João do Rio – cronista em trânsito

Share

Por Guilherme Rabelo Fernandes

O choque entre a tradição e a inovação que se deu na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX tem como uma das principais testemunhas o jornalista-escritor João do Rio.  Ele deixou uma obra que contempla não só a crônica jornalística como também o romance – A correspondência de uma estação de cura, 1918, contos – um exemplo é a coletânea Dentro da noite, 1910 – e a dramaturgia – A bela Madame Vargas e Eva, 1927. Essas e outras obras do autor estão disponíveis na biblioteca digital da BBM

João do Rio foi pioneiro no tratamento dado à reportagem jornalística brasileira, inserindo no cenário nacional a reportagem “interessada nos aspectos sociais e humanos da vida urbana”, efeito que também sentimos ao ler suas crônicas como retrato do cotidiano carioca na Belle Époque.

Modernidade e descompasso

“Era a “regeneração” da cidade e, por extensão, do país, na linguagem dos cronistas da época. Nela são demolidos os imensos casarões coloniais e imperiais do centro da cidade, transformados que estavam em pardieiros em que abarrotava grande parte da população pobre, a fim de que as ruelas acanhadas se transformassem em amplas avenidas, praças e jardins, decorados com palácios de mármore e cristal e estátuas importadas da Europa. […]” (Nicolau Sevcenko em “Literatura como Missão”)

A mudança profunda da paisagem urbana do Rio de Janeiro no período denominado como Belle Époque, descrita no trecho acima pelo historiador Nicolau Sevcenko, foi uma tentativa da classe hegemônica de ajustar-se ao padrão europeu. Utilizando os modelos londrino e parisiense, a proeminente burguesia carioca circunscrevia a metrópole neste ideal de modernidade, ao passo que coube às camadas populares a resistência. A cidade passou por uma transfiguração, da qual podemos tomar como exemplo as “amplas avenidas” citadas por Sevcenko, inspiradas na arquitetura e urbanismo europeu. A Avenida Central – atual Avenida Rio Branco -, inaugurada em 1904, foi um símbolo da burguesia citadina motivada pelo ideal de progresso.

Esse projeto de remodelagem levou ao emprego de políticas higienistas por parte da burguesia e na consequente expulsão da população humilde da área central da cidade. Um dos marcos históricos desse higienismo foi a “Revolta da Vacina”, embate entre as forças autoritárias e os moradores de habitações coletivas, como os cortiços. A revolta ocorreu por conta da publicação de um plano para regulamentar a aplicação obrigatória de vacina em 9 de novembro de 1904. Era alarmante a incidência dos casos de varíola na cidade do Rio de Janeiro, justificando a medida enquanto resolução de uma questão de saúde pública, porém também era de conhecimento da população carioca a truculência que ocorreria na aplicação dessas vacinas. Nicolau Sevcenko, em trecho do livro A Revolta da Vacina: Mentes Insanas em Corpos Rebeldes, define que esse episódio foi uma ”das mais pungentes demonstrações de resistência dos grupos subalternos do país contra a exploração, a discriminação e o tratamento espúrio a que eram submetidos pela administração pública […]”. Em decorrência dessa ações, moradias irregulares são erguidas nos morros e marcam o início do surgimento das favelas.

João do Rio e a lente de cronista

Este Rio de Janeiro foi cenário para as crônicas de João do Rio, um dos tantos pseudônimos do jornalista Paulo Barreto. Filho de um professor positivista, Dr. Coelho Barreto, e Dona Florência, João do Rio iniciou precocemente sua atividade jornalística, o que ocorre aos 17 anos, escrevendo críticas culturais no Cidade do Rio, do jornalista abolicionista José do Patrocínio. O ano de 1900 assinala um momento de prestígio, pois João do Rio tem reportagens publicadas na Gazeta de Notícias que ganham enorme repercussão, reunidas posteriormente no livro “As Religiões no Rio”.

Seu estilo pode ser caracterizado pelo excesso de brilho e uso de ornamentos verbais e por tiradas de gosto duvidoso, comuns aos autores à época. Ironia e sátira são recursos percebidos em seus textos, inspirados pela leitura do português Eça de Queiroz. É curioso notar que o emprego do paradoxo – figura herdada da prosa de Oscar Wilde, autor irlandês que exerceu grande influência sobre o carioca –, embora seja por suposição um traço estilístico da prosa do cronista, termina por aludir ao comportamento contraditório do escritor em suas relações. Quanto à abordagem social, João do Rio soube dar espaço para as diversas figuras que habitavam a moderna metrópole: dos salões frequentados pela alta sociedade à época aos recônditos da cidade, que abrigavam a massa de excluídos da região central. Suas crônicas souberam, assim, dar o devido olhar para todas as classes e para as diversas personagens que compunham a paisagem urbana carioca: os chineses usuários de ópio, as modern girls e os ‘moços bonitos’, os mendigos, as senhoras do chá e entre tantos outros exemplares da composição multifacetada do Rio de Janeiro nos primórdios do século XX. O reconhecimento aparece em 1910, com 29 anos, quando é eleito membro da Academia Brasileira de Letras para a cadeira do poeta Guimarães Passos. João do Rio ainda trabalharia no periódico O País como redator e fundaria em 1920 um jornal chamado A Pátria, dirigido até o ano de 1921, já que no dia 23 de junho morre subitamente num táxi ao sofrer um ataque do coração.

Dois retratos da Belle Époque

“Os livres acampamentos da miséria”, presente em Vida Vertiginosa (1911), e “Gente de Music-Hall”, Cinematographo (1909), são crônicas exemplares enquanto retratos de um período. A primeira por tratar de um lado tradicional da cidade, que buscou resistir às imposições culturais da nova classe hegemônica;  a segunda pela sofisticada descrição da alta sociedade carioca, que tentava refletir os costumes parisienses.

“O caminho, que serpeava descendo, era ora estreito, ora largo, mas cheio de depressões e buracos. De um lado e de outro casinhas estreitas, feitas de tábuas de caixão com cercados, indicando quintais. A descida tornava-se difícil. Os passos falhavam, ora em bossas em relevo, ora em fundões perigosos. O próprio bando descia devagar. De repente parou, batendo a uma porta”. (Vida Vertiginosa, p. 146).

Em “Os livres acampamentos da miséria”, João do Rio nos guia por uma seresta noturna nas habitações do morro de Santo Antônio. O cenário noturno da crônica é elemento recorrente na prosa do escritor, enquanto a “seresta” é símbolo de resistência frente aos novos costumes civilizatórios. O narrador percorre o morro, seguindo os seresteiros, e coloca, no trecho reproduzido acima, o tortuoso caminho percorrido no morro e as rudimentares moradias improvisadas. O tom de reportagem – traço jornalístico – é eminente na crônica, porém o autor constrói um texto que está posicionado numa linha tênue entre o gênero jornalístico e a literatura.

Já o percurso em “Gente de Music-Hall” é oposto. O enredo se dá em um casino onde acontece uma apresentação musical de diferentes cantoras. O auge se dá na apresentação da princesa jamaicana Verônica. O momento da apresentação é o de maior comoção e ardor entre os espectadores, inclusive os distintos acompanhantes do narrador: um barão e um conde. O texto concentra-se nos dois últimos terços dessa apresentação e no que ocorre depois dela, com o cronista e seus companheiros seguindo em cortejo até o camarim da cantora.

Uma importante descrição do ambiente da alta classe nos é dada, ao dizer que

“A sala, sob a clara luz das lâmpadas elétricas, acendia-se, gania luxúrias. Senhores torciam o bigode com o olhar vítreo, as damas envolviam os braços nas plumas das boas com um ar mais acariciador. Nós estávamos todos. Na orla dos camarotes, pintados de vermelho, pousavam em atitudes de academia, expondo vestidos de tonalidades vagas e anéis em todos os dedos as mais encantadoras criaturas da estação”. (Cinematographo, p.1)

João do Rio, assim, tece um retrato que dá conta de mostrar as inovações técnicas do período histórico – nas lâmpadas elétricas – confluindo com o sentido da libertinagem presente entre os frequentadores dos salões. O trecho é composto pela atitude encantada do narrador, quando vê as damas envolvidas em plumas e aquelas que usam “vestidos de tonalidades e anéis em todos os dedos”. Contudo, o encanto do cronista não está reservado somente aos salões da alta sociedade: a imagem do morro de Santo Antônio, com milhares de moradores sobrevivendo às margens da modernidade, o encanta igualmente. Frequentou os salões – ambientes internos – e as ruas que se constituíram em largas avenidas – ambientes externos. Assim, seu olhar para a metrópole não foi unilateral. Isso nos mostra que uma das possíveis chaves de entendimento da obra de João do Rio é o trânsito de seu olhar, sem priorizar o retrato de determinada classe e, por consequência, produzindo um fidedigno quadro de uma época.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Livros de João do Rio disponíveis no Acervo Digital da BBM

BETING, Graziella (Org.). João do Rio: Crônica. São Paulo: Carambaia, 2015.

MARTINS,  Luís. João do Rio: a vida, o homem, a obra. In: RIO, João do. João do Rio: uma antologia. 3. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005. Apresentação, p. 7-20

SEVCENKO, Nicolau. A inserção compulsória do Brasil na Belle Époque. In:__. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 4. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Cap. 1, p.35-94.

______. A revolta da vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Scipione, 2003.

 

Guilherme Rabelo Fernandes é graduando em Letras pela FFLCH-USP

Curadoria

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *