Lima Barreto: crônicas e resistência

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por Lucas Fernandes

Bagatelas, título de um livro de crônicas do escritor carioca Lima Barreto (1881-1922), carrega o sentido de ninharias, futilidades, coisas sem importância. Esse título cabe à literatura de Barreto, que escreveu sobre os esquecidos pelo establishment. No entanto, o conteúdo do livro está longe de tratar de “coisas sem importância”. Bagatelas reúne 41 crônicas escritas entre 1911 e 1922 para jornais de pouca circulação. A primeira edição da obra foi lançada em 1923 pela Empresa de Romances Populares, e a última  é de 1953, publicada pela Editora Brasiliense. A BBM Digital disponibiliza a primeira edição de Bagatelas, que pode ser baixada ou consultada online. 

Capa da primeira edição de Bagatelas, de 1923

Com linguagem despojada e corriqueira que dispensa arabescos literários, Barreto se aproxima do “leitor comum”. Ele sabia que incomodava com seus escritos, como podemos ler na Advertência de Bagatelas:

Percebo perfeitamente que seria mais prudente deixá-los enterrados [os textos das crônicas] nas folhas em que apareceram, pois muitos deles não são lá muito inocentes; mas, conscientemente, quero que as inimizades que eles possam ter provocado contra mim, se consolidem, porquanto, com S. Ignácio de Loyola, penso que não há inimigo tão perigoso como não ter absolutamente nenhum inimigo.

Lima Barreto, Bagatelas, 1923, p. 3

O gênero crônica adapta-se muito bem aos intentos do autor, uma vez que Barreto pode se expressar de modo direto, angariando do cotidiano as problematizações que irá contestar. Isso porque, como nos coloca Antônio Candido:

(…) a crônica está sempre ajudando a estabelecer ou restabelecer a dimensão das coisas e das pessoas. Em lugar de oferecer um cenário excelso, numa revoada de adjetivos e períodos candentes, pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas. Ela é amiga da verdade e da poesia nas suas formas mais diretas e também nas suas formas mais fantásticas, – sobretudo porque quase sempre utiliza o humor.

Antonio Candido. “A vida ao rés-do-chão”. In: Para gostar de ler: crônicas. Volume 5. São Paulo: Ática, 2003, p. 89.

Candido lembra que antes de a crônica assumir o caráter que conhecemos hoje, ela era “um artigo de rodapé sobre as questões do dia, políticas, sociais, artísticas, literárias”. Barreto apresenta em Bagatelas esse estilo mais jornalístico, podemos dizer que são artigos de opinião sobre fatos vivenciados e analisados pelo autor na primeira metade do século XX. No entanto, o tom humorado, geralmente emergindo através da ironia, não deixa de estar presente em suas crônicas, como podemos verificar já no primeiro texto do livro, “A superstição do doutor”, no qual Lima Barreto faz troça dos pseudodoutores, dos herdeiros, dos meninos ricos que “surfam” em heranças acumuladas pelo “papai” :

A maioria dos candidatos ao doutorado é de meninos ricos ou parecidos, sem nenhum amor ao estudo, sem nenhuma vocação nem ambição intelectual. O que eles veem no curso não é o estudo sério das matérias, não sentem a atração misteriosa do saber, não se comprazem com a explicação que a ciência oferece da natureza; o que eles veem é o título que lhes dá namoradas, consideração social, direito a altas posições e os diferencia do filho de seu Costa continuo de escritório do poderoso papai.

Lima Barreto, Bagatelas, 1923, p. 6

Ao longo do livro encontraremos temas diversos, geralmente tratados com ironia e humor por vezes ácidos: o papel da imprensa, aspectos da política nacional e internacional, o feminino na sociedade brasileira, momentos em que Lima Barreto passou internado no Hospital dos Alienados, esportes, teatro e literatura. Desse modo, há um vasto banquete de crônicas para as leitoras e leitores tomarem contato com a visão de Barreto sobre a sociedade brasileira da primeira metade do século XX. Vejamos alguns excertos do livro:

Carta Aberta

Cochicham por aí que as nossas finanças vão mal; que a nossa situação internacional é melindrosa; que precisamos tratar energicamente do nosso surto econômico, etc., etc. Ouço falar baixinho de tudo isto; mas não vejo ninguém referir-se ao mal profundo que nos corrói. Corrói-nos, Exmo. Sr.Conselheiro, um pendor mal disfarçado para o despotismo da burguesia enriquecida com a guerra, por todos os meios lícitos e ilícitos, honestos e imorais, de mãos dadas com as autoridades públicas e os representantes do povo.

p. 60.

O Nosso Yankismo

Nós só vemos dos Estados Unidos o verso, não vemos o reverso ou o avesso; e este é repugnante, vil e horroroso. Houve mesmo quem descrevesse e sinto não ter aqui o livro para transcrever algumas das suas páginas edificantes. Por mera imitação daquela aglomeração humana, enchemos o Rio de Janeiro de descabelados sobrados insolentes, de cinco e seis andares, com uma base relativamente insignificante, verdadeiras torres, a esmagar os sobradinhos humildes dos tempos do Império, com os seus dois andares acanhados e decentes. Uma cidade como a nossa, semeada de colinas pitorescas, arborizadas ou não, que formam o seu verdadeiro encanto, se se seguirem tais construções, em breve ela perderá os seus horizontes originais e ficará como qualquer outra.

p. 121.

Coisas Eleitorais

Um dia desses, os nossos patrícios resolveram escolher um rei. Havia duas pessoas que queriam ser: o sr. Ruy Barbosa e o Sr., Epitácio Pessoa. Pelo que conversei, pelo que ouvi, pelo que me disseram pessoas insuspeitas, todo o Brasil queria o sr. Ruy; mas quem saiu eleito foi o sr. Epitácio Pessoa. Está aí uma prova,  entre muitas outras, de que eleição é uma coisa misteriosa.

p. 201.

Mas uma vez

Este recente crime da rua da Lapa traz de novo à tona essa questão do adultério da mulher e seu assassinio pelo marido. Na nossa hipócrita sociedade parece estabelecido como direito, e mesmo dever do marido, o perpetrar.

p. 209. 

Lima Barreto ontem, hoje … (e sempre?)

Infelizmente ainda convivemos com essa burguesia imoral denunciada por Barreto, visto que o Brasil é hoje o 7° país mais desigual do mundo, segundo dados do relatório divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) em 2017. Isso é ou não “trabalhar de mãos dadas com as autoridades públicas e os representantes do povo” em detrimento desse mesmo povo? Nosso “Yanquismo” não está na importação em massa da cultura norte-americana através de explosivos filmes e séries hollywoodianos, comidas fast foods, lojas Starbucks e o amor às armas de fogo? E o processo eleitoral? O presidente atual já não disse mais de uma vez que as urnas podem fraudar os resultados, dando um recado direto de que poderá não aceitar uma eventual perda no pleito? Por fim, o Brasil ainda é o 5° país que mais mata mulheres no planeta, de acordo com o Mapa da Violência de 2015, organizado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Essas são apenas algumas atualizações que podemos fazer dos trechos citados de Bagatelas.

A historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz, autora de uma biografia do escritor – Lima Barreto Triste Visionário, de 2017 – comenta que Barreto foi uma voz isolada em seu tempo porque tratou questões (o racismo, por exemplo) que, aos olhos do poder instituído, deveriam permanecer debaixo do tapete. Schwarcz chama nossa atenção para o dia 15 de novembro, data da comemoração proclamação da República, no qual cantamos o famoso “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas”. Ocorre que esse é um hino de quando o Brasil ainda era um Império, e não uma República. O hino oficial da República é:

Liberdade! Liberdade!

Abre as asas sobre nós

Das lutas na tempestade

Dá que ouçamos tua voz

.

Nós nem cremos que escravos outrora

Tenha havido em tão nobre País

Hoje o rubro lampejo da aurora

Acha irmãos, não tiranos hostis

Ora, esse é um trecho do hino da República, que data de 1890, e a dita Abolição ocorreu em 1888. Será possível que, em tão curto espaço de tempo, uma chaga tão profunda que foi (e é) o processo escravista nesse país se dissolveu, como afirma o trecho “Nós nem cremos que escravos outrora/ tenha havido em tão nobre País”? Obviamente não. Barreto, em Bagatelas, aponta para essas e outras várias contradições de nossa primeira República, tão caótica e capenga:

A República, mais do que o antigo regime, acentuou esse poder do dinheiro, sem freio moral de espécie alguma; e nunca os argentários do Brasil se fingiram mais religiosos do que agora e tiveram da Igreja mais apoio.

“São Paulo e os Estrangeiros”, p. 15

Esse triste visionário foi além de seu período histórico, e pode ser atualizado, como comentamos acima nos excertos das crônicas, uma vez que suas reflexões sobre a República Velha (1889-1930) influem nos nossos dias. Como afirma Schwarcz: 

(…) Eu sou uma historiadora, uma antropóloga, todo historiador tem medo do anacronismo, ou seja, tem medo de tirar um autor do seu contexto e trazer pro nosso. Mas no caso de Lima Barreto é quase uma obrigação a gente entender como ele foi uma voz solitária, uma voz intransigente, mas que nunca deixou de se bater por nossa cidadania e nossa democracia. Nesse sentido ele foi uma espécie de Dom Quixote, ou seja, ele não enfrentou moinhos, mas sempre enfrentou uma espécie de moinho simbólico que estava de alguma forma nessa que foi a nossa primeira república, mas que persistentemente continua a mostrar como, enfim, vivemos no entrave e vivemos com problemas de uma república que é falha, incompleta e que precisa ser, de alguma maneira, desafiada por todos nós brasileiros.

Lima Barreto morreu em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, ocorrida em São Paulo. Se um dos objetivos do movimento modernista foi buscar uma identidade nacional que fugisse de um padrão europeizante e que lançasse luz às particularidades brasileiras, não podemos nos esquecer de que Barreto também é um dos intelectuais responsáveis por lançar essa luz abrasileirada em nossa literatura. Sempre atento à composição complexa dos costumes de seu país e de sua gente, o escritor carioca foi incansável na busca de uma sociedade que pudesse se reconhecer dentro de suas “falhas endêmicas” e riquezas peculiares. Leiamos Barreto. 

Referências

BARRETO, Lima. Bagatelas. Rio de Janeiro: Empresa de Romances Populares, 1923.

BERMÚDEZ, Ana Carla, REZENDE Constança e MADEIRO, Carlos Madeiro. “Brasil é o 7º país mais desigual do mundo, melhor apenas do que africanos”, UOL, 2019.  Acessado em 29/11/2021,  disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2019/12/09/brasil-e-o-7-mais-desigual-do-mundo-melhor-apenas-do-que-africanos.htm

CANDIDO, Antônio. “A vida ao rés-do-chão”. In: Para gostar de ler: crônicas. Volume 5. São Paulo: Ática, 2003.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Encontro com Lilia Schwarcz – Lima Barreto, Galeria Multiarte,: 2017, acessado em 17/11/2021 disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1m0N7vmgWRk

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto, o brasileiro do século. Casa do Saber, 2017, acessado em 01/12/2021, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XeIBp7D9DBE 

SUDRÉ, Lu e COCOLO, Ana Cristina. “Brasil é o 5º país que mais mata mulheres” Revista Entreteses Unifesp, 7° edição, 2016, acessado em 29/11/2021, disponível em: https://www.unifesp.br/reitoria/dci/publicacoes/entreteses/item/2589-brasil-e-o-5-pais-que-mais-mata-mulheres

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Lucas Fernandes é graduando em Letras pela FFLCH-USP e bolsista da BBM pelo Programa Unificado de Bolsas (PUB-2021-2022).

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