200 livros: Viajantes

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Viajar para encontrar pessoas, coisas e lugares diferentes daqueles com os quais se está familiarizado é um elemento constante nas sociedades humanas há milhares de anos. Voltar ao ponto de origem e contar o que viu – oralmente, por escrito ou por imagens – é um complemento quase obrigatório dessa experiência. Se não volta o viajante, que ao menos volte o registro de sua experiência na forma de cartas, diários ou desenhos esboçados. Os esforços para reunir esses registros (principalmente os em forma escrita), em uma categoria única – literatura de viagem, por exemplo – deparam-se com uma grande dificuldade, dada a enorme variedade de formas, assuntos e pontos de vista. 

A diferença entre os relatos deriva, assim, da variedade das experiências, das intenções e objetivos de cada viajante, de seus referenciais éticos, políticos, religiosos, científicos e das expectativas do público que lê o relato. Seria possível citar muitos outros elementos, mas esses são suficientes para arriscar dizer que o principal ponto comum entre os relatos de viagens é a tentativa de organizar e tornar compreensível a relação entre um lá e um aqui, o desconhecido e o conhecido, o estranho e o familiar. 

A seleção feita para este post permite tornar essas questões menos abstratas. A carta de Pero Vaz de Caminha (1500) e os relatos do alemão Hans Staden, Duas viagens ao Brasil (1557) e do francês Jean de Léry, História de uma viagem feita à terra do Brasil (1578) estão entre as mais importantes descrições dos primeiros contatos entre europeus e povos ameríndios da América do Sul. Caminha relata ao rei D. Manuel I, de Portugal, uma terra desconhecida dos europeus, habitada por uma sociedade muito diversa das sociedades europeias. A carta revela o assombro de parte a parte, a curiosidade de descobrir o diferente, mas também o desejo europeu de dominar territórios e suas populações, explorar suas riquezas, transformar terras e gentes à sua imagem e semelhança. Staden e Léry, por sua vez, se viram obrigados a conviver intimamente com os tupinambás que viviam no litoral dos atuais estados de São Paulo e Rio de Janeiro: o primeiro foi capturado e estava destinado a ser comido em um ritual antropofágico; o segundo, perseguido por seus conterrâneos franceses, encontrou refúgio entre os nativos. Esses primeiros encontros revelam muitas ambiguidades: intenção de conhecer e tornar compreensível o diferente, admiração por certas características dos povos ameríndios, mas também uma repulsa ao estranho e um esforço seja para “civilizar” o nativo, tornando-os cristãos obedientes, seja para aniquilá-los, caso recusassem a “civilização”. 

Séculos mais tarde, o português Alexandre Rodrigues Ferreira (Viagem filosófica, 1783-1792), os alemães Johann von Spix e Carl von Martius (Viagem pelo Brasil: 1817-820) e o britânico Alfred Russel Wallace, (Viagens pelo Amazonas e rio Negro, 1889) percorrerão vastas porções do território brasileiro como cientistas interessados em revelar a natureza tropical: suas paisagens, plantas e animais, mas também, principalmente no caso de Rodrigues Ferreira, suas riquezas potenciais, que tornariam lucrativa a ocupação colonial de regiões habitadas por diversos povos originários. Entremeado a esses objetivos principais, esses viajantes também deixaram registros importantes sobre os saberes, cultura, organização social e vida cotidiana das populações que habitavam partes remotas do Brasil. Novamente, encontra-se nesses viajantes um misto de repulsa e admiração, a atração pelo estranho e exótico e a tendência em colocar em um nível mais baixo o que não era familiar ao mundo europeu. 

Entre os livros da seleção, a Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839), do artista francês Jean Baptiste Debret, destaca-se por ter-se tornado conhecida mais por suas imagens do que por seus textos. De volta à França depois de mais de quinze anos no Brasil, o artista publicou uma obra ilustrada por centenas de imagens que registram e  interpretam principalmente a Corte do Rio de Janeiro. Nessas cenas urbanas, nota-se elementos como a centralidade do trabalho escravo, a violência às quais os escravizados estavam submetidos e a desigualdade reinante entre negros e brancos. 

Claude Lévi-Strauss, o último viajante da seleção, era um jovem etnólogo quando, na década de 1930, percorreu o Brasil com o objetivo de estudar os povos ameríndios que habitavam o interior do país. Nas páginas de Tristes Trópicos (1955) encontra-se ainda uma curiosidade parecida com a dos viajantes do século XVI, mas a perspectiva era outra: nem dominar, nem rebaixar sociedades exóticas ao mundo ocidental, mas encarar sua organização e práticas como detentora de significados e valores próprios, cuja complexidade, grandeza e contradições equiparam-se às de qualquer sociedade humana. 

Colonizadores, aventureiros, missionários, cientistas e artistas compõem uma gama variada de pontos de vista que orientam ações tais como invadir, conquistar, catequizar, explorar, conhecer, representar. Nas obras incluídas nesta seleção, há uma orientação constante: viajantes que partem da Europa para o Brasil, representantes do mundo ocidental que assumem a tarefa de relatar outras terras, povos e culturas. Muitas vezes, contudo, essa alteridade se deforma sob olhares incapazes ou pouco propensos a encarar a diferença por seus valores próprios. Ainda assim, em maior ou menor grau, as terras e povos exóticos que esses viajantes encontraram resistem, em sua diversidade, frente ao poder homogeneizador do mundo ocidental. 


Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I (1500)

De Pero Vaz de Caminha



Caminha, Pero Vaz de. Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel I. 1 de Maio de 1500.


Pero Vaz de Caminha (1450-1500) nasceu no Porto, filho de Vasco Fernandes de Caminha, cavaleiro do duque de Bragança. Em 1497, foi apontado como redator dos Capítulos da Câmara Municipal do Porto. Três anos mais tarde, em 1500, Caminha foi nomeado escrivão da feitoria que seria implantada em Calecute, na Índia. Foi por esse motivo que ele embarcou na armada de Pedro Álvares Cabral, que rumava para o Oriente e que apenas casualmente teria aportado na América do Sul. Após somente nove dias no Novo Mundo, a armada de Cabral seguiu viagem rumo ao Oriente. Caminha morreu em Calecute no fim de 1500, aparentemente vítima de um ataque muçulmano à feitoria portuguesa. 

A célebre carta de Caminha é o primeiro registro escrito sobre parte do território que viria a se chamar Brasil. Perdido por séculos, o documento só foi descoberto em 1773 e publicado pela primeira vez em 1817. O relato da carta concentra-se na descrição da terra, de suas potenciais riquezas e de seus habitantes originários. Seu principal interesse está no relato do encontro com os ameríndios que viviam na região de Porto Seguro (sul do atual estado da Bahia). Ele atesta o que todos deveriam saber: não houve descobrimento algum, uma vez que a terra já era ocupada e habitada por outros povos muito antes da chegada de portugueses e outros europeus. No encontro, ainda pacífico, entre ameríndios e europeus, havia curiosidade de ambos os lados. Caminha inegavelmente admira os indígenas: “A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos.” Os indígenas também estavam bastante interessados naqueles estrangeiros e suas coisas: “E quando Sancho de Toar recolheu à nau, queriam-se vir com ele alguns, mas ele não quis senão dous mancebos dispostos e homens de prol. Mandou-os essa noute mui bem pensar e curar. E comeram toda vianda que lhes deram. E mandou-lhes fazer cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noute.”


Duas viagens ao Brasil  (1557)

De Hans Staden



Hans Staden. Warhaftige Historia und Beschreibung (…), 1557. Geralmente traduzido em português por Duas viagens ao Brasil.

Obras na BBM Digital: 1a edição, 1557 (em alemão), Tradução para o português a partir da versão original em alemão, Tradução para o português a partir da versão modernizada do alemão


Em 1547, Hans Staden (1525 c. – 1576) partiu de sua terra natal, Hesse, no centro da Alemanha, com o objetivo de visitar a Índia, mas acabou indo para a América do Sul. Após viagem comercial de poucos meses para a costa nordeste do continente, o alemão integrou uma expedição espanhola com destino à região do Rio da Prata. Uma série de naufrágios, contudo, o levou à Capitania de São Vicente, onde serviu num forte em Bertioga até ser capturado por índios tupinambá, que o mantiveram nove meses em cativeiro, sob ameaça de ser morto e comido em um ritual antropofágico. Staden conseguiu, entretanto, ser resgatado por uma nau francesa e retornou à Alemanha em 1555, onde viveu o resto de seus dias. 

Dois anos depois de seu retorno a Hesse, o viajante alemão publicou um livro, fartamente ilustrado, que conta as aventuras de suas duas viagens ao Novo Mundo. Apesar de Staden ser um típico representante da violenta expansão colonial europeia e estar envolto por preconceitos culturais e religiosos de seu tempo sobre as populações nativas do continente, essa obra é um dos testemunhos mais importantes sobre os povos tupi da costa sul-americana. O livro também pode ser lido como uma empolgante narrativa de aventura. Embora forçada, a convivência de Staden entre os Tupinambá não só o permitiu observar de muito perto o modo de vida de seus captores, mas também o fez partilhar de muitas de suas práticas. Muito da riqueza do livro se deve a essa situação singular do mercenário alemão.


História de uma viagem feita à terra do Brasil (1578)

De Jean de Léry



Jean de Léry. Histoire d’vn voyage faict en la terre du Bresil, 1578.

Geralmente traduzido em português por História de uma viagem feita à terra do Brasil

Obra na BBM digital: Léry, Jean de, 1534-1611. Histoire memorable de la ville de Sancerre: contenant les entreprinses, siege, approches, bateries, assaux & autres efforts des assiegeans : les resistances, faits magnanimes, la famine extreme & delivrance notable des assiegez : le nombre des coups de canons par journees distinguees : le catalogue des morts & blessez à la guerre, sont à la fin du livre. Geneva, 1574.


Jean de Léry (1536-1613) nasceu na França em uma família modesta. Aprendeu o ofício de sapateiro e ainda jovem converteu-se ao calvinismo, o que o fez se deslocar até Genebra, na Suíça, em 1552, para encontrar João Calvino. Cinco anos depois, em 1557, Calvino enviou Léry e mais treze calvinistas para a França Antártica, colônia francesa que havia se instalado na Baía de Guanabara em 1555. Foi o próprio Nicolas de Villegagnon,  comandante da colônia, quem escreveu a Calvino solicitando a ida de missionários protestantes à jovem colônia. Logo após a chegada do grupo, contudo, Villegagnon, que oscilava entre o catolicismo e o protestantismo, passou a perseguir o grupo calvinista, que a um certo momento se refugiou entre os Tupinambá. Léry conviveu cerca de dois meses entre estes e no início de 1558 conseguiu partir de volta à Europa. A França Antártica ruiria pouco depois, em 1560. Formado ministro calvinista em Genebra, em 1572 Léry e outros protestantes foram cercados durante mais de seis meses por católicos na cidade francesa de Sancerre, onde muitos calvinistas morreram de fome. Léry, contudo, sobreviveu ao cerco e escreveu um livro sobre o evento (História memorável do cerco de Sancerre, 1574). Ele prosseguiu sua atividade religiosa e morreu de peste em 1613.     

Embora tenha retornado do Brasil em 1558, Jean de Léry publicou seu relato sobre suas experiências, História de uma viagem feita à terra do Brasil, apenas em 1578. Em certa medida, o relato do viajante calvinista se contrapõe às obras do missionário católico André Thevet, que também esteve na França Antártica e publicou suas experiências em dois livros: Singularidades da França Antártica (1557) e Cosmografia universal (1575). O livro de Léry é notável sobretudo pela descrição que é feita da sociedade e cultura tupinambá, mas também pela descrição da flora e fauna do Novo Mundo. Para fazer seus leitores europeus conhecerem um mundo estranho, Léry se vale da analogia, pela qual ele compara os costumes tupinambá aos costumes europeus, as frutas e animais da América às frutas e animais da Europa etc. Na maioria das vezes, as analogias rebaixam os Tupinambá, que são vistos como selvagens pagãos. Mas em certos momentos, Léry não esconde sua admiração por uma cultura muito diferente da sua, que ele não deixa de exaltar e elogiar. A narrativa de Léry parece ter influenciado o filósofo Michel de Montaigne a escrever seu famoso ensaio “Dos canibais” (1580). Já no século XX, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss saudaria a História de uma viagem feita à terra do Brasil como uma das primeiras grandes etnografias sobre os povos indígenas das Américas.


Viagem filosófica (1783-1792)

De Alexandre Rodrigues Ferreira


Alexandre Rodrigues Ferreira. Viagem filosófica (1783-1792)


Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815) nasceu em Salvador, onde fez seus primeiros estudos. Partiu então para a Universidade de Coimbra e estudou Letras, Filosofia Natural e Matemática. Trabalhou no Real Museu da Ajuda e em 1780 tornou-se membro correspondente na Real Academia das Ciências de Lisboa. Rodrigues Ferreira foi indicado pela Rainha D. Maria I como chefe da expedição científica que percorreria o centro-norte da colônia a partir de 1783. Ao longo de nove anos, a comitiva percorreu as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, para registrar informações sobre a fauna, a flora e as populações dessas regiões. O cientista retornou a Portugal em 1793 e ocupou, entre outros cargos, a direção do Real Gabinete de História Natural e do Jardim Botânico. 

A viagem filosófica de Rodrigues Ferreira foi a primeira grande expedição científica liderada por um luso-brasileiro e produziu milhares de documentos, entre diários de viagem, cartas, desenhos, espécimes e objetos coletados. A publicação desse vasto material ocorreu de maneira esparsa. Entre 1885 e 1888, por exemplo, o Diário da Viagem Filosófica foi publicado pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Um dos grandes objetivos da expedição era compreender os fatores de declínio da produção agrícola na região amazônica e coletar informações para impulsionar a expansão econômica da região. Inspirado pelo espírito científico e enciclopédico do Iluminismo, o interesse de Rodrigues Ferreira não se limitou aos aspectos econômicos da Amazônia. Ele também dedicou-se a registrar elementos da sociedade, cultura e cotidiano das populações ribeirinhas e indígenas que viviam no local, além de realizar um grande inventário sobre a fauna e flora local. O trabalho de Rodrigues Ferreira oscilou, assim, entre a necessidade de satisfazer os interesses políticos e econômicos da Coroa portuguesa, financiadora da expedição, e os interesses científicos, não necessariamente voltados para fins práticos.


Viagem pelo Brasil: 1817-820 (1981)

De Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius



Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Philipp von Martius. Viagem pelo Brasil: 1817-820. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, 1981.

Obras de Spix e Martius na BBM digital


Johann Baptist von Spix (1781-1826) nasceu na Baviera. A partir de 1808, estudou zoologia na Academia bávara de ciências e humanidades e em seguida partiu para Paris, onde foi discípulo de Georges Cuvier, um dos principais naturalistas do período. Retornou à Baviera em 1810, onde foi indicado como o primeiro conservador da coleção zoológica bávara. Em 1817, Spix compôs o grupo de cientistas da Missão Austríaca, que acompanhou a ida ao Brasil de Maria Leopoldina da Áustria, que se casaria com D. Pedro I. Durante cerca de três anos viajou extensamente pelo Brasil, na companhia de Carl von Martius. Recolheram espécimes de plantas e animais e materiais geológicos e etnográficos. De sua viagem, resultou o relato, escrito juntamente com Martius, Viagem pelo Brasil: 1817-820. Publicou ainda uma série de descrições sobre a fauna brasileira.   

Também nascido na Baviera, Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) fez seus estudos na universidade de sua cidade natal, Erlangen, onde defendeu tese sobre botânica. Em 1817, compôs o grupo de cientistas da Missão Austríaca. Após seu retorno do Brasil, em 1820, Martius foi indicado como responsável pelo Jardim Botânico de Munique. Anos depois, em 1826, tornou-se professor de botânica na Universidade de Munique. Além de Viagem pelo Brasil: 1817-820, que escreveu em parceria com Spix, Martius é autor de diversas obras, sobre botânica principalmente, mas também sobre etnografia, linguística e teoria da história. Suas publicações giram em torno das experiências e objetos adquiridos em sua viagem ao Brasil. É também digno de nota sua iniciativa de produzir a Flora Brasiliensis, que reuniu botânicos de toda a Europa para descrever espécimes vegetais brasileiras. O projeto perdurou para além da morte de Martius e catalogou mais de 22 mil espécimes.   

O relato de viagem de Martius e Spix é uma das obras mais importantes do gênero produzida sobre o Brasil. A dupla viajou milhares de quilômetros entre 1817 e 1820, do Rio de Janeiro aos confins da Amazônia, passando por São Paulo, Minas Gerais e sertão e litoral do Nordeste. Trataram de praticamente todos os assuntos. Abordaram questões sociais e econômicas ao descrever, por exemplo, a organização social e as atividades produtivas de cidades grandes e pequenos arraiais, mas também de fazendas, garimpos e fábricas. Descreveram também diversos povos indígenas, sua organização, cultura e língua. Representaram ainda a diversidade da paisagem, da fauna e da flora brasileira: da mata atlântica ao cerrado, da caatinga à floresta amazônica. Ainda que seus registros estejam marcados por uma visão racista e etnocêntrica, a Viagem pelo Brasil de Martius e Spix continua sendo uma importante fonte de informações sobre o Brasil do início do século XIX.


Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839)

De Jean-Baptiste Debret



Jean-Baptiste Debret, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, 1834-1839  

Obra na BBM Digital: https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/3813 


Membro de uma família ligada às artes, a formação de Jean-Baptiste Debret (1768-1848) como pintor esteve ligada à escola neoclássica francesa. Seu mestre foi Jacques Louis David, seu primo e principal expoente da pintura neoclássica. Como David, Debret dedicou grande parte de seu trabalho à pintura histórica. A queda de Napoleão Bonaparte do poder em 1815 impactou grandemente o trabalho de Debret e de outros artistas franceses de sua geração que apoiavam o regime e que eram em grande medida sustentados por ele. Assim, em 1816, Debret juntou-se a outros artistas e artesãos franceses (como Nicolas-Antoine Taunay e Grandjean de Montigny) e partiu para o Brasil. Instalado no Rio de Janeiro, ele passou a colaborar –  com trabalhos de pintura, cenografia e artes decorativas – com o príncipe regente Dom João VI e depois com Dom Pedro I. Retornou à França em 1831 e, entre 1834 e 1839, publicou, nos três volumes da Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, os resultados de sua experiência e trabalho durante os dezesseis anos que viveu no Brasil.

Na Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, Debret reproduziu, em litografias, mais de 150 de suas pinturas e desenhos sobre o Brasil. Cada gravura é acompanhada de um texto que contextualiza e esclarece aspectos da imagem. A Viagem Pitoresca divide-se em três grandes núcleos temáticos: a natureza e os povos originários, a vida cotidiana dos negros escravizados no Rio de Janeiro e arredores e eventos e personagens históricos da jovem nação independente. Embora haja uma importante dimensão de estilização, invenção e idealização no trabalho de Debret, as imagens e textos da Viagem Pitoresca são uma das mais importantes fontes de informação sobre o Brasil do início do século XIX, pricipalmente no que diz respeito à vida social, econômica, cultural e cotidiana dos negros escravizados no Rio de Janeiro. A camada estilística e ideológica de seu trabalho também revela importantes traços de um projeto de Brasil que se tentava esboçar pouco após a Independência. 


Viagens pelo Amazonas e rio Negro (1889)

De Alfred Russel Wallace


Alfred Russel Wallace. Viagens pelo Amazonas e rio Negro. Brasília: Senado Federal, 2004.


Alfred Russel Wallace (1823-1913) nasceu em Monmouthshire, no País de Gales. Aos 14 anos mudou-se para Londres, para trabalhar com seus irmãos mais velhos. Aprendeu o ofício de agrimensor e paralelamente leu obras e frequentou aulas de ciências naturais. Mais tarde, foi professor de desenho e cartografia num colégio na cidade de Leicester, onde conheceu o entomologista Henry Bates. A leitura de relatos de viajantes pelos trópicos fez Wallace tomar a decisão de também explorar o mundo. Em 1848, ele e Bates embarcaram em direção a Belém. O objetivo de Wallace era coletar espécimes vegetais e animais para vender a colecionadores privados europeus e também reunir evidências para o que à época era chamado de “transmutação das espécies”. Retornou ao Reino Unido em 1852 e logo partiu para outra expedição no Sudeste asiático. Os estudos que o naturalista fez a partir de seus trabalhos de campo o levaram a conclusões muito próximas às que Charles Darwin desenvolveria em A origem das espécies (1859). Wallace e Darwin chegaram a se corresponder em 1858 e este, sabendo das ideias do colega, apressou a publicação de sua teoria. Além de grande cientista, Wallace foi um importante ativista social, engajado na defesa da reforma agrária e do voto feminino, e contra as teorias eugenistas em voga no fim do século XIX.

Wallace publicou suas Viagens pelo Amazonas e rio Negro apenas em 1889, quase quarenta anos depois do fim da expedição. Neste livro, o naturalista galês não se dedicou apenas a descrever os aspectos naturais da região amazônica, ele também apresentou aspectos da vida social, cultural e econômica das populações ribeirinhas dos rios Amazonas, Negro e Uaupés, descreveu as doenças que atacavam os moradores da região e fez descrições etnográficas dos povos indígenas da Amazônia. Essencial para o desenvolvimento da teoria da evolução, a viagem de Wallace à bacia amazônica também lhe permitiu “captar as minúcias das relações de poder entre fazendeiros, comerciantes, escravos e demais integrantes da sociedade brasileira da época”, como afirma a historiadora Carla Oliveira de Lima.  


Tristes Trópicos (1955)

De Claude Lévi-Strauss



Lévi-Strauss, Claude. Tristes Trópicos. Paris: Librairie Plon, 1955. (1ª  Edição)


Considerado o criador da antropologia estrutural, cujas implicações teóricas e práticas impactaram imensamente as ciências humanas do século XX, Claude Lévi-Strauss foi um antropólogo, filósofo, advogado e professor francês integrante da missão universitária francesa, responsável por auxiliar a estruturação da Universidade de São Paulo em meados da década de 1930. Nesta missão, o antropólogo ocupou a cadeira de Sociologia na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da instituição.

Foi durante sua passagem pelo Brasil, ainda nos anos 30, que ocorreram as inspiradoras viagens etnológicas de Lévi-Strauss às regiões mais remotas e profundas de um Brasil central quase sem fim. As viagens, marcadas pelo entusiasmo de um jovem que estava prestes a viver experiências análogas às de seus escritores de cabeceira – os viajantes europeus do século XVI, como Jean de Léry –, proporcionaram o encontro melancólico do antropólogo com diversas populações indígenas no país. Tal encontro, além de ter transformado sua trajetória para sempre, daria origem, décadas depois, a uma de suas mais célebres e belas obras, Tristes Trópicos

De difícil classificação, poderia-se dizer que o livro repousa nas fronteiras borradas dos escritos etnográficos, dos diários de viagem, da literatura e também das autobiografias. Como o título já anuncia, o caráter triste da obra se deve à comovente constatação de que o tempo, aliado às intransigentes ações do capitalismo colonial, estaria atuando como um trator aniquilador das diferenças entre aquelas populações e a sociedade nacional brasileira. O tempo, aliás, é o eixo responsável por dar contorno às inquietações de Lévi-Strauss durante toda a extensão da obra. Este foi o primeiro esforço do autor em elaborar reflexões sobre a temática, que o acompanhou por outros de seus escritos. Além de descrever os percalços do jovem pesquisador em uma aventura antropológica, Tristes Trópicos anuncia a angústia em relação ao futuro do país. Através das lentes de sua câmera Leica e de seus escritos em cadernos de campo, Lévi-Strauss registra um presente vertiginoso, capaz de remeter ao passado e de fazer refletir sobre uma possibilidade de futuro que jamais acontecerá.

Curadoria

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