Epidemias do passado: uma epidemia entre os tupinambás narrada por Hans Staden

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A História fornece registros variados de epidemias que assolaram diferentes locais e povos no Brasil e no mundo. Com a recente disseminação do novo coronavírus (Covid-19), a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) seleciona de seu acervo digital uma série de documentos que descrevem algumas das mais graves epidemias que já foram registradas nas Américas e em Portugal. Além disso, também é apresentado um levantamento de livros sobre saúde e medicina. A intenção é que produções pretéritas possam contribuir para reflexões sobre o momento atual.

 A chegada dos europeus nas Américas foi o acontecimento mais terrível para as populações ameríndias. A lista infernal dos males que dizimaram muitos povos, diminuíram drasticamente a população de outros e ameaçam ainda hoje a existência dos que sobreviveram inclui guerra, escravidão, cristianização forçada e novas doenças, para as quais o sistema imunológico das populações indígenas não estava preparado. O célebre relato do aventureiro Hans Staden, mantido em cativeiro por cerca de nove meses pelos tupinambás, menciona uma epidemia que se disseminou nas imediações de Ubatuba, atualmente parte do Estado de São Paulo.

 O mais célebre relato de viagem ao Brasil no século XVI

Em meados de 1549, Hans Staden estava a bordo de um navio espanhol, com destino à bacia do rio da Prata. Era sua segunda viagem para a América; no ano anterior tinha viajado em uma nau portuguesa, que passou um curto período na capitania de Pernambuco. Uma tempestade fez o navio espanhol naufragar próximo à ilha de Santa Catarina. Ele e outros companheiros foram resgatados por um navio que seguia para São Vicente, o qual também naufragou. Novamente resgatado em território ocupado pelos tupiniquins e seus aliados portugueses, Staden assumiu um posto de artilharia em um forte em Bertioga, que fazia limite com o território inimigo dos tupinambás, aliados dos franceses. Após alguns meses nesse posto, em uma saída para caçar na floresta, o alemão foi capturado pelos tupinambás.

Staden viveu cerca de nove meses entre os tupinambás, sempre temendo ser morto e devorado por eles em um ritual antropofágico. Conseguiu, contudo, ser mais uma vez resgatado, agora por um navio francês, e retornou para sua terra natal, onde, em 1557, publicou o relato de suas experiências, Warhaftige Historia und Beschreibung eyner Landschafft der wilden nacketen grimmigen Menschenfresser Leuthen in der Newenwelt America gelegen (“História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América (…)”). O livro teve grande sucesso, foi editado várias vezes e traduzido para muitas línguas ao longo dos séculos XVI e XVII. Contudo, uma tradução para o português só apareceu no final do século XIX, em 1892, reeditada em 1900 com o título Hans Staden: suas viagens e captiveiro entre os selvagens do Brasil. Desde então, o relato de Staden tem sido constantemente editado em português, geralmente com o título Duas viagens ao Brasil. O acervo digital da BBM reúne várias edições do relato, entre elas a primeira edição em alemão, de 1557, e a segunda edição em português.

Página de rosto da primeira edição do relato de Hans Staden – BBM digital

A primeira edição da narrativa do aventureiro alemão é um dos mais belos exemplares do acervo BBM. São notáveis a tipografia gótica, as capitulares (letras decoradas que abrem os capítulos de uma obra) e sobretudo as mais de cinquenta xilogravuras que ilustram o livro, construindo uma narrativa paralela ao texto escrito. O texto, por sua vez, é um dos mais importantes registros sobre os primeiros contatos entre europeus e ameríndios e sobre o modo de vida dos povos tupis da costa brasileira. Sua leitura guarda ainda muito interesse para o leitor de hoje e pode ser apreciado como relato histórico, etnográfico e de aventura.

Uma epidemia ataca os tupinambás em Mambucaba

Seja qual for a escolha, o leitor deve partir do pressuposto de que Hans Staden era um homem europeu do seu tempo e, como tal, via os indígenas como seres inferiores, bárbaros e infiéis. Cristão protestante, Staden quer nos fazer crer que seu deus, o único verdadeiro, intervém sistematicamente a seu favor e, consequentemente, contra os gentios que querem comê-lo. Esquematicamente, o livro de Staden pode ser lido como uma narrativa da provação de um cristão entre bárbaros, elaborada com o recuo de quem já estava salvo em sua terra natal. Sob essa construção retórica, que exalta a proteção divina aos cristãos contra seus inimigos infiéis, corre um esforço mais elementar, o de um cativo que luta para se livrar de seus aprisionadores.

O episódio em que é narrada a epidemia disseminada entre os tupinambás fornece um bom exemplo dessa possibilidade de leitura. Staden está mantido em cativeiro na aldeia tupinambá em Ubatuba. O chefe Nhaêpepô-oaçu capturou o alemão na floresta, com ajuda de seu irmão Alkindar-miri, e o ofereceu de presente a Ipiru-guaçu, tio deles. Os irmãos estão em Mambucaba, aldeia próxima a Ubatuba. Alkindar-miri chega então a Ubatuba e procura por Staden. Ele traz a notícia da doença que se espalhou na aldeia vizinha.

 Esperava eu todos os dias os outros que, como antes disse, estavam fora, preparando-se contra mim. Um dia depois ouvi alguém gritar na cabana do rei, que estava ausente. Tive medo pensando que voltavam, porque é costume dos selvagens não se ausentarem mais de quatro dias. Quando então voltam, seus amigos gritam de alegria. Não muito depois desta gritaria, veio um deles ter comigo e disse: “O irmão do teu senhor chegou e diz que os outros ficaram muito doentes.” Fiquei alegre e pensei: “Aqui Deus quer fazer alguma coisa.” Pouco tempo depois veio o irmão do meu senhor à cabana onde eu estava, assentou-se ao pé de mim, começou a se lamentar e disse que seu irmão, sua mãe e os filhos de seu irmão tinham todos ficado doentes, e seu irmão tinha mandado a mim para me dizer que eu devia fazer com que meu Deus lhes desse saúde, e acrescentou: “meu irmão está pensando que teu Deus está zangado. Eu lhe disse que sim, que meu Deus está zangado, porque eles queriam me devorar e tinham ido a Mambukabe [Mambucaba] para fazer os preparativos. E lhe disse mais: “Vós dizeis que eu sou português, e eu não o sou… E acrescentei: “vai ter com teu irmão, para que ele volte a sua cabana e então falarei a meu Deus, para que ele fique bom.” Então respondeu-me que estava muito doente, que não podia vir; que ele sabia e tinha reparado que se eu quisesse, ele ficaria bom lá mesmo. Eu lhe respondi que ficaria tão bom que podia voltar para sua cabana, onde ele então havia de sarar completamente. Com isto retirou-se com a resposta para a Mambukabe [Mambucaba], que fica a quatro léguas de Uwattibi [Ubatuba], onde eu estava.

Xilogravura da primeira edição do relato, mostrando a cerimônia funerária e o enterro de vítimas da doença que assolou os tupinambás – BBM digital

Staden teme que estejam preparando sua morte em Mambucaba, mas a notícia que chega de lá é aparentemente favorável a ele. Nhaêpepô-oaçu e muitos outros indígenas estão doentes na aldeia vizinha. Staden vê nisso um sinal da intervenção de seu deus. O mensageiro Alkindar-miri também crê que a doença vem do deus do cativo, que seria capaz de intervir em favor de Nhaêpepô-oaçu. O alemão confirma a crença, a doença é um castigo de deus e ele, Staden, tem o poder de curar o doente.

 Depois de alguns dias voltavam todos doentes. Então mandou ele me conduzir para a sua cabana e me disse que tinham todos ficado doentes e que eu bem o sabia, porque ele se lembrava ainda que eu tinha dito: A lua estava zangada contra a sua cabana. Quando ouvi estas palavras, pensei comigo: “aconteceu pela providência de Deus que eu na noite referida tivesse falado da lua. Fiquei muito alegre e pensei: “hoje Deus está comigo”.

Então lhe disse mais que era verdade, por ele querer me comer e eu não ser seu inimigo e por isso veio-lhe a desgraça. Ele disse então: que nada me fizessem, se ele tornasse a levantar. Não sabia como melhor rogar a Deus, porque pensei, “se voltam outra vez à saúde, matam-me assim mesmo; se morrem, então dirão os outros: “vamos matá-lo antes de acontecer mais desgraças por causa dele”, como já começavam a dizer. Seja como Deus quiser. Ele (o rei) pediu-me muito para que ficassem bons. Andei em roda deles e lhes deitei a mão nas cabeças, como me pediram. Deus não o quis, e começaram a morrer. Morreu-lhes uma criança, depois morreu a mãe dele (do rei), uma mulher velha, a qual queria fazer os potes nos quais pretendiam fabricar a bebida quando tivessem de me devorar. Alguns dias depois morreu um seu irmão (do rei), depois mais uma criança, e mais um irmão, que era aquele que me tinha dado a notícia quando tinham ficado doentes. Vendo então que seus filhos, sua mãe e irmãos tinham morrido, ficou muito triste e temia que ele e mais mulheres também morressem e me pediu que rogasse a meu Deus para não ficar mais zangado e o deixar viver. Eu o consolei como pude e disse que ele nada sofreria, e que não devia pensar em me devorar quando ficasse são. Respondeu-me que não e ordenou aos outros da sua cabana que não fizessem mais zombaria de mim, nem ameaçassem de me devorar. Assim mesmo continuou ainda doente algum tempo, porém ficou outra vez bom e também uma de suas mulheres, que estava doente. Mas, morreram mais ou menos oito de sua amizade, os quais me tinham feito muito mal.

Negociar para salvar a própria vida

         Salvar vidas é o centro da negociação do episódio. Nhaêpepô-oaçu quer salvar a sua vida e a dos seus. Staden quer salvar a sua própria. Como os tupinambás querem devorar o cativo, o deus deste se manifesta disseminando a morte entre os inimigos de seu protegido. Mortes justas evitam uma morte injusta. Caminham paralelas a intervenção divina contra selvagens infiéis e a luta pura e simples pela sobrevivência. Staden quer que leiamos a passagem como a manifestação do poder do deus cristão. Sua sobrevivência, portanto, pode ser vista apenas como um efeito colateral desse poder, mas também como prova da excepcionalidade do cativo, pois outros prisioneiros cristãos não se beneficiaram da intervenção divina. É possível, contudo, ler o episódio em sentido inverso: Staden manipula os supostos poderes de seu deus para se salvar. Não resta dúvida, aliás, de que esse é seu real objetivo; Nhaêpepô-oaçu será curado se não pensar mais em devorar o prisioneiro.

         A origem divina da epidemia, crença compartilhada entre Staden e os Tupinambás, participa de uma batalha com finalidade muito pragmática – diante de uma situação desesperadora, todos querem salvar sua pele. É apenas quando está são e salvo em sua terra natal que o aventureiro alemão poderá elaborar uma narrativa capaz de unificar um conjunto díspar de fatos, personagens e motivações e de fazer o leitor interpretar os eventos da epidemia como ação divina exemplar.

Tradução em português do relato de Hans Staden – BBM digital

Não há nenhum elemento no texto de Staden que permita identificar qual era a doença que se espalhou entre os tupinambás nesse episódio. É certo que havia doenças na América antes da chegada dos europeus, mas foram as que eles trouxeram que dizimaram uma vasta porção da população ameríndia, cujo sistema imunológico não estava preparado para combater a gripe, a varíola, o tifo e tantas outras antes inexistentes no Novo Mundo. É bastante provável que a epidemia relatada por Staden tenha se disseminado a partir do contato dos tupinambás com tripulantes dos muitos navios europeus, dos aliados franceses sobretudo, que então aportavam na região para traficar pau-brasil.

Nesse e em outros episódios narrados por Staden estarão para sempre ausentes elementos decisivos para a compreensão mais completa dos fatos, narrados como “história verdadeira”, conforme o título original da obra. A história que conta Hans Staden poderá ser mais verdadeira se o leitor tiver em mente as várias camadas que compõem seus episódios: há a camada do Staden narrador, que regressou ao lar e pode escrever suas experiências com distanciamento, a do Staden cativo, esforçando-se para manter-se vivo, e a dos tupinambás, também agindo para sobreviverem e manter vivo seu mundo.

Este texto também está disponível no site da BBM, acesse:

https://www.bbm.usp.br/pt-br/Selecao-BBM-digital/uma-epidemia-entre-os-tupinambás-narrada-por-hans-staden/


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