Quem conta um conto acrescenta um ponto – o passeio de Afonso Arinos em “Pelo Sertão”

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Por Gabrielle Gonçalves de Carvalho

Pelo Sertão – histórias e paizagens é uma coletânea de doze contos escritos por Afonso Arinos e foi originalmente publicada em 1898. Nela, cria-se um rico retrato desse espaço que a literatura pouco recuperou até o século XX: o sertão mineiro, mais especificamente o que conhecemos hoje como os estados de Minas Gerais e Goiás. Esse sertão foi caracterizado pelo autor no livro a partir da construção de figuras que hoje são muito caras ao imaginário sertanejo: o vaqueiro, o escravo, o feiticeiro, os amantes – todas elas envolvidas em tramas mágico-religiosas, cheias de aventura e reviravoltas, as quais recuperam a cultura local num elogio às pluralidades populares do Brasil, assim como o aspecto lendário do sertão, desde a linguagem até as imagens folclóricas que compõem os contos. 

Breve vida, muitas histórias 

Afonso Arinos de Melo Franco foi um escritor, jornalista e jurista. Nasceu em 1868 na cidade mineira de Paracatu, que foi fundada pela sua própria família. Os Melo Franco foram especialmente responsáveis pelo povoamento da região oeste da cidade, uma vez que descobriram minas de diamante na região, no mesmo momento em que se descobria as minas de ouro em Vila Rica e Ouro Preto.

Melo e Franco, no entanto, teve uma vida consideravelmente curta. Morreu aos 47 anos, em 1916, depois de contrair doença em uma viagem de navio à Espanha; quando chegou a Barcelona, faleceu. Nem por isso trata-se de um escritor de obra escassa: depois de Pelo Sertão, seu primeiro livro, escreveu mais oito, sendo a maioria de publicação póstuma e um inacabado. No acervo da Biblioteca Brasiliana é possível encontrar, além de Pelo Sertão, o romance Os Jagunços (1898), Notas do Dia (1900), a peça O contador de diamantes (1917), A unidade da pátria (1917), Lendas e tradições brasileiras (1917), O mestre do Campo (1918), todas as obras em suas primeiras edições, além do manuscrito de A unidade da pátria

Paralelamente ao trabalho como escritor, Arinos se formou em Direito em São Paulo e foi professor de história do Brasil no Liceu Mineiro, em Ouro Preto (então capital do estado). Em 1892, juntamente com outros colegas, fundou a Faculdade de Direito de Minas Gerais, onde passou a lecionar Direito Criminal. Sua eleição para a Academia Brasileira de Letras aconteceu em 1901. 

Um passeio pelo sertão

Apesar de ter passado um breve período em Paracatu, considerando a sua experiência em outras cidades e sua vida bastante curta, o autor de Pelos Sertões se voltou com frequência a esse cenário do sertão mineiro onde nasceu e cresceu. A maioria de suas obras incorporam temáticas sertanejas, além de outras dinâmicas interioranas que remetem a um Brasil popular e singular, no sentido que se ordena sob formas outras que não as que prevalecem em locais com grande contingentes populacionais, onde a urbanização do espaço e a consequente modernização instaurou outras dinâmicas econômicas e, principalmente, sociais. 

A partir disso, ao considerar a data da sua obra de estreia, Afonso Arinos realizou na literatura um movimento precursor na abordagem da temática sertaneja a partir de um olhar que se localizava dentro do espaço do sertão, ou seja, um olhar aproximado, coerente com a cultura e com a dinâmicas sociais do local. Arinos não apenas caracterizou o sertão, recuperando seus aspectos culturais e suas figuras centrais – como os jagunços –, mas também conseguiu mesclar aspectos lendários e históricos, numa mistura que dava coerência temporal e delimitava o cenário da narrativa, mas sem perder o caráter da narrativa oral, das grandes histórias contadas de geração a geração. 

Um bom exemplo disso é o conto “Joaquim Mironga”, que também dá nome ao protagonista. Trata-se de um fiel vaqueiro de um grande fazendeiro, que estava envolvido no que a história chama de “guerras de 42”, contra os “caramurus”. Numa fuga da família, depois da fazenda ser atacada, Mironga recebe ordens do chefe para descobrir informações sobre os inimigos, numa empreitada bastante perigosa. No entanto, o jovem filho do fazendeiro, Sô Juca, acompanha o vaqueiro às escondidas e morre durante a missão.

“Todos, de pé, apeitavam-se ao redor de Mironga, estendidos os pescoços, os semblantes mal assombrados pintando-lhes os sentimentos da alma. 

– Quando eu segurei sô moço por baixo dos braços para tira-lo da sella, senti as mãos molhadas. Apalpei e reconheci que não podia ser suor. Tirei fogo e vi minha mão direita vermelha de sangue!…” (Joaquim Mironga) 

O interessante do conto é que este inicia-se com a chegada de Joaquim Mironga na fazenda, depois de um dia de trabalho, em que outros empregados estão à sua espera para ouvi-lo. Toda a trama de aventura e reviravolta não passa de uma contação de histórias feita pelo vaqueiro e o conto retrata, ao mesmo tempo, o presente da narrativa, com a reação dos outros trabalhadores. Além disso, a partir de algumas referências do conto, como a “guerra de 42”, é possível depreender que o autor está tratando de um período específico da história do Brasil. 

Em 1842, principalmente nos estados de Minas Gerais e São Paulo, o partido liberal liderou revoltas contra o Partido Conservador, que acabara de assumir o poder legislativo do Império brasileiro. Essas movimentações ficaram conhecidas como “as revoltas liberais de 42”, e tinham caráter emancipatório. Sabe-se ainda que a família de Afonso Arinos teve bastante importância para o Partido Liberal na época, sendo ativa nesse período de revoltas. Portanto, é possível imaginar as referências de Afonso ao escrever o conto. Ainda que em primeiro lugar esteja presente certa atmosfera atemporal e mágica, que é forte na descrição do sertão, o autor traz também as referências históricas para a composição literária. 

“Joaquim Mironga”, juntamente com “Pedro Barqueiro” são os contos que fecham o livro e possuem o subtítulo typos do sertão. Assim como o primeiro conto citado, “Pedro Barqueiro” também conta a história de um homem valente, guerreiro, que dá nome ao conto. Dessa vez, o autor traz a história de um ex escravo que fugiu da fazenda onde era aprisionado. Passou portanto a viver sozinho e quieto num pedaço de terra apenas dele, evitando conflitos e buscando tranquilidade. No entanto, a presença de Pedro era incômoda para os proprietários de terra da região porque, além da sua condição de escravo fugitivo, todos que tentavam entrar em conflito com o homem acabavam morrendo. 

“[…] Olhava a gente assim com ar de soberbo, de cima pra baixo. Parecia ter certeza de que, em chegando a encostar a mão num cabra, o cabra era defunto. Ninguém bullia com elle, mas elle não mexia com os outros. Vivia seu quieto, em seu canto.” (Pedro Barqueiro)

Assim, temos a empreitada de dois camaradas, Flor e Paschoal, que por ordens de um fazendeiro precisam capturar e prender Pedro Barqueiro. Sabendo que não poderiam usar a força para completar a missão, os camaradas enganam-no em sua própria casa, que o homem abre de bom grado para que eles possam pescar. Preso o barqueiro, o camarada Flor – que da mesma forma que Joaquim Mironga, reconta relembra sua história dentro do conto –, sente-se contente por ter completado a feliz missão. Numa dessas, é surpreendido por Pedro que, ao contrário de vingança, apenas o parabeniza pela coragem. Nessa passagem, que termina o conto, o camarada retrata com grandeza o ex escravo, comparando-o com o arcanjo São Miguel. 

“Desempenado, robusto, grande, de braço estendido, me pareceu, mal comparando, o Archanjo São Miguel sugigando o Maligno. […] Tirei o chapéo e fui andando de costas, olhando sempre para elle. Veio-me uma cousa na garganta e penso que me ia faltando o ar. Insensivelmente, estendi a mão. As lágrimas me saltavam dos olhos, e foi chorando que eu disse: 

– Louvado seja Christo, tio Pedro!

Quando cahi em mim, elle tinha desaparecido.” (Pedro Barqueiro)

Ao ler o livro, é fácil notar a diferença de registro entre os doze contos que o compõe. Nos últimos, o retrato do sertão perde o tom elevado que existe nos primeiros, e, pela construção das personagens, de suas falas, percebe-se que o autor optou por uma criação mais “fiel”, ou naturalizada. Não à toa, esses dois contos, enquadrados como “typos do sertão”, recuperam essa fidelidade ao recriar figuras corajosas e guerreiras, mas também ao explicitar as dinâmicas sociais que de fato existiam.

Tal diferença de registro é explicada por Afonso Arinos numa nota para a primeira edição na qual ele escreve: 

“O livro que ora se apresenta ao público deveria ter sido publicado ha cerca de tres annos. O leitor descobrirá nelle falta de unidade, quer na maneira ou na execução, quer no estylo propriamente. 

A razão dito é que os contos foram escriptos em épocas diversas, num periodo que medeia entre os 19 e os 26 annos. Os primeiros datam de 1888 e 1889; os ultimos, de 1895.

Vão essas palavras á guisa de méra explicação premiliminar para orientar o critico no julgamento da obra […]”

No conto “Burity Perdido”, por exemplo, diferentemente dos dois últimos contos, o autor compõe uma espécie de ode a essa árvore que é tão simbólica do sertão mineiro. Com um tom bastante poético, ele constrói a imagem do buriti numa exaltação com referências à antiguidade clássica e aos rapsodistas, que cantavam as grandes guerras e os mitos gregos, cheios de heróis. Para um rapsodista do sertão, como é o autor, o buriti toma essa projeção ancestral e guerreira, como a figura máxima desse cenário com ares mitológicos. 

“Nem os rapsodistas antigos, nem a lenda cheia de poesia do cantor cego da Illiada commovem mais do que tu, vegetal ancião, cantor mudo da vida primitiva dos sertões!” (Burity Perdido)

Mas, preservadas as diferenças, as doze histórias se unem na caracterização desse local de multiplicidades. Nessa literatura de evocação sertaneja, o autor reúne essas histórias também como um compilado da oralidade, como bem caracteriza o ditado presente no conto “Assombrações”, o primeiro do livro: “Quem conta um conto accrescenta um ponto”. E assim Arinos recria a voz sertão. 

As ilustrações de Livio Abramo 

Na década de 1940, a sociedade Cem Bibliófilos do Brasil foi criada pelo empresário e colecionador Castro Maya com o objetivo de produzir edições de luxo de grandes autores da literatura brasileira ilustradas por artistas de renome. Em 1946, a Cem Bibliófilos publica uma nova edição da obra de Afonso Arinos, ilustrada pelo desenhista, ilustrador e gravador Livio Abramo. Pelo Sertão é uma das suas edições mais famosas, juntamente com Memórias Póstumas de Brás Cubas, ilustrada por Portinari. A Biblioteca Brasiliana possui um exemplar da edição, que conta com mais de 20 xilogravuras feitas por Abramo. 

O interessante é notar que Livio Abramo, ao reler a obra através das suas xilogravaruas, colabora também com mais um olhar sobre o sertão. As gravuras, organizadas à parte do corpo do texto, não possuem indicações sobre qual conto ou passagem ilustram. Dessa forma, é como se Abramo propusesse uma leitura mais livre dos doze contos, de maneira a ilustrar aquilo que veio à tona com a sua leitura. Mas a relação entre o texto e imagens existe: numa delas, por exemplo, é possível encontrar o momento que Joaquim Mironga se reúne com os outros trabalhadores a contar histórias. 

Mas a beleza das gravuras se dá justamente nesse trabalho tão particular do artista, que não abandonou seu traço em prol da coletânea – ao contrário, tornou-a ainda mais especial. Pode-se notar também que as gravuras ressaltam os momentos de movimento e tensão que tanto marcam os contos de Arinos, o que fica ainda mais ressaltado pelo forte contraste que é próprio da xilogravura. Nessa independência das gravuras em relação ao texto pode-se dizer que Abramo conta sua própria história do sertão. Com isso é possível dizer que ele e o autor do livro compartilham de um mesmo ponto de partida: pelo natural e pelo social, ressaltar a magia do lugar.

Referências Bibliográficas 

O espaço e o imaginário popular nos contos de Afonso Arinos. Bruna de Carvalho Teixeira Silva, 2008 – http://repositorio.ufu.br/bitstream/123456789/11791/1/Bruna.pdf
Franco, Afonso Arinos de Melo. Pelo Sertão. Rio de Janeiro: Cem Bibliófilos, 1946. 
____________ Pelo Sertão: historias e paizagens por Affonso Arinos. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898.

Gabrielle Gonçalves de Carvalho é graduanda em Letras (Português/Italiano) pela FFLCH-USP.

Curadoria

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