Ha Uma Gota de Sangue em Cada Poema

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“… Nem todas as nuvens de todos os tempos, reunidas em nosso céu, propagariam uma treva igual a que lhes solapa a inteligência e o infeliz amor da pátria.”

Antes mesmo de se tornar um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna, Mario de Andrade publicou em 1917 seu primeiro livro, Há Uma Gota de Sangue em Cada Poema. Sob o impacto da Primeira Guerra Mundial, a obra é vista como um manifesto antibelicista e pacifista, recheado de reflexões e críticas ao assombro pelo qual a Europa passou de 1914 a 1918.

 

Guilherme

 

Ser feliz é ser grande. Imenso de alma,

inda que o coração se lhe dobre…

E’ alcançar a região etéria e calma,

onde a alma viva enfim, nua e desimpedida…

Indiferentemente

ou sendo rico, ou sendo pobre,

ser feliz é encontrar no fim da vida,

de torna-viagem para a povoação,

a inflexível consciência, e encará-la de frente:

e ajoelhar para a coroação.

 

Ser grande é ser bom. Justo

na maneira de agir e no discernimento…

Não é apenas plagiar Alexandre ou Augusto,

sem que de honra e glória se farte:

antes é mitigar o humano sofrimento,

é ter o bem como estandarte.

Ser grande é compartir o chôro largo

do mundo; agindo de tal forma,

a deixar para o fraco uma lei e uma norma,

e um beijo fraco em cada lábio amargo…

E’ pêla fôrça real das sábias energias,

apagar o sarcasmo e as ironias…

E’ pêlo amôr que aleita e orvalha,

e pêlo gênio cálido e eficaz

e pôr sobre a inveja uma eternal mortalha

e erguer, sob a mortalha, a figura da paz.

[…]      

Mesmo apresentando um forte ativismo político, característica comum ao movimento modernista, o próprio autor declarou que seus poemas eram ainda imaturos e, ficou claro ao longo dos anos que, estavam muito aquém do que seria publicado por ele posteriormente.

Nascido em uma família humilde da cidade de São Paulo, Mário Raul de Morais Andrade mostrou desde cedo inclinação às artes, principalmente literatura. Formou- se em piano no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e em 1922 publicou uma de suas obras mais conceituadas, Paulicéia Desvairada. Nesse mesmo ano, participou da organização da Semana de 22, como também é conhecida, trabalhando ao lado de artistas, como  Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Menotti del Picchia.

Demonstrando ser um estudioso das tradições populares, do folclore, da etnografia e da cultura brasileira, publicou nos anos seguintes o Clã do Jabuti (1927), Amar, Verbo Intransitivo (1927) e Macunaíma (1928).

Também trabalhou como diretor no Departamento de Cultura do Município de São Paulo, foi nomeado catedrático de Filosofia e História da Arte no Rio de Janeiro e ainda, Diretor do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal. Veio a falecer em em 1945 na cidade de São Paulo, vítima de um ataque cardíaco.

Confira esse e demais poemas da obra no site da BBM e na Biblioteca Digital https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/7714

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