Línguas indígenas, missionários e dominação colonial: o Catecismo da doutrina christãa na lingua brasilica da nação kiriri

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por Gustavo Pontes

O Cristianismo, principalmente na Idade Moderna, serviu como grande aliado das conquistas do além-mar sobre as populações que habitavam as “novas terras”. Durante o período das grandes navegações, entre os séculos XV e XVI, importantes Estados Absolutistas, como Portugal e Espanha, investiram na conquista de novos territórios. Nas futuras terras brasileiras, a chegada e permanência dos portugueses no “Novo Mundo” desencadeou, logo de início, um grande choque de crenças e costumes com as populações que já as habitavam.

A colonização tinha por objetivo principal extrair as riquezas das terras recém descobertas e exportá-las para a metrópole. Portanto, para os colonos conseguirem se manter no poder e “controlar” a população de acordo com seus interesses, foi necessário algum meio de induzir e envolver os nativos nessa nova forma de organização social, apesar dos constantes atos de resistência. Somente a opressão e a violência não seriam suficientes para manter a lógica colonial. Nesse cenário, a Igreja se torna extremamente importante para a manutenção da ordem social que estava sendo imposta.

A Companhia de Jesus, liderada por Manoel da Nóbrega, chega ao Brasil em 1549, durante o governo geral de Tomé de Souza. Com o objetivo de catequizá-los e administrá-los segundo os seus interesses, a Igreja se torna um dos principais instrumentos de controle dos povos originários. Tal processo foi extremamente invasivo e desrespeitoso: os missionários partiam em busca de espalhar a palavra do Deus cristão, ignorando as crenças e costumes já estabelecidos na cultura de cada povo. 

A importância da compreensão das línguas nativas

O investimento no processo de catequização foi enorme e mobilizou grandes esforços por parte dos jesuítas e da Coroa. De acordo com o historiador Edgard Leite, a catequização se mostrou importante para a consolidação do poder europeu e da administração colonial. De início, foi instituída uma língua geral a partir do tronco linguístico tupi-guarani, sendo utilizada, de forma genérica, na catequese de diversos povos da América do Sul . Isso já demonstra o interesse em enquadrar as diversas culturas em uma única língua, excluindo a diversidade e a identidade de cada povo.

Entretanto, os padres jesuítas encontraram dificuldades em manter contato com a população indígena conforme foram adentrando nos sertões. A falta de conhecimento dos idiomas se tornou um problema a ser superado se quisessem obter sucesso na catequização. Assim, os missionários sentiram a necessidade de compreender as línguas faladas e tentarem criar “dicionários” para facilitar esse contato, medida que foi utilizada em vários locais e por diversas ordens religiosas. O objetivo da catequização era colocar os povos originários na doutrina cristã e, por efeito disso, terem a graça divina e serem libertos dos seus pecados. Essas missões muitas vezes não foram bem sucedidas, pois os indígenas resistiram e atacaram diversos missionários, sendo necessário a criação de aldeamentos administrados pelos Jesuítas a fim de catequizar e utilizar a mão-de-obra indígena. 

 

Catecismo da doutrina christãa na lingua brasilica da nação kiriri

É nesse contexto que surge a obra Catecismo da doutrina christãa na lingua brasilica da nação Kiriri, escrito pelo padre Mamiani. Nascido na Itália, em 1652, Luís Vincêncio Mamiani entrou para a Companhia de Jesus com 16 anos. Em 1684, sai de Lisboa e vai à Bahia, com o intuito de atuar na Missão do Maranhão. É importante lembrar que nesse mesmo ano ocorreu a Revolta de Beckman, em São Luís, motivada sobretudo pelas dificuldades do comércio e administração local e pelos conflitos entre colonos e jesuítas, porque estes tinham posição contrária à escravização indígena por aqueles. Porém, é preciso notar que os jesuítas não eram contra a escravização dos nativos, o que era reivindicado era o total controle dos nativos por parte da Igreja.

Os povos indígenas não tinham a mesma concepção de mundo que os padres jesuítas, por isso era mais difícil fazê-los assimilar determinados conceitos cristãos. A obra do padre Mamiani é caracterizada por trazer a língua da nação kiriri para a escrita portuguesa com considerável riqueza de detalhes. O documento seria importante para o restante da Companhia, pois continha as principais orações cristãs, além das leis divinas para a catequização dos nativos, com dicas de pronúncia e escrita. Com isso, os jesuítas conseguiam manter contato com muita gente, pois os Kiriri formavam um importante grupo linguístico-cultural do nordeste brasileiro.

Segundo a historiadora Ane Luíse Silva Mecenas Santos, Mamiani afirmava que era preciso que os indígenas aprendessem as orações e as respostas de perguntas gerais, sendo desnecessário que eles aprendessem tudo sobre o cristianismo, pois eram considerados incapazes disso. Percebe-se que o objetivo principal era apenas moldar os costumes indígenas nas doutrinas cristãs, sendo desprezado toda a bagagem cultural desses povos. 

A tentativa de apagamento da cultura e dos costumes dos povos nativos foi algo constante na história do Brasil. A catequização se tornou algo essencial para a Coroa desde o início da colonização: era necessário impor a educação cristã e excluir do cotidiano dessa população o que era tido como crenças pagãs. Apesar de haver diversas atos de resistência – como fugas dos aldeamentos e retorno dos nativos aos seus costumes -, percebe-se que a insistência da Igreja cristã em “catequizar” vai desde o tempo colonial até os dias atuais. Líderes religiosos ainda invadem terras indígenas querendo falar de sua religião e desdenhar das crenças locais, associando-as ao “mal”.

O catecismo do padre Mamiani é um importante exemplo de como a catequização cristã afeta e ofende a cultura indígena desde o início desse “choque” de culturas e religiões. Os missionários cristãos não tinham, como em geral ainda não têm, o entendimento de que é preciso compreender e respeitar os povos indígenas, sua cultura, crenças e formas tradicionais de vida, sem sobrepor a elas a cultura cristã. A análise dos trechos do documento revela que a Coroa, em conjunto com a Companhia de Jesus, investiram muito na tentativa de catequizar esses povos, demonstrando o impacto da cultura europeia e cristã nas terras do Novo Mundo.

Referências

FAUSTO, Boris; FAUSTO, Sérgio. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 1994.

LEITE, Eduardo. Entrevista concedida à TV Senado, para o documentário “Missões Jesuíticas”.

MAMIANI DELLA ROVERE, Luigi Vincenzo et al. Catecismo da doutrina christãa na lingua brasilica da nação kiriri.Lisboa: Miguel Deslandes, 1698.

NOVAIS, Fernando A.; SOUZA, Laura de Mello. História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa. Companhia das Letras, 1997.

SANTOS, Ane Luíse Silva Mecenas. Mediações culturais no Além-mar: o padre Mamiani e os usos da língua kiriri nas brenhas dos sertões.Clio – Revista de pesquisa histórica. vol. 32, n. 1, 2014, pp. 45-62.

SEABRA, Ricky. “Contribuições para a leitura adequada da Doutrina Christãa na Língua Brasílica da Nação Kiriri de autoria do padre jesuíta Luiz Vincencio Mamiani”.Revista Brasileira De Linguística Antropológica, vol. 9 n.2, 2018, pp. 341-348.

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Gustavo Pontes é graduando em história pela FFLCH-USP e bolsista da BBM pelo Programa Unificado de Bolsas (PUB-2020-2021).

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