Primeiras veredas de João Guimarães Rosa

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Certos textos literários publicados em jornais e revistas sobrevivem ao esquecimento por motivos alheios a seu próprio valor e muitas vezes são lembrados contra a própria vontade de seus autores. Três contos publicados na célebre revista O Cruzeiro entre 1929 e 1930 são casos de textos destinados a ser tão lembrados quanto os anúncios do creme dental Eucalol e do super-depurativo Luetyl estampados na revista. Mas se sua leitura ainda interessa e os exemplares da revista em que foram publicados são hoje cobiçados por colecionadores é porque seu autor escreveu coisa de mais valor anos depois. No caso desses três contos, seu autor se consagraria como um dos maiores escritores da literatura brasileira do século XX, João Guimarães Rosa.

Influência de Edgar Allan Poe

Entre vinte e um eIMG_0641 vinte e dois anos de idade, o ainda estudante em medicina João Guimarães Rosa publicou contos onde se encontra muito pouco do universo que o autor criou em seus contos, novelas e em seu grande romance Grande Sertão: Veredas. Em vez da paisagem e personagens do sertão mineiro, o que se encontra nessas três histórias são as brumas da Escócia onde nobres habitam castelos húmidos e sombrios, os alpes suiços onde vivem valentes caçadores e um balneário alemão . O cenário e personagens emprestados de terras estrangeiras serão usados para criar contos fantásticos, próximos ao modelo do escritor norte-americano Edgar Allan Poe.

O primeiro conto, “O mistério de Highmore Hall” saiu no fim de 1929. A história se passa num castelo da Escócia, onde sir John Highmore vive enclausurado depois de sua esposa fugir com sir Elphin Lawen, que vivia no castelo vizinho. O castelo soturno, húmido e isolado, continuamente castigado pelo vento e pela chuva é o cenário para um enredo de traição, loucura e vingança.

Em junho e julho de 1930 sairam os outros dois contos publicados na revista O Cruzeiro. Em “Os caçadores de camurça”, Ulrich e Rudolph, dois jovens caçadores, muito amigos um do outro, disputam a mão de Lisel, a mais bela donzela da aldeia. Casará com a jovem aquele que conseguir caçar a camurça mais valente da região. Na aventura em meio aos abismos das montanhas escarpadas e nevadas dos alpes entrarão em jogo heroísmo e traição, renúncia e honra. O terceiro conto, que leva o título grego de “Khronos kai Anagke” (Tempo e Destino), se passa numa estação balneária no sul da IMG_0639Alemanha, onde se realiza um torneio internacional de xadrez. Zviazline, o mais jovem concorrente do torneio, obtém duas primeiras vitórias e granjeia fama entre os concorrentes. Após ingerir uma substância tóxica, Zviazline tem um delírio em que se vê num castelo na preseça de dois homens, um identificado como Destino, mas que faz lembrar Satanás (e que já lhe aparecera em pesadelos e em pessoa no próprio torneio) e o outro identificado como Tempo. Como se se tratasse da proposta de um pacto demoníaco, os dois homens oferecem ao jovem todo o saber oculto contido nas regras do xadrez.

Se há alguma aproximação entre os contos da juventude e a obra madura de Guimarães Rosa, ela se insinua no pacto fáustico tematizado em “Khronos kai Anagke” e que será um dos temas centrais da obra-prima do autor, Grande Sertão: Veredas, publicada em 1956. Um curioso indício fortalece essa aproximação. Na descrição do delírio de Zviazline aparece esta frase: “como se remoinhasse no centro de um ciclone”, que faz lembrar a epígrafe do Grande Sertão, “O diabo na rua, no meio do redemoinho”.

Outras veredas

João Guimarães Rosa só viria a publicar seu primeiro livro de contos, Sagarana, em 1946,embora a obra, ainda sem esse título, tenha tirado, em 1938, o segundo lugar em um concurso literário promovido pela livraria José Olympio.  Além desses três contos de juventude publicados em O Cruzeiro, Guimarães Rosa publicou em 1930, em O Jornal, o conto Makiné. O autor nunca se interessou em publicar em livro essas quatro histórias, certamente por não achar grande valor literário nelas. Foi apenas em 2011 que elas apareceram em livro pela primeira vez, publicadas com o título de Antes das Primeiras Estórias. Os estudiosos da obra de Guimarães Rosa talvez não encontrem nos quatro contos, a não ser em sutis indícios, material fértil para compreender o percurso de formação do escritor. Os exemplares da revista O Cruzeiro onde estão esses três contos talvez valham apenas como exemplos de um caminho abandonado. A prosa de Sagarana, e antes dela os versos de Magma, livro que venceu em 1936 o prêmio da Academia Brasileira de Letras mas só foi publicado postumamente, em 1997,  já estão distantes dessas experiências de juventude e revelam um escritor já formado. As outras veredas que Guimarães Rosa seguiu não deixam dúvidas de que o rumo era de fato outro.


Contos publicados originalmente em: 

O mistério de Highmore Hall – O Cruzeiro, 7 de dezembro de 1929.

Chronos kai Anagke – O Cruzeiro, 21 de junho de 1930.

Caçadores de camurça – O Cruzeiro, 12 de julho de 1930.

Em livro: 

João Guimarães Rosa. Antes das primeiras estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

 

 

 

João

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