Epidemias do passado: Retirada da Laguna, a doença como pior inimiga

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A História fornece registros variados de epidemias que assolaram diferentes locais e povos no Brasil e no mundo. Com a recente disseminação do novo coronavírus (Covid-19), a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) seleciona de seu acervo digital uma série de documentos que descrevem algumas das mais graves epidemias que já foram registradas nas Américas e em Portugal. Além disso, também é apresentado um levantamento de livros sobre saúde e medicina. A intenção é que produções pretéritas possam contribuir para reflexões sobre o momento atual.

Durante a Guerra do Paraguai (1864-1870), as epidemias eram provavelmente as inimigas mais temíveis dos exércitos em conflito. Cólera, malária, tifo, beribéri causavam tantas ou mais mortes do que os confrontos bélicos. A Retirada da Laguna, um célebre episódio da Guerra do Paraguai, é um dos maiores exemplos do terrível poder de destruição de uma epidemia em campo de batalha. Transcorridos no primeiro semestre de 1867, os eventos da retirada foram registrados em livro pelo escritor brasileiro Alfredo d’Escragnolle Taunay, que participou da missão como engenheiro militar. O livro que narra o episódio foi publicado primeiramente em francês, em 1872, com o título de La retraite de Laguna. Em 1874, saiu a tradução em português, A retirada da Laguna. Ambas as versões estão disponíveis no acervo digital da BBM. O texto que segue, baseado no relato de Taunay, recupera os momentos principais da campanha, cujo clímax foi uma epidemia de cólera que se alastrou pela corporação.

Dedicatória de Taunay a Caldas Vianna na terceira edição francesa da obra BBM digital

Rumo ao campo de batalha

Em abril de 1865, partiu do Rio de Janeiro, capital do Império, uma expedição rumo às frentes de combate no sul da província do Mato Grosso, atualmente parte do Estado de Mato Grosso do Sul. O avanço foi lento, devido à falta de víveres, epidemia de varíola e deserções. No mês de julho, a expedição foi organizada em Uberaba, de onde seguiu até Cuiabá, para ser completada em seu contingente. O grupo seguiu para o sul e, em 20 de dezembro, estabeleceu acampamento em Coxim, local sem valor estratégico, isolado por inundações frequentes e atacado por doenças.

Após longa demora e muitas hesitações, a expedição seguiu ainda mais para o sul, rumo a Miranda. Chegaram em setembro de 1866 e não encontraram melhor acolhida, pois ali também reinavam a doença e a carência de mantimentos. A expedição permaneceu mais de 100 dias no local e viu a fome e a doença causar baixas no contingente. Partiram apenas no início de janeiro de 1867, após decisão do recém nomeado comandante, o coronel Carlos de Moraes Camisão. Foi formada então uma brigada única de 1.600 homens, que seguiu para a vila de Nioaque, ainda mais ao sul e mais próxima das frentes de luta.

Em meados de 1886, Nioaque foi saqueada pelos paraguaios, que deixaram a vila parcialmente arruinada. Ainda assim, lá a brigada encontrou melhores condições climáticas, sanitárias e de abastecimento. Cresceu o entusiasmo dos soldados, que alimentou a obsessão do comandante Camisão. Em fins de 1864, ele tinha participado da retirada do forte de Corumbá, marco da primeira investida paraguaia dentro do território brasileiro. A retirada foi motivo de críticas aos oficiais que dela participaram. Camisão estaria então obstinado a investir sobre o território inimigo, o que apagaria o malogro anterior. Mas o comportamento do coronel é errático, suas decisões são desencontradas e ele hesita em avançar.

O homem de confiança do comandante é José Francisco Lopes. Sertanista, o guia Lopes é o melhor conhecedor da região, tanto da parte brasileira quanto da paraguaia. No início da guerra, ele e sua família foram capturados pelos paraguaios. Lopes conseguiu escapar e, mais tarde, também seu filho mais velho, outro grande conhecedor dos sertões.

A coluna pôs-se em movimento em 24 de fevereiro e se estabeleceu em Colônia Miranda, a menos de 100 quilômetros do território paraguaio. O inimigo já tinha então ciência da presença da brigada. Camisão tardava a decidir sobre o prosseguimento da marcha. Em reunião com oficiais, alguns achavam temerário continuar (pela falta de comida, de munição, de reforço próximo), outros achavam que avançar era uma ação inevitável. São feitas algumas expedições de reconhecimento do território. Nesse momento, se reuniu à brigada um grupo de brasileiros que escapou do Paraguai. Um deles é o filho de José Francisco Lopes. O relato do grupo sobre a situação desfavorável do inimigo incentivou o avanço da corporação.

Mesmo sem ter as melhores condições, o corpo avançou em direção ao rio Apa, limite dos territórios. Os cavalos também foram atacados por uma epidemia, que os dizimou, e não tinha chegado nenhuma notícia sobre a frente de batalha mais ao sul. Esta era o centro de conflito mais importante e o interesse do avanço em questão era desviar o foco das operações paraguaias ao sul e assim contribuir com o avanço das brigadas brasileiras no Baixo Paraguai.

Os inimigos se viam e se estudavam uns aos outros. O primeiro confronto se esboçou com o lançamento de granadas em direção aos paraguaios. Mas estes se retiravam sistematicamente à medida em que o corpo brasileiro avançava. Atearam fogo na estância de Machorra, com o intuito de impedir a pilhagem dos brasileiros. No dia 21 de abril, a corporação atravessou o rio Apa e se deparou com a fortaleza de Bella Vista, em território paraguaio. Passaram ali os dias seguintes, as condições de abastecimento não pareciam as melhores, a falta de alimento era iminente. O avanço parecia mais que nunca temerário. Camisão hesitava, temendo novo fracasso ao não ir à caça do adversário.

O corpo seguiu até a fazenda Laguna, algumas léguas adiante, onde chegou em 30 de abril. A carência de víveres era uma realidade cada vez próxima e a necessidade de uma retirada se impunha. Um confronto de pequenas proporções, com aparente vantagem para os brasileiros, inflou o ânimo de Camisão. A retirada, contudo, continuava inevitável.

Início da retirada

Capa da primeira edição em português do relato – BBM digital

A retirada teve início em 08 de maio de 1867. Nesse dia, os paraguaios atacaram os brasileiros e fizeram 14 mortos e muitos feridos. As epidemias frequentes que marcaram a expedição até a frente de confronto deixaram desguarnecidos os recursos para amparo dos feridos. Os mortos foram sepultados no campo de batalha e a retirada prosseguiu.

“Fomos assim todo o dia caminhando com grande estrépito, no meio das aclamações dos nossos, dos gritos agudos e ferozes do inimigo, dos mugidos do gado, das explosões da pólvora, confusão de homens e de coisas, em um chãos de fumo e pó.”

Novamente em Bella Vista. A retirada prosseguia com percalços. O espectro da fome avançava, o esperado apoio de Nioaque não chegava e o ataque dos paraguaios era constante, embora a resposta brasileira fosse em geral eficaz. Atravessaram o rio Apa e regressaram ao território brasileiro.

Em 11 de maio, nas proximidades da estância de Machorra, ocorreu o combate de maiores proporções da retirada. A artilharia paraguaia assustou o gado que acompanhava as tropas e os brasileiros ficaram em temporária desvantagem. Com algum esforço, a artilharia brasileira reverteu a situação. O saldo do combate foi de 80 mortos do lado paraguaio, 19 mortos e 29 feridos do lado brasileiro. Os corpos inimigos, dos mercadores e das mulheres que os acompanhavam são pilhados e profanados após o conflito. O gado brasileiro escapou em grande parte durante o combate.

De Bella Vista à colônia Miranda seriam 14 léguas e mais 10 até Nioaque, onde encontrariam gado. Os paraguaios, contudo, estavam à frente do corpo brasileiro e chegariam primeiro. Lopes aponta então outro caminho, que os faria chegar antes a Nioaque. Apenas ele e o filho conheciam o desvio por meio das brenhas. Camisão acata a sugestão de Lopes. A falta de comida, contudo, começa a se concretizar. Em vez dos 22 bois diários, apenas 4 são mortos para alimentar a corporação. Alguns feridos morrem.

Os dias seguintes foram marcados por uma sequência repetida de infortúnios. Os paraguaios põem fogo nas campinas e as chamas e fumaça avançam sobre da corporação brasileira. O fogo é seguido por ataques sistemáticos dos paraguaios. Os animais de carga estão exaustos, sem comida e água. Na falta de gado, os bois de carga mais fracos vão sendo abatidos para alimentar a corporação faminta. Quando não ataca o fogo, atacam chuvas torrenciais e o frio noturno. As carroças são queimadas para aquecer os soldados esfarrapados. O mato espesso dificulta o avanço e Lopes, em certos momentos, não tem certeza se está no caminho certo. Ele vai perdendo o ânimo e o comandante se impacienta cada vez mais. Sobretudo penosa é a sorte das 71 mulheres que acompanham a brigada, quase todas vão a pé, muitas com os filhos no colo.

O drama se transforma em tragédia

A essas desventuras se somaria outra ainda mais devastadora. Espalha-se o boato de que a cólera está disseminada na corporação. O boato se confirma, os médicos Quintana e Gesteira, não podiam mais ocultar a doença, que tinha começado a se manifestar em Bella Vista. No dia 20 de maio, o cólera fez 9 vítimas e o dobro de doentes. A doença seguiria multiplicando seus danos nos dias seguintes. Em pouco tempo, o número de mortos pela doença chegaria a 100. Apavorados, muitos desertaram e um, pelo menos, se suicidou.

“Os coléricos acumulados junto da pequena barraca dos médicos, ao ar livre e sem abrigo, receberam nos corpos álgidos os aguaceiros que sucediam-se com intervalos. Esse grupo de infelizes era dó vê-lo, em agitação sem termo, rasgando os andrajos com que tentavam cobri-los, rolando uns sobre os outros, a torcerem-se com câimbras. De instante a instante erguiam-se dentre eles vociferações, bramidos, que se confundiam em um só grito articulado: Água!

Os médicos não tinham recursos e os enfermeiros, a princípio zelosos e ativos, tinham desanimado diante do número sempre crescente dos doentes, e, apesar da ordem que proibira como fatal o uso da água, davam-na para satisfazer um instante ao menos aos moribundos: a isso limitavam-se todos os cuidados.”

Diante do agravamento contínuo da crise, Camisão toma uma decisão extrema:

“Depois de expor em poucas palavras o estado das coisas, a urgência de uma marcha precipitada, sem a qual estavam todos perdidos, e a impossibilidade, agora bem verificada e geralmente reconhecida, de levarmos mais longe os doentes, declarou aos comandantes que, sob a sua responsabilidade e pela lei de rigor que lhe impunha esse dever, os coléricos, com exceção dos convalescentes, iam ser abandonados nesse mesmo pouso!”

O clima é de absoluta consternação, mas ninguém se coloca contra a decisão.

“O comandante então, como fora de si, ordenou que fossem imediatamente à luz de archotes, abrir uma clareira no bosque vizinho para transportarem-se para aí e aí ficarem os coléricos.”

O filho de Lopes soma-se aos mortos pela doença. A propriedade de Lopes está logo adiante, mas ele também está doente, assim como o coronel Camisão e outros oficiais. Avista-se, do outro lado do rio Miranda, a propriedade do guia Lopes, que falece em seguida.

Na outra margem do rio Miranda, nas terras de Lopes, há uma plantação de laranjas. Contudo, as chuvas fortes e frequentes aumentaram muito volume e correnteza do rio, dificultando sua travessia. Apenas alguns soldados são capazes de atravessar o rio a nado.

No dia 29, faleceu o coronel Camisão, também vítima do cólera. O major José Tomás Gonçalves foi designado como o novo comandante. O volume do rio baixa, as laranjas são levadas aos famintos do outro lado e matam a fome e a doença, que começa a retroceder. O novo comandante dá ordem de atravessar o rio. Na manhã seguinte, os retirantes partem da casa de Lopes em direção a Nioaque.

Poucos dias depois chegaram à vila, que pouco antes tinha sido novamente saqueada pelos paraguaios. Antes de partirem, eles deixaram uma armadilha na igreja – um carregamento de pólvora, ligado por rastilhos. A explosão foi a última causa de perdas humanas durante a retirada. Em Nioaque ainda restavam mantimentos o suficiente para alimentar os membros sobreviventes da corporação. O caminho é retomado em 5 de junho, rumo ao porto do Canuto, às margens do rio Aquidauana, onde chegaram no dia 11. O exército paraguaio já não os perseguem mais e o comandante dá por encerrada a retirada.

Saldo final do episódio

Com a chegada da brigada ao porto do Canuto, Taunay encerra a narrativa do episódio. O autor não faz um balanço geral da retirada. Além dos números esparsos sobre as baixas por doença, combate e deserção, Taunay deixou indicado, no início da narrativa, que um terço da corporação tinha perecido, isto é, mais de 500 mortos, se tomarmos como referência os 1.600 homens que formavam a brigada em janeiro de 1867.

“Paraguaios” – A gravura faz parte do livro de Richard Burton, Letter from the battle-field of Paraguay, relato de duas viagens feitas pelo autor, então Cônsul britânico em Santos, ao Paraguai, durante a guerra, entre agosto de 1868 e abril de 1869 – BBM digital

Ao fim de sua narração, Taunay anexa um “Documento comprobatório”, que é um relato paraguaio sobre o episódio, publicado no semanário de Assunção em 13 de julho de 1867. O relato, que não é assinado e se intitula “A invasão do norte”, tem o objetivo primeiro de enaltecer os feitos do exército paraguaio. Embora apresente mais números, a natureza propagandística do texto os põe em dúvida. A brigada adversária é calculada em 3.000 homens, metade do informado por Taunay e 800 teriam sido as mortes por doença. Contudo, na descrição do fim da retirada, os números talvez sejam mais precisos do que os de Taunay:

“Estava então reduzida a coluna inimiga a menos de 500 homens, mas eram cadáveres ambulantes, reduzidos ao estado mais calamitante e desesperador.”

Este texto também está disponível no site da BBM, acesse: 

https://www.bbm.usp.br/pt-br/Selecao-BBM-digital/retirada-da-laguna-a-doença-como-pior-inimiga/

Curadoria

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