Sem costuras: a produção tipográfica de João Cabral de Melo Neto

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Por Patrick Martins Barbosa

Entre os anos de 1947 e 1953, em Barcelona, o poeta João Cabral de Melo Neto encabeçou um projeto tipográfico artesanal, a editora O Livro Inconsútil

Autor consagrado pela crítica literária desde os anos 1960, o poeta João Cabral de Melo Neto alcançou reconhecimento por construir uma obra com grande unidade e coerência interna, o que o coloca, na opinião de Haroldo de Campos, entre os autores de alto gabarito da poesia brasileira. Nascido no Recife em 1920 e morto no Rio de Janeiro em 1999, Cabral foi responsável pela instauração de uma poesia de construção, com identidade racionalista e objetiva. O poeta estendeu seu processo construtivo até os últimos limites, interessando-se, inclusive, pelas artes gráficas, ao experimentar todas as etapas do processo editorial, com a impressão de seu livro Psicologia da Composição (1947), que deu início à série particular de obras tipográficas sob o nome O Livro Inconsútil.

Detalhe da capa de Psicologia da Composição (1947)

Dentro do universo estilístico da poesia cabralina, o processo construtivo de desalienação da linguagem é uma constante, manifestado pela técnica de repetições, pela precedência da imagem sobre a mensagem, pela escolha substantiva das palavras, pela estrutura arquitetônica das estrofes. Um exemplo notório é O Cão Sem Plumas (1950), poema que retrata o rio Capibaribe, que flui pelo Estado de Pernambuco, e também a sofrida vida do homem ribeirinho. A elaboração do poema encontrou solução temática e formal na composição em série. A seriação se assemelha àquela praticada pelo artesão, que diferente do maquinário industrial, não elabora igualmente toda a produção, imprimindo em cada peça minuciosas variantes, tornando única cada obra elaborada.

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

Trecho de O cão sem plumas (1950)

O Engenheiro (1945) e Psicologia da Composição (1947), marcam o início de suas aspirações poéticas de construtor, se distanciando do surrealismo presente em sua primeira obra publicada, A Pedra do Sono (1942), que o introduziu no eixo sul-sudeste após a crítica positiva escrita por Antonio Candido na coluna “Poesia ao norte”, publicada na Folha da Manhã. Dada essa poética construtora, não foi por coincidência que O Engenheiro recebeu a epígrafe do arquiteto Le Corbusier e Psicologia da Composição foi o livro escolhido para dar início ao trabalho da editora O Livro Inconsútil, que levou João Cabral a aprender, com a ajuda de amigos, todas as fases do processo manual de produção tipográfica de livros.

Como o próprio termo alude, “inconsútil”, significa “sem costuras”, que remete à técnica de dobrar as folhas, o que foi feito pelo próprio João Cabral, à maneira do estágio anterior ao da encadernação. Todos os exemplares de todas as edições publicadas por O Livro Inconsútil foram impressos em papel de linha de Guarro, numerados e assinados pelos autores. Destinados a um seleto grupo de amigos, as tiragens oscilaram entre 100 e 150 exemplares, sendo portanto, livros que já nasceram raros. Seu investimento consciente na composição artesanal atendeu à demanda por qualidade, em oposição às brochuras com folhas mal aparadas e de tipologia grosseira, que se inseriam num cenário nacional dominado pela produção industrial de livros.

Um poeta no Itamaraty

Diplomata de carreira desde 1945, João Cabral de Melo Neto residiu em diversos países. Foi em Barcelona que transcorreu o processo produtivo não alienado do editor-artesão João Cabral, durou oficialmente seis anos. A editora O Livro Inconsútil publicou 14 livros, divulgando novos autores nacionais e poetas estrangeiros no Brasil e na Europa. Destacam-se a tradução de Cores, Perfumes e Sons (1948), do poeta francês Charles Baudelaire, Sonets de Caruixa, do poeta catalão Joan Brossa, Acontecimento do soneto (1948), do poeta brasileiro Lêdo Ivo, Pátria Minha, do poeta brasileiro Vinícius de Morais, entre outras edições de notórios colegas poetas, que compartilhavam com o editor o rigor crítico e estético, ao ponto de confiar a Cabral os originais de suas obras.

João Cabral não se considerava editor, mas nutria grande apreço pela materialidade do livro, o que foi uma das razões pela qual se tornou amigo de José Mindlin, a quem escreveu a dedicatória em uma das obras de O Livro Inconsútil: “A José Mindlin, grande localizador de velharias, com o velho abraço de seu amigo João Cabral de Melo Neto. 1984”. A coleção reunida por Mindlin é uma exclusiva oportunidade de conferir as características dessas obras: o alinhamento centralizado do texto, a economia das palavras, o corte das folhas, o cuidadoso acabamento das edições. As obras da editora O Livro Inconsútil são o fruto do trabalho de confecção artística, do cálculo lógico e preciso do engenheiro e da harmonia estética e concreta do arquiteto, compondo o mosaico que singulariza a disposição poética de um dos maiores autores brasileiros.

Dedicatória de João Cabral a José Mindlin

O Inquérito

                 Em 1952 João Cabral de Melo Neto veio ao Brasil responder a um inquérito sobre as correspondências trocadas com um diplomata na Alemanha, interceptadas e entregues ao jornal Tribuna da Imprensa pelo jornalista Carlos Lacerda. Principal rival político do então presidente brasileiro Getúlio Vargas, Lacerda deu início a uma série de reportagens sob o título “Um infiltrado no Itamaraty”, com acusações levianas e sem fundamentos contra o poeta. Mesmo após todas as refutações da parte da defesa de João Cabral, sobretudo as que o ligavam ao Partido Comunista Brasileiro, colocado na ilegalidade naquele período, Cabral resolveu encerrar no ano seguinte a produção tipográfica vendendo a prensa manual para um convento em Petrópolis. 

Confira a seguir a lista de obras de O Livro Inconsútil que fazem parte do acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin:

1 – O marinheiro e a noiva: poemas de Joel Silveira o amador de poemas. 1953. Silveira, Joel.

2 – O cão sem plumas. 1950. Melo Neto, João Cabral de.

3 – Cores, perfumes e sons: poemas de Baudelaire. Tradução de Osorio Dutra; ilustração de Garcia. 1948. Baudelaire, Pierre Charles.

4 – Alma e la luna: poemas. 1948. Calonja, Juan Ruiz.

5 – Pequena antologia pernambucana. 1948. Cardoso, Joaquim.

6 – Acontecimento do soneto. 1948. Ivo, Lêdo.

7 – Corazón en la tierra: poemas de Alfonso Pintó. 1948. Pintó, Alfonso.///

9 – Sonets de Caruixa. Brossa, Joan. (s.d.)

8 – Psicologia da composição com a fábula de Anfin e Antíode: poemas de João Cabral de Melo Neto. 1947. Melo Neto, João Cabral de.

10 – El poeta comemorativo: doce sonetos. Homenaje de Juan Eduardo Cirlot. Cirlot, Juan Eduardo. (s.d.)

11 – Pátria Minha. Morais, Vinicius de. (s.d.)

12 – Antologia de poetas brasileños de ahora. Pinto, Alfonso. (s.d.)
Referência

Campos, Haroldo de, 1929-2003. Metalinguagem & outras metas: ensaios de teoria e crítica literária / Haroldo de Campos. – São Paulo: Perspectiva, 2006. – (Debates; 247 / dirigida por J. Guinsburg). 2ª reimpr. da 4 ed. de 1992. P. 77.

Patrick Martins Barbosa é graduando em filosofia pela FFLCH-USP

Curadoria

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