Não cause um acidente

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Por Norberto de Assis

Não é só olhando pra frente que supomos o futuro. Na verdade, olhar para trás se faz tão importante quanto. Como no trânsito, para não causar um acidente, devemos olhar sempre no retrovisor. Entender que se não houver uma reflexão sobre tudo aquilo que acertamos ou erramos no passado, não se terá expectativa alguma para o futuro; não se terá experiência para saber se o que estamos fazendo terá diferença.

Entenda-se aqui que não é simplesmente acreditar que a história se repetirá da mesma maneira; quem fizer isso, não está fazendo um bom uso dela. Deve-se aprender que todos os eventos importantes no mundo acontecem uma só vez. Dado isso, temas e questões não se esgotam (acredite), aqueles que estavam em voga em 1822 e em 1922 ainda são importantes. O nacionalismo, por exemplo, era algo que tanto o movimento da independência, quanto os modernistas da Semana de 22 reivindicavam e que, ainda hoje, reivindicamos.

Porém, devemos ver estas datas com responsabilidade: 1822 foi uma data em  seu contexto, isto é, estava inserida em determinada época e sociedade. O que víamos como nacional, ou o que víamos como representação, ou como literatura e ciência, mudaram. Não podemos cair na tentação de utilizarmos os termos tal como eram. A marcha da história continua, autores devem sempre ser revisitados, por isso são clássicos. O que não deve acontecer é vermos essas figuras como inquestionáveis ou sem algum senso crítico.

É claro que temos apego por elas; todavia, é besteira acreditar que elas são inteiramente válidas como um dia já foram. De maneira similar, é como acreditamos ver os atores políticos do passado: Mário de Andrade possuía um projeto de Brasil atrás de sua poesia; contudo, ele não poderia prever o que viria a acontecer, estava preso às amarras do seu tempo. Macunaíma é extremamente genial, só que igualmente, não dá para achar que aquele indígena “sem caráter” representa o Brasil como ele é hoje. Outro exemplo: sabe aquela famosa tela “Independência ou Morte?”, que ficou marcada como o símbolo da Independência, intocável, incorruptível? Reconhecemos que é uma arte incrível e que tem muita importância em nossa história, mas ela também esconde um processo de construção do Brasil que hoje não se aplica. Pensar na tela de Pedro Américo teimando que a Independência foi realmente daquela maneira é fazer uma grande injustiça com a própria história que queremos preservar.

Acreditamos, sobretudo, que a história possui uma tarefa social. Olhar para trás deve ser um olhar consciente e crítico, e olhar para frente deve ser feito da mesma maneira. O papel que se pode exercer com base nisso pode evitar grandes equívocos. Estamos falando aqui de experiência e expectativa, pontos que são complementares. A expectativa (essa visão de um mundo futuro) só acontece quando possuímos alguma experiência (uma visão de mundo adquirida). Voltamos sempre ao passado para pensar um possível futuro. Aqui  está o ponto chave: a expectativa nem sempre se concretiza, e nem precisa, e por isso é “possível”, não “destinada”. O ideal é procurarmos experiências para formular expectativas sobre esse possível futuro – sem medo de errar, sem medo de tentar.

É o que pretendemos, leitor. Entendemos possuir um trabalho que possa levar você a temas, nesses períodos, de uma forma que você talvez nunca tenha parado para pensar; de uma forma que traga alternativas para algo diferente. Não idolatramos figuras; contudo, nós as respeitamos. É dessa forma que se procura novos resultados, novos futuros que nem eu e você imaginamos. Seguindo a metáfora: um olho deve ficar ao volante sempre, mas o outro deve ficar no retrovisor. O mesmo dizemos para o Brasil: olhe para frente, mas também olhe para trás; respeite os que já foram, mas não os pense como intocáveis. Pense que a história pode não acontecer do mesmo modo que um dia já foi, mas não cause um acidente por acreditar nisso. Está na hora de olharmos mais para o passado, o tempo é propício, mas é hora também de parar de se pautar naqueles velhos ídolos que já não nos servem mais.

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