por Lara Luisa Castelli
Dos losangos coloridos às figurações temáticas: as capas da Pauliceia desvairada
Dentre as muitas raridades do acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin disponíveis para consulta, destaca-se a primeira edição da coleção de poemas de Mário de Andrade, Pauliceia desvairada: dezembro de 1920 a dezembro de 1921. A capa da brochura original é baseada nos trajes clássicos de Arlequim da commedia dell’arte italiana – importante símbolo que aparece direta e indiretamente em muitos poemas do livro –, com losangos coloridos remetendo aos trajes usados por esses personagens-tipo nas campanhas de suas peças. Como coloca Stigger (2022), a capa final elimina questões que apareceram na capa idealizada anteriormente, de Emiliano Di Cavalcanti, que implementava um leque maior de referências artísticas, enquanto que a escolhida não trabalha com a figuração do leitor, de modo que “tudo converge para o que parece, de fato, interessar: a padronagem que faz lembrar a roupa do Arlequim”. Substitui, dessa maneira, o ambiente para o qual são transpostos símbolos do teatro, mitologia e arte modernista, como veremos em seguida.
Paulicéia Desvairada (projeto para a capa), 1921
Di Cavalcanti
nanquim e guache sobre papel, c.i.d.
25,00 cm x 16,20 cm
Coleção Mário de Andrade – Coleção de Artes Visuais
do Instituto de Estudos Brasileiros – USP
Foto de Romulo Fialdini

Disponível na plataforma BBM Digital (https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/7651) e com dimensões de 18,9 x 14 cm, o exemplar é conservado numa caixa feita de papel marmorizado, acabamento que é marca registrada da coleção BBM.
Retendo-se ao que é único do exemplar, entre a capa de tirar o fôlego e o ‘Prefácio Interessantíssimo’, comum a todas as edições do livro, há uma dedicatória impressa e sem assinatura, em que se lê: “A Mario de Andrade | Mestre querido. | Nas muitas horas breves que me fizestes ganhar a vosso lado dizieis da vossa confiança pela arte livre e sincera… Não de mim, mas de vossa experiência recebi a coragem da minha Verdade e o orgulho do meu Ideal. | Permiti-me que ora vos oferte êste livro que de vós me veio. Pouvera Deus! nunca vos perturbe a dúvida feroz de Adriano Sixte… Mas não sei, Mestre, si me perdoareis a distáncia mediada entre êstes poemas e vossas altíssimas lições… Recebi do vosso perdão o esfôrço do escolhido por vós para único discípulo; daquele que nêste momento de martírio muito a medo inda vos chama o seu Guia, o seu Mestre, o seu Senhor”.
Fora isso, a obra é duplamente enriquecedora, uma vez que, junto ao texto original do livro, notas explicativas estão dispostas ao longo de toda a obra, abordando desde pontos a respeito do conceito de Poesia (1) Lirismo + Arte = Poesia, fórmula de P. Dermée, – que nomeia também a coletânea organizada por Maria Augusta Fonseca e Raul Antelo, Lirismo + Crítica + Arte = Poesia: Um século de Pauliceia desvairada – até explicações sobre o processo de escrita e organização da obra, como é o caso do poema ‘A Caçada’.
Além do livro, a caixa armazena também o anexo de cinco fotocópias da dedicatória a Manuel Bandeira presente na folha de anterrosto, escrita para o reenvio feito em 1933 a Manuel Bandeira. O poema Cantiga final, omitido da obra, aparece no anexo, fotografado de maneira clara, transcrito ao digital e impresso por Cristina Antunes, como aparece creditado nas folhas grampeadas. Sabe-se também que o exemplar pertenceu a Tatiana Stepanenko, antes de fazer parte da coleção de Guita e José Mindlin.



Na dedicatória, Bandeira é endereçado e agraciado com um poema inédito manuscrito na folha de anterrosto – com a continuação transcrita no verso da folha de anterrosto. Em se tratando de um reenvio, é datado de onze anos após a publicação, conta com uma rasura no título Pauliceia desvairada, substituído por Cantiga Final, na caligrafia do Mestre Mário de Andrade, que o apresenta:
A Manoel Bandeira acrescentando neste reenvio de 1933,
o poema narcisista que omiti na edição: Cantiga Final
“Eu tenho um orgulho louco
De ser louco varrido
Tenho a certeza de ser mais um pouco
Mais louco que todos os loucos!
Que me importa ai os outros loucos
Que chamam o Grão Louco Varrido?
Si sou mais varrido que os outros
Sou mais limpo e sou mais ôco.
Si sou mais ôco e [mascote] espavorido
(?)tra por mim e ti[r]a um som mais
longo!
[Si sou] mais limpo a chuva pingo a [?]
Cai sobre mim e tira um som mais longo!
[Que] me importa que me chamem louco,
Louco mais louco que os outros,
Louco varrido?
Si sou mais varrido que os outros
Sou mais limpo e sou mais ôco.
Si sou mais limpo os badalos dos mar-
tirios
Batem em mim tirando um som mais
longo!
Quem é louco não canta versos roucos
Suas ideas têm o gemido
Mais simples e mais natural!
Eu sou o mais louco dos loucos,
Louco entre loucos, sou Pasífae!”


Mais um pouco / Mais louco que todos os loucos!
Omitido da edição, “Cantiga Final”, por seu título e tom, configura um atravessamento condensador e conclusivo da coleção de poemas, parece ter sido originalmente pensado próximo ao célebre poema de fechamento, “As enfibraturas do Ipiranga”, que, por sua vez, carrega consigo o subtítulo “Oratório profano”. O músico, compositor e professor José Miguel Wisnik (2022) apresenta esse momento de polifonia que fecha o livro enquanto “um dos grandes textos públicos que tomam a música como sua onda transportadora” e argumenta que essa é a primeira grande manifestação do que fez com que Mário fizesse literatura como quem faz música.
Utilizando esse coral sinfônico para estruturar a genealogia da loucura e delírio nos dois poemas, o publicado e o omitido, é notável que o autor primeiro imita a forma de uma partitura e assume nessas páginas finais do livro a funcionalidade de um libreto musical, permitindo assim o ecoar das vozes conjuntas e destacadas, relacionadas às “disposições morais e cívicas (as enfibraturas) associadas ao Ipiranga” (WISNIK, 2022) no contexto de comemorações do centenário da Independência, em 1922. Na distribuição das vozes, o leitor reconhecerá primeiramente os claros embates sócio-políticos, as visões destoantes da arte, sua função e propósito entre “As juvenilidades auriverdes” e “Os orientalismos convencionais”, alegoria lírica que expõe algo profundo e ressoante com o cabo de guerra que se deu durante e após a Semana de Arte Moderna, que só ocorreria um ano após a composição do oratório profano.
No entanto, pela aproximação temática, o que interessa correlacionar entre o poema final e o omitido são as passagens que se referem ao único solista de “Minha Loucura”. Caracterizada como soprano ligeiro, a voz entoa cantigas de adormecer, utilizando harpas e um tom recitativo; sempre que se impõe entre as outras vozes, “a orquestra súbito emudece” (ANDRADE, 1922). Em sua primeira passagem, a loucura do autor pondera a partir de alegorias materiais o embate que protagoniza o texto, ou seja, o conflito entre as marés de espuma branca e os rochedos, representando a impossibilidade de um acordo entre a mocidade artística e a onipotência intransponível dos tradicionalistas.
Na “Cantiga Final”, tanto os badalos dos martírios quanto os pingos de chuva batem nesse arlequim, e esses choques, do grande ao pequeno, lhe tiram um som mais longo. No entanto, isso não o aflige, pois por ser o mais louco dos loucos, o eu-lírico afirma ter as ideias mais simples e mais naturais, e por isso não precisa ecoá-las de maneira rouca ou estridente. É por essa predisposição insana que se autointitula Pasífae.
Ao final de “As enfibraturas do Ipiranga”, por outro lado, essa cantiga de ninar da loucura vai se emudecendo, apaziguada ao redor das personagens modernistas, que por sua vez, eram as figuras surdas no ápice do achincalhamento caótico das outras vozes contra ele, desde os escritores, os burgueses até o operariado. Assim, cria-se uma correspondência metafórica e também literal, uma vez que ambos momentos versificam o que Mário de Andrade descreve em sua obra ensaística Aspectos da Literatura Brasileira como o delírio da inspiração de um estado de espírito nacional, o movimento modernista:
“O meu mérito de participante é mérito alheio: fui encorajado, fui enceguecido pelo entusiasmo dos outros. Apesar da confiança absolutamente firme que eu tinha na estética renovadora, mais que
(ANDRADE, 1974, p. 232)
confiança, fé verdadeira, eu não teria forças nem físicas nem morais para arrostar aquela tempestade de achincalhes. E si aguentei o tranco, foi porque estava delirando. O entusiasmo dos outros me embebedava, não o meu.”
Tendo isso em vista, fica claro que após vinte anos da realização que consolidou e uniu grandes atos do período, a Semana de Arte Moderna conteve em si manifestações artísticas de ruptura cruciais para o desenvolvimento e formação de um pensamento brasileiro; mas, em resposta a isso, naquele tempo, também foi marcada por conflitos que negavam a necessidade de uma remodelação do que se entendia como inteligência nacional, discussão que Andrade explora no momento de ápice do oratório de encerramento.

Conclusão
Enquanto obra, Paulicéia Desvairada é conhecida principalmente por evocar as imagens de personagens-tipo da Commedia dell’arte italiana, desde os célebres servos Arlecchino (Arlequim), Colombina ou Pierrot (Pierrô), até as figuras burlescas de Pulcinella (Polichinelo) ou o velho tolo Pantalone, representadas indiretamente, sendo transpostas para a realidade do carnaval paulista. Isto posto, fica claro que o dinamismo da cidade desenhado nas páginas está também unissonante com o traço nômade das companhias de teatro às quais tantos poemas fazem referência.
Para além da harmonia em caos entre os poemas e cantigas analisados, o que revela a legitimidade dessa relação na qual nos detemos aqui foi pensada nos dois projetos de capa como um elemento figurativo que poderia ser apresentado de maneira sutil, como é o que Andrade constrói através dos símbolos e escolhas tonais, ou abstrata, como a capa de Di Cavalcanti incorpora. A capa final em brochura, no entanto, revestida no traje e máscara preta e branca do Arlequim, apresenta losangos irregulares, em branco, amarelo, vermelho, verde, azul e preto. No centro da metade superior, um retângulo claro, contornado em preto e com cantos arredondados indica a autoria e título.
Com elementos dispostos e com limites irregulares, tudo parece remeter a uma composição feita a mão e com esmero, rompendo com a modernidade selvagem da capital paulista na qual esse Arlequim é engendrado. Para Nunes (2005), a figura arlequinal é gerada pela cidade, enquanto uma necessidade do ambiente, podendo assumir um papel ora observador ora atuante, interferindo no meio urbano:
“De substantivo para adjetivo, arlequinal lança-se na vertente entrópica das variantes expressões que tentam ser mantenedoras da tessitura real e em contrapartida dirige-se metonimicamente em amálgama de um mundo introjetado geométrica e abstratamente. Então, cômico e crítico se ligam ao espírito de Mário de Andrade em Paulicea Desvairada, ora substantivo, ora adjetivo, mediante a construção-montagem-incorporação do Arlequim. Ele marcha no desenvolvimento das cidades e do homem que reflete e se reflete nesse contexto.”
(NUNES, 2005, p.5)
No entanto, o poema inédito cita Pasífae de Creta, uma figura pouco mencionada em comparação com os mascarados do teatro italiano. Evoca a imagem que o eu-lírico de “Cantiga Final” usa para se autointitular o louco entre loucos; a mãe humana do Minotauro da mitologia grega. Utilizando a grafia Pasífae, do grego Pasiphá?, “a que tudo ilumina” ou “a que brilha para todos”, o poema satiriza a união da maga e do poderoso touro branco, surgido das águas, sugerindo que essa paixão ensandecida faz parte da loucura do eu-lírico, também. O que se sabe sobre o mito de Pasífae é que Poseidon, em vingança ao rei Minos, fez com que sua esposa desenvolvesse uma paixão fatal e irresistível pelo Touro de Creta, que surge na falta do rei perjuro. Confusa e desesperada em busca de uma forma de entregar-se ao touro, ela recorre às artes de Dédalo, a quem se credita a novilha de bronze, simulacro feito com tanto esmero que engana o animal. Dessa união, nasce Astérios (“o estrelado”), o Minotauro do labirinto.
Relacionando essa passagem com toda a estrutura arlequinal da obra, representado pela multiplicidade de facetas, a fragmentação desconcertada do indivíduo em vista da vida urbana moderna, não se pode ignorar a ligação que se tece entre os arlequins originais, de duplo caráter ou comportamento dividido, e a presença dessa figura no folclore brasileiro: “figura como personagem do auto popular do ‘Bumba-Meu-Boi’, como ajudante de ordens do Cavalo-Marinho, este representando o proprietário da fazenda onde se dá a dança e que se dirige aos vaqueiros por intermédio do Arlequim” (KNOLL, 1983, p.51). A partir disso, afirma que o Arlequim vincula-se, no Brasil, à dança e a um ritual relativo ao boi, o que entra em consonância com os versos andradianos que analisam ironicamente o provincianismo da sociedade paulista do começo do século 20.

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Referências
ANDRADE, Mário de. O movimento modernista. In: Aspectos da Literatura Brasileira, 5ª ed., São
Paulo: Martins, 1974, p.232.
ANDRADE, Mário de. Paulicea desvairada: dezembro de 1920 a dezembro de 1921. São Paulo:
Casa Mayença, 1922.
KNOLL, Victor. Paciente arlequinada: uma leitura da obra poética de Mário de Andrade. São Paulo:
Hucitec / Secretaria de Estado da Cultura, 1983, p.51.
NUNES, Maria Aparecida. As Andanças de Arlequim e suas múltiplas percepções na Paulicéia de
Mário de Andrade. Intercom–Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da
Comunicação; XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. 2005.
REGENSTEINER, Roberto Jorge. Mário de Andrade na Semana de 1922. A terra é redonda. 2022.
Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/mario-de-andrade-na-semana-de-1922/. Acesso
em: 25 nov. 2024.
SOUSA, Ilza Matias de. Paulicéia desvairada: A poética da cidade. Revista da Anpoll, [S. l.], v. 1, n.
3, 1997. DOI: 10.18309/anp.v1i3.258. Disponível em:
https://anpoll.emnuvens.com.br/revista/article/view/258. Acesso em: 17 nov. 2024.
STIGGER, Veronica. Estudo sobre as capas. Em: Lirismo + Crítica + Arte = Poesia: Um século de
Pauliceia desvairada (Org. Maria Augusta Fonseca; Raul Antelo). São Paulo: Edições Sesc São
Paulo, 2022. pp. 40-57.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Sistema Integrado de Bibliotecas. Encadernação: instruções
para a solicitação dos serviços. São Paulo: SIBi/USP, 1997. 51 p. (Série Manual de
Procedimentos SIBi, n. 14).
WISNIK, José Miguel. As enfibraturas do Ipiranga. Em: Lirismo + Crítica + Arte = Poesia: Um
século de Pauliceia desvairada (Org. Maria Augusta Fonseca; Raul Antelo). São Paulo: Edições
Sesc São Paulo, 2022. pp. 412-425.
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Lara Luisa Castelli é graduanda em Letras (Português/Espanhol) pela FFLCH-USP e bolsista do projeto “Literatura brasileira na BBM”, coordenado por Hélio de Seixas Guimarães (PUB-2024-2025).




