado estudioso do barroco brasileiro os professores franceses eram entusiastas do estudo de temas e problemas brasileiros, motivo condutor para o grupo aplicar essa mesma preocupação em seus trabalhos. Em um de seus textos mais celebrados, Bastide discute sobre a paisagem em Machado de Assis; esse artigo foi decisivo para o jovem Antonio Candido, que reorientou sua maneira de conceber aspectos fundamentais da literatura brasileira.

Outra referência imediata para a maneira como o grupo escreveria foi Jean Maügué. Definido por Gilda de Mello e Souza, em trecho de Destinos Mistos, como “uma maneira de andar e falar, que alguns de nós imitavam afetuosamente com perfeição […]”. Maügué buscava tratar temas diversos sob o prisma filosófico: filmes, romances, acontecimentos e ideias políticas do momento. Isso elevou a capacidade ensaística do grupo e os preparou para a intensa atividade crítica que desempenharam na revista.

Manifesto publicado no primeiro número da revista

 

Do apolítico ao radical: distintas posições em Clima

A curva política vista em Clima é da posição apolítica para a radicalidade, processo esse que foi gradual. Duas fases estabelecem esse processo: a primeira vai do número 1 ao 11 e a segunda do 13 ao 16, sendo o número 12 uma transição, como demarca Candido em Depoimento sobre Clima. O primeiro número de Clima trazia um manifesto escrito pelos jovens redatores, que tinha como principal objetivo o desejo de firmar uma nova interpretação das artes e da literatura, influenciados pelos ensinamentos do professor Maügué. A primeira fase, assim, expôs uma face de respeito ao passado, explicada pelo convívio temporal com os escritores modernistas.

 

A postura política dos integrantes da revista era “esquerdizante”, tendo Paulo Emílio como o mais engajado, haja vista seu período de militância no Partido Comunista Brasileiro. Entretanto, o que vemos nas edições que abarcam a primeira fase é um cerne idealista. O ideal defendido era que seria possível que a publicação fosse um espaço acima das divergências políticas, a cultura intelectual e artística seria o caminho para a realização desta proeza.

A entrada do Brasil na Segunda Guerra é o estopim para a nova postura política da revista, no ano de 1942. Se na primeira fase houve tolerância quanto aos colaboradores, os textos Declaração, número 11, e Comentário, número 12, assinalam a mudança da postura editorial de Clima. Não houve mais espaço para posições contrárias à democracia. Os redatores marcaram de maneira sólida, por meio dos textos, a luta contra o nazifascismo, que tinha como expoente brasileiro àquela altura o Integralismo.

São Paulo, 1974. Da esquerda para a direita: Antonio Candido, Paulo Emilio Salles Gomes e Decio de Almeida Prado. Acervo Decio de Almeida Prado

 

Grandes colaboradores em Clima

Nas edições de Clima figuram textos de autores que atualmente formam o cânone da literatura brasileira, contudo, iniciavam suas carreiras à época de publicação da revista. Lygia Fagundes Telles, detentora de uma obra traduzida para dezenas de idiomas e adaptações para televisão e cinema, era uma jovem escritora quando publica o conto “O suicídio de Leocádia” no número 4 da revista.

Mário de Andrade colaborou com um artigo no número inicial de Clima cujo título é “A Elegia de Abril”, além do conto “O ladrão”, presente no número 13. Esse texto veio a integrar o volume póstumo Contos Novos (1947).

Gilda Rocha de Mello e Souza, até então Gilda Morais, contribuiu com dois contos “Armando deu no macaco”, número 7 e “Rosa pasmada”, número 12. Reconhecida crítica literária e professora emérita do curso de Filosofia da USP, Gilda lançou-se como ficcionista nas páginas da revista. O escritor e tradutor Modesto Carone, em depoimento dado à Folha de São Paulo em dezembro de 2005 por ocasião do falecimento da crítica literária, diz que além de exímia ensaísta, Gilda era uma escritora exemplar, que soube utilizar muito bem o estilo em sua prosa.

Alguns poetas que marcaram presença durante o período de Clima são Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Vinicius de Moraes. A semelhança é que os três autores já eram consagrados – todos já haviam lançado alguns livros e contavam com prestígio dentro da crítica literária. Drummond, por exemplo, era um poeta em fase de transição quando participou de um número de Clima. O poema “Procura da poesia”, um dos três que é visto no número 13, pertence ao período de maior engajamento político dentro da poesia do mineiro.

 

Suplemento Literário e a docência na USP

A revista foi um trampolim para que seus integrantes exercessem a crítica em jornais impressos e lecionassem sobre suas respectivas áreas de interesse. Lourival, embora assuma a função de redator especializado em política internacional de O Estado de S. Paulo em 1946, foi crítico de arte nos jornais da Folha durante o ano de 1942. Decio de Almeida Prado, mesmo que ligado à artes cênicas, em fevereiro de 1944 foi crítico de cinema no Diário de São Paulo – substituindo seu colega de Clima, Ruy Coelho. Chegou a escrever em 1946 crítica teatral no mesmo veículo. Antonio Candido, no que lhe concerne, foi crítico da Folha da Manhã entre 1943 e 1945. Dois anos profícuos em que o crítico literário ocupou o rodapé do periódico na seção intitulada “Notas de Crítica Literária”.

Certamente o trabalho mais notável da turma de Clima nos jornais de grande circulação foi o Suplemento literário do Estado de S. Paulo (1956-1974), projeto de Antonio Candido e trabalho de edição feito por Decio de Almeida. O Suplemento foi longevo, um sucesso explicado pela aspiração de Candido de que a publicação fosse do agrado de leitores cultos e comuns. Unia os antigos integrantes de Clima escrevendo artigos  como Candido, Decio, Paulo Emilio aos contos de Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan e João Antonio; assim como poemas de Drummond, Bandeira e João Cabral.

Antonio Candido, Decio de Almeida Prado e Paulo Emílio Sales Gomes tornam-se docentes da USP na década de 60, confirmando as inclinações que possuíam desde Clima. O primeiro assume em 1942 o cargo de assistente da disciplina de Sociologia I. Retorna em 1961, dessa vez para cadeira de Teoria Literária e Literatura Comparada, após ter sido professor de literatura entre 1958 e 1960 na Faculdade de Filosofia de Assis – atualmente campus da Universidade Estadual Paulista (UNESP). Os dois últimos têm suas carreiras de educadores um pouco mais tardias: Decio de Almeida Prado, assume em 1966 a docência no Departamento de Letras da USP, enquanto Paulo Emílio integra o corpo docente da recém criada Escola de Comunicações Culturais – atual Escola de Comunicação e Artes (ECA) –  em 1968, como professor do curso de Cinema.

 

Referências

CANDIDO, Antonio. Depoimento sobre Clima. Discurso, n. 8, p. 183-193, 9 jun. 1978.

DÉCIO de Almeida Prado. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa3751/decio-de-almeida-prado>.

FERRAZ, Heitor. Paulo Emílio no século. Disponível em:<https://revistacult.uol.com.br/home/paulo-emilio-no-seculo/>.

GAMA, Rinaldo. No ‘Suplemento Literário’, o encontro de várias gerações. O Estado de S. Paulo. São Paulo, Disponível em: <http://m.acervo.estadao.com.br/noticias/acervo,no-suplemento-literario–o-encontro-de-varias-geracoes,6862,0.htm>.

LORENZOTTI, Elizabeth de Souza. Do artístico ao jornalístico: vida e morte de um Suplemento – Suplemento literário de O Estado de S. Paulo (1956 a 1974). 2002. Dissertação (Mestrado em Jornalismo) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002. doi:10.11606/D.27.2002.tde-30032004-123234. Acesso em: 2019-04-21.

PONTES, Heloisa. Ar de família: a turma de Clima. Literatura e Sociedade, v. 14, n. 12, p. 62-73, 6 dez. 2009.

______. Destinos mistos: os críticos do Grupo Clima em São Paulo (1940-68). São Paulo (SP): Companhia das Letras, 1998.

 

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