“Eu sou uma delas: vivo, escrevo, porem ainda não me cabe na mente como é que ainda posso falar das crueldades e sofrimentos de que fomos vítimas” – Dorothée Duprat de Lasserre, mulher de classe abastada que migrou para o Paraguai na década de 1850 e viveu sob o regime violento da Guerra.
Por Millena Pereira Machado
A Guerra do Paraguai (1864-1870), considerada o maior conflito bélico das Américas, contou com batalhas de grande escala, exércitos massivos e consequências severas para os envolvidos. Desde o início do século XIX, a região do Prata foi local de intensas disputas pelo domínio dos rios, expansão do comércio e reafirmação política entre os países, mas a fase de ofensivas militares teve início a partir das medidas econômicas e militares tomadas pelo então presidente do Paraguai, Francisco Solano López, que ordenou a ocupação de uma porção do território do Mato Grosso no final de 1864.
Em maio de 1865, Argentina, Brasil e Uruguai se uniram contra a república paraguaia, assinando o Tratado da Tríplice Aliança. Nesse momento, os quatro países já não mediam esforços para aumentar os exércitos e recrutar o máximo de civis dispostos a lutar pela pátria, fossem homens, mulheres, crianças ou idosos. Em pouco tempo as batalhas escalaram até se tornarem extremamente mortíferas para as tropas. Calcula-se que mais de 500 mil morreram de 1864 a 1870, quando o fim foi acordado, porque as consequências humanitárias e financeiras eram incontornáveis.
Diversos relatos de generais, soldados e líderes políticos sobreviveram aos caos da guerra, a maior parte deles sobre as campanhas e as negociações políticas dos bastidores. No entanto, há conhecimento de um único relato publicado que revisita as vivências de uma mulher que sobreviveu ao ambiente insalubre desse período: as “Memórias de Mme. [Madame] Dorothéa Duprat de Lasserre”, escrito no início de 1870, poucos meses depois que o fim da guerra foi acordado. Esta versão em português foi a primeira publicação do documento na íntegra, com tradução e notas feitas por José Arthur Montenegro, membro do Instituto Geográfico-Arqueológico de Pernambuco.
Antes desta publicação de 1870, excertos do relato circularam em impressos da época e também surgiram outras edições do documento contemporâneas à versão brasileira. Alguns exemplos são: a publicação pelo governo da Argentina (Buenos Aires), em 1870, de “The Paraguayan War. Sufferings of a french lady in Paraguay” [A Guerra do Paraguai: sofrimentos de uma senhora francesa no Paraguai] em formato de folheto em língua inglesa. Já na década de 1990, o relato de Duprat aparece em fascículos do grande “Álbum de la Guerra del Paraguay”, também editado na Argentina. Estas diferentes versões do documento nos levam a pensar que os escritos de Dorothée Duprat foram divulgados em grande parte pelos países aliados. Anos depois, foi feita a publicação no Paraguai.
Relatos são especialmente interessantes como documento porque permitem a compreensão de experiências individuais com marcas da memória de eventos que evocam sentimentos naquele que escreve, estabelece uma relação com o leitor e se coloca em diálogo com as experiências coletivas de um mesmo evento. Assim, conheceremos mais sobre a trajetória da autora e quais aspectos o documento procura ressaltar sobre a situação de um grupo de mulheres paraguaias na Guerra.
Folha de rosto de “Guerra do Paraguay: memórias de Mme. Dorothéa Duprat de Lasserre” (1893).
Quem foi Dorothée Duprat?
Dorothée Duprat nasceu na França e sua família imigrou para o Paraguai na década de 1850. Esse translado fez parte de uma grande leva de franceses que iam para Nueva Burdeos (região do Chaco), com a promessa do governo paraguaio de terras férteis. Já em solo sulamericano e ainda muito jovem, casou-se com o francês Narcise Lasserre em 1859, quando começou a utilizar o sobrenome Duprat de Lasserre que aparece nas fontes documentais. As famílias de Dorothée e Narcise enfrentaram grandes dificuldades financeiras no território: problemas com os custos da viagem, a infertilidade da terra e o empobrecimento de Narcise que atuava como comerciante em Assunção, isso causou o início dos desafios com o governo de Solano López.
Pouco tempo depois do surgimento das dívidas,
Os Duprat de Lasserre passaram a ser perseguidos juridicamente. Narcise e seu irmão Félix foram presos de 1860 a 1863, e, embora quitassem sua dívida, foram dos primeiros estrangeiros declarados traidores do governo paraguaio. Cyprien e Aristide Duprat, pai e irmão de Dorothée, bem como seu marido Narcise, foram condenados à prisão na terrível colônia penal de São Fernando, e lá, executados sumariamente.
“Il faut finir pour commencer”: a Guerra do Paraguai em três tempos.
São Fernando ficou conhecido como uma grande concentração de presos paraguaios, que eram castigados de maneira ultraviolenta. Para lá foram mandados civis de diversas ocupações e muitos militares de diferentes patentes. Eram presas pessoas que apresentavam algum indício de conspiração contra o governo, muitos foram condenados à morte sem serem julgados. Ao mesmo tempo, as esposas ou filhas dos homens de São Fernando eram mandadas para uma concentração localizada próxima de Espadim e Iguatemi (atualmente território do Mato Grosso do Sul). Foi lá que Dorothée Duprat permaneceu por quase dois meses. O relato, escrito posteriormente aos acontecimentos, descreve as péssimas condições de vida e como foi libertada.
Dorothée Duprat de Lasserre, disponível no Archivo Literário Minicipal Chivilcoy (Argentina, https://www.archivoliterariochivilcoy.com/recordando-a-dona-dorotea-duprat-de-pechieu/lomasreciente/45/2022/)
A condição dos trabalhos públicos femininos
Dorothée Duprat relata um longo percurso que ela, sua mãe e outras mulheres realizaram desde a evacuação de Assunção até o deserto do Espadim, próximo ao rio Iguatemi, todas elas teriam sido separadas de seus familiares e forçadas por generais paraguaios a uma migração que durou cerca de um ano e dez meses. A respeito das pessoas que compunham esse grupo, José Arthur do Montenegro descreve no prefácio à edição brasileira: “senhoras da mais alta categoria social a par de simples burguesas, ministros, generais, oficiais superiores, subalternos, funcionários civis de todas as graduações, artistas, negociantes, lavradores, operários”. Eram, portanto, mulheres ligadas a famílias da classe média-alta urbana.
Para além das “senhoras delicadas, acostumadas a viver comodamente” mencionadas pela autora do relato, é possível identificar outro grupo social: os “criados” e “criadas” das famílias. Sob sua responsabilidade estavam a procura de alimentos e de abrigo e a realização de serviços braçais. Dorothée chega a relatar que o escravizado que a acompanhava estava “com as pernas em mísero estado, cobertas de lepra”. Também, no documento há diversas menções de estradas cheias de cadáveres, o que indica um cenário de doenças e mortes que assolaram o Paraguai nesse período e que afetaram principalmente as camadas mais baixas do exército e da população civil.
Durante esse percurso, a autora revela que essas “três mil e tantas desgraçadas” viviam sob a constante ameaça de repressão. Quando não cumpriam com as ordens dos generais responsáveis pelo acampamento, estavam sujeitas a castigos físicos, sendo o ferimento por lança a punição de morte mais comum:
Às quatro horas tocaram chamada geral; nos formaram em linha no centro da praça; separaram as velhas das de meia idade, estas das moças e estas das meninas formando grupos distintos de casadas, solteiras e estrangeiras. […] oferecia quarenta cacetadas para aquela que não se mantivesse firme na linha.
Às duas horas saímos da mata e paramos para esperar o alferes que tinha ido até Ihú ver se encontrava alguma infeliz retardada. Vinte e duas foram encontradas e todas eIas lanceadas cruelmente; algumas ficaram somente feridas e morreram de fome e sede depois de muitos dias de horríveis tormentos inteiramente abandonadas.
Por outro lado, havia uma relativa liberdade, por exemplo, no fato de que no início do trajeto podiam tentar contato com juízes e magistrados paraguaios na intenção de receber notícias de parte da família que tinha sido mandada para São Fernando (no caso da autora, ela não obteve sucesso). Também podiam desempenhar trabalhos independentes, Dorothée chegou a se hospedar e atuar como preceptora de quatro crianças na casa de Anna Maria Paredes Vilagra, que residia próximo a um dos acampamentos e não estava sob acusação. No geral, esses trabalhos tinham como objetivo a troca por abrigo e alimento.
Chegando no destino, próximo às margens do Iguatemi, essas mulheres foram mandadas para a realização de trabalhos públicos. Elas receberam terras do Estado para cultivar alimentos para a subsistência das tropas, também deveriam confeccionar lanças e outros aparatos para a infantaria paraguaia, o que as fez ser chamadas de “as destinadas” ou “as designadas”, como descreve a autora. Durante a estadia em Iguatemi, Dorothée Duprat relata a necessidade de estabelecer trocas com os indígenas para obter sustento, recebiam animais (como rãs e cachorros) em troca de seus bens ou dinheiro.
A historiografia considera que o papel das mulheres na Guerra foi fundamental para a manutenção dos exércitos, inclusive por seu número expressivo na população. As destinadas realizavam os trabalhos como punição pela acusação de traição, enquanto um grande número de mulheres atuavam cuidando dos feridos de maneira livre.
As edições e o discurso anti lopista
No dia 25 de dezembro de 1869, soldados brasileiros sob o comando do Coronel Moura invadiram o acampamento em Iguatemi e resgataram grande parte das mulheres, dentre elas Dorothée Duprat. Esse evento encerra o relato:
“Partimos dali sob a claridade de um esplendido luar, caminhando mais de doze quilômetros sem sentir, tal era o desejo de nos ver protegidas pelos humanitários soldados do Brasil; pelas duas horas pouco mais ou menos fizemos alto para descansar e tomar um pouco de mate”.
Dias depois, o acampamento foi destruído pelas tropas do Brasil e a autora recebeu a notícia de que o pai, irmão e marido foram mortos por fuzilamento.
“Prisioneros de guerra y familias paraguayas torturados por López en el campamento de San Fernando”, gravura de “Álbum de la Guerra del Paraguay”, v.1, 1893, Buenos Aires. Disponível em: <https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8997>.
Um vocabulário igualmente exaltado é utilizado pelo comentador José Arthur Montenegro, que se refere ao resgate como “os brasileiros fizeram grande empenho em libertar estas famílias da horrível situação em que se achavam” nas mãos do “tirano Lopez”, uma “memorável expedição”.
Como todo evento, especialmente os de intenso conflito como esse, há uma disputa pela memória e pelas narrativas. No caso da Guerra do Paraguai, a publicação de edições desse documento pelos países Aliados (edições brasileira e argentina) intenta reforçar o discurso anti lopista a partir da experiência de um grupo social específico, que destaca a violência do governo paraguaio. Ainda que a disputa bélica tenha se encerrado, o discurso tem como função criar uma imagem para a posteridade e definir como o evento será lembrado pelas próximas gerações. Por outro lado, o mesmo ocorre em relação à visão sobre os aliados reforçada em relatos paraguaios, que destacam a violência das tropas estrangeiras com militares e civis.
Outra fonte importante que descreve os acontecimentos de São Fernando e Espadim é a obra de Visconde de Taunay, figura importante do Império do Brasil que escreveu “Campanha das Cordilheiras” (1925) e outros vários relatos. Como ele, León de Palleja (general uruguaio), Agustín Ángel Olmedo (militar argentino) e Gregorio Benites (secretário paraguaio) deixaram registros particulares do que viram, viveram ou conceberam sobre momentos da Guerra, que nenhum nega ter sido violenta. A obra de Dorothée é particularmente interessante não só por ser a exceção em meio às publicações masculinas, mas também porque é capaz de demonstrar os diversos efeitos do conflito mesmo no interior de um único país.
Coleção
Em 2024, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM-USP) recebeu uma coleção de itens sobre os conflitos da região do Prata, especialmente a Guerra do Paraguai. Os mais de quatro mil volumes, incluindo livros, periódicos e álbuns, estão disponíveis para consulta – assim como todas as obras mencionadas neste texto. Saiba mais como acessar em https://www.bbm.usp.br/pt-br/.
Referências
Doratioto, Francisco. (org). Memórias de Dorothée Duprat de Lasserre: Relato de uma prisioneira na Guerra do Paraguai (1870). São Paulo: Chão, 2023. v. 1. p. 75-166.
Montenegro, José Arthur. Proemio. In: Guerra do Paraguay: Memorias de Mme. Dorothéa Duprat de Lasserre, versão e notas de J. Arthur Montenegro. 1a ed. Rio Grande do Sul: 1893, p. 5-7.
Sandanello, Franco Baptista. “Il faut finir pour commencer”: a Guerra do Paraguai em três tempos. Gláuks: Revista de Letras e Artes-set/dez, 2024-ISSN: 2318-7131-Vol.24, no 3.
Soares, Rodrigo Goyena. Resenha Histórica. In: Filho, Sinésio de Siqueira. Estudo Bibliográfico Comentado da Guerra do Paraguai.1a ed. São Paulo: Publicações BBM, 2025.
Vas, Braz Batista. A Guerra do Paraguai por meio de diários e reminiscências. Historiæ, Rio Grande, 5 (1): 305-330, 2014
Indicação de leitura
“Epidemias do passado: retirada da laguna, a doença como pior inimiga”, texto do blog da BBM que analisa o relato “A Retirada da Laguna”, de Visconde de Taunay.
“Estudo Bibliográfico Comentado da Guerra do Paraguai”, de Sinésio de Siqueira Filho. 1a ed. São Paulo: Publicações BBM, 2025.
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Millena Pereira Machado é graduanda em História pela FFLCH-USP e bolsista da BBM pelo Programa Unificado de Bolsas (PUB-2025-2027).






