Thevet e Léry – narrativas de um lugar chamado França Antártica

Share

por: Luis Augusto Santos

O Brasil do século XVI foi um local atravessado por disputas territoriais e pelo confronto de narrativas. A profusão de relatos oriundos de várias nacionalidades destoava quanto às dimensões, características, elementos e significados do que os viajantes encontravam no Novo Mundo. A natureza e os chamados índios constituíam toda uma nova realidade a ser observada, descrita, traduzida. 

É neste cenário que se insere a experiência francesa nos trópicos e também os discursos mais representativos dessa empreitada. Encontramos nos relatos de André Thevet e Jean de Léry, compostos em meio à efervescência do “descobrimento”, percepções, olhares e juízos que buscam retratar e comunicar a realidade que encontraram nesta terra situada numa zona tórrida do mundo…

Num período marcado pelo espanto e pelo encanto da descoberta da América – uma quarta parte do mundo – pelos europeus, em meio a sangrentas disputas pelo domínio territorial e pelo privilégio de explorar as novas terras, a curiosidade, o espelhamento, a leitura e a interpretação acerca da natureza e dos naturais  também ocupam um lugar de destaque na empresa colonial. Pois, além dos produtos obtidos do outro lado do oceano, outros objetos eram igualmente demandados e ansiados com o retorno das embarcações: as missivas, os relatos, descrições e ilustrações que desembarcavam na Europa davam o que ver e o que imaginar a multidões de corpos hipnotizados, divididos entre o assombro e a euforia.

O que leva os homens se lançarem ao mar ou os propósitos individuais e coletivos da viagem

O local do qual falam nossos dois viajantes se encaixa no que podemos chamar de breve e malograda experiência colonial. A França Antártica foi um protetorado fundado pelos franceses em 1555 na região da Baía da Guanabara, no atual Estado do Rio de Janeiro, tendo definitivamente sucumbido às forças portuguesas em 1570. A ideia central da empreitada era criar um ponto comercial que estabelecesse um fluxo perene de mercadorias com a metrópole e, também, interferir no comércio marítimo de outras nações.

“Singularidades da França Antártica”: folha de rosto do livro de Thevet, publicado em 1558

Dentre os dois viajantes citados, o primeiro a desembarcar nas Índias Ocidentais foi André Thevet, em 1555, junto com a expedição de Villegagnon, fundador da colônia. Thevet era um frade franciscano, escritor e cosmógrafo, que se preocupava com a instrução dos letrados de sua época, e por tal resolveu reunir sua experiência na América em uma obra publicada em 1557 denominada Singularidades da França Antártica, escrita pouco após retornar à França devido a problemas de saúde. 

O autor buscou sistematizar a experiência que teve em três temas: os costumes americanos, a descrição dos animais e das plantas. Observação e experiência são as palavras que guiam a obra de Thevet, que coloca como finalidade de seu texto o aperfeiçoamento do homem. Submetendo-se a experiências ecléticas, passando por locais vários e praticando a observação de hábitos e costumes diversos, o francês crê na capacidade dessa atividade para majorar a virtude e  solidificar a ciência – a viagem marítima como a peregrinação do amante do saber que tem por desígnio ver e transcrever aquilo com o que se depara.

“História de uma viagem feita à terra do Brasil” por Jean de Léry, publicado em 1578

Jean de Léry, por sua vez, chega ao Brasil em 1558 com um grupo de ministros e artesãos calvinistas, que vinham atendendo a pedidos do próprio Villegagnon por reforços humanos. Léry era sapateiro de ofício e estudante de teologia em Genebra, vindo a se tornar pastor posteriormente. O que levou o jovem estudante a cruzar o oceano parece ter sido uma mistura entre curiosidade e fé. Isto pois, naquele momento, a europa vivia um momento de forte antagonismo entre católicos e protestantes, e a França Antártica se afigurava no horizonte como um lugar onde se proteger dos atritos religiosos, e, também, onde propagar a mensagem da igreja reformada.

No entanto, esta utopia verteu-se em seu inverso, devido à hostilidade de Villegagnon para com os ministros, levando-os, inclusive, a buscarem refúgio junto aos índios. É sobre esta conturbada experiência que nos conta Léry em História de uma viagem feita à terra do Brasil, de 1578, publicado em resposta a um livro de Thevet, a Cosmografia Universal, onde o franciscano atribui aos protestantes a responsabilidade pelo fracasso da empresa colonial francesa em terras brasílicas. Na obra, Léry nos conta sobre os costumes dos nativos, sobre as plantas, animais e paisagens da região com requinte e riqueza de detalhes, fornecendo um material profícuo para compreender os encontros e desencontros entre povos tão distintos.

Uma natureza Pulsante

Na tentativa de apreender a ordem com que se rege a natureza brasileira, Thevet e Léry se valem dos conhecimentos dos Tupinambás, distinguindo os frutos aptos ao consumo e os nocivos, a utilidade curativa de plantas, as propriedades ornamentais de árvores, a qualidade das madeiras, as raízes usadas para fazer farinha, as características dos sítios e terrenos. Os animais também têm lugar de destaque  nos relatos, peixes são minuciosamente observados devido a singularidades que chamam a atenção – como dentes afiados, “deformações”, tamanho, gosto etc; às aves são reservadas considerações sobre a diversidade existente, a beleza dos cantos e das penas; outros animais são descritos, ora salientando a estranheza de seus corpos e o perigo que representam, ora louvando o caráter pacífico e agradável que possuem.    

Em ambos os relatos nota-se que a natureza é revestida de exotismo e exuberância. A atmosfera paradisíaca do continente choca os viajantes e ao mesmo tempo lhes arranca suspiros. A grandiosidade dos rios, das rochas e das montanhas, como também a diversidade de espécies animais e vegetais formam no imaginário dos europeus a impressão de um mundo fantástico, que carece de palavras e termos adequados para serem traduzidos. Por este motivo as páginas que tratam da fauna e da flora são recheadas de comparações com o Velho Mundo, buscando nele medidas com as quais dimensionar a diferença. 

Uma humanidade desgarrada

Uma coisa que salta aos olhos quando tomamos contato com o texto desses franceses é a curiosidade e o interesse que demonstram pelo corpo, cultura e religiosidade dos ameríndios, como também o juízo que fazem desta enigmática alteridade, principalmente para com o povo ao qual os franceses se aliaram, os tupinambás. Os registros versam sobre a forma e as habilidades físicas dos nativos, sua longevidade e força, o estranho hábito de não usar roupas e de se adornar com pedras e pinturas, sobre como eles curam seus doentes, se alimentam, se casam e convivem em comunidade. Mas o elemento fundamental de elaboração deste contato com uma parcela perdida da humanidade é o “diabólico” hábito de se alimentar com carne humana.

Em contraste com o modo como a natureza americana foi qualificada – em termos de abundância, exuberância, excesso – os nativos são lidos sobretudo a partir da noção de falta.

Thevet descreve esta terra como  “habitada por povos maravilhosamente estranhos e selvagens, sem fé, lei, religião e civilização alguma”.  A comparação de que mormente se vale o autor é a de aproximar os indígenas dos animais e classificá-los como bestas que comem carne humana – para explicitar a irracionalidade, a ferocidade e a ausência de moral; por vezes, ele os toma como humanos, mas dotados de uma humanidade quase irreconhecível, sem dúvidas despropositada, errante, primitiva, hierarquicamente inferior a qualquer povo europeu. 

Na obra de Léry podemos ver com nitidez a ambiguidade com que interpreta os tupinambás. Isto porque ele em muito elogia a boa disposição de corpo e espírito dos nativos, a beleza de seus ornamentos cantos e danças, chegando ao ponto de considerar a falta de civilidade como  indício de pureza; entretanto, os critica quanto à falta de modos, recato, moral, prudência e temor a Deus. O canibalismo também é objeto de desprezo do huguenote, porém compreende-o não como o resultado da fome insaciável das bestas de tez parda :

 ” Mas não comem a carne, como poderíamos pensar, por simples gulodice, pois embora confessem ser a carne humana saborosíssima, seu principal intuito é causar temor aos vivos. ” Jean Léry , pág 158

De certo modo Thevet e Léry partilham do mesmo assombro diante dos costumes dos tupinambás e lançam sobre eles a mesma atitude condenatória, diagnosticando-os como seres humanos falhos, sem virtudes suficientes para sobrepor a abundância de vícios. Entretanto, o que os diferencia é o juízo que fazem da diferença cultural dos autóctones. Enquanto para Thevet esta diferença constitui um fosso ontológico que hierarquiza tipos de humanidade, que compõem uma escala na qual os europeus estão na extremidade correspondente à da civilização e os índios na outra, a que concerne a barbárie; para Léry, a alteridade cumpre também a função de espelho, na medida em que permite reavaliar o Velho Mundo e criticar a civilização  – similarmente marcados por massacres, atos absurdos, ódio e impiedade. Ademais, essa maior abertura de Léry nos possibilita uma aproximação mais cuidadosa da tradição local, vislumbrando seu sentido mais íntimo.    

O canibalismo, que no imaginário europeu significa a inumana ação de se alimentar de seus inimigos, como se eles fossem uma caça, é, na verdade, um ritual de trocas no qual qualidades e habilidades de outrem são simbolicamente incorporadas, merecendo, por conta deste fator cultural que dissocia a prática da mera alimentação, a denominação mais apropriada de antropofagia.

“Para os indígenas de Jean de Léry, a guerra e as práticas de canibalismo não significavam a satisfação de demandas alimentares; representavam, sim, formas de comunicação interna, práticas de dádiva, quando se trocavam valores, símbolos, bens.” Lilia Schwarcz e Heloísa Starling. Brasil: uma biografia, p. 39.

Referências 

LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. Tradução integral e notas de Sérgio Milliet, segundo a edição de Paul Gaffarel com o colóquio na língua brasílica e notas tupinológicas de Plínio Ayrosa. São Paulo: Livraria Martins, 1941.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Alegres trópicos: Gonneville , Thevet e Léry. Revista USP, São Paulo, n. ju/ago. 1996, p. 84-93, 1996.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Maria Murgel. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

SOUZA, Ana Paula Gonçalves; ZERON, Carlos Alberto de Moura Ribeiro. Leituras da alteridade ameríndia em André Thevet e Jean de Léry. 2016.Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016. Disponível em: < http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8138/tde-19122016-100335/ >.

THEVET, André. Singularidades da França Antarctica, a que outros chama de América. Prefácio, tradução e notas do Prof. Estevão Pinto. Com um estudo sobre o “pian”, em appenso, da autoria do Dr. Eustachio Duarte. Edição ilustrada.  São Paulo, Nacional, 1944. 502p. Brasiliana.

THEVET, André. Les singularitez de la France Antarctique, autrement nommée Amerique, & de plusieurs Terres & Isles decouvertes de nostre temps. Anvers : De l’imprimerie Christophe Plantin, a la Licorne d’or, 1558.

Luis Augusto Santos é graduando em Filosofia pela FFLCH-USP

Curadoria

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.