Júlia Lopes de Almeida, uma ilustre mortal

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por Patricia Freire do Nascimento

A primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL) foi Rachel de Queiroz em 1977, após 80 anos da fundação da instituição. A nomeação da escritora aconteceu no ano seguinte à alteração do Art. 17 do Regimento Interno da Academia, que restringia a eleição a “brasileiros do sexo masculino”. Grande parte dos argumentos de sustentação dessa norma se voltavam às origens da ABL, inspirada no modelo da Academia Francesa, que por sua vez também restringia seus ingressantes ao sexo masculino. Contudo, há de se considerar que no período de criação da instituição brasileira um dos importantes articuladores para sua fundação era uma mulher, Júlia Lopes de Almeida. O nome da escritora chegou a ser sugerido para o quadro de membros fundadores, os primeiros imortais, contudo, foi negado frente ao detalhe de origem francesa. A cadeira 3, então sugerida a Lopes, foi ocupada por seu marido, Filinto de Almeida, também escritor à época mas com trabalho considerado significativamente menos relevante se comparado ao da esposa. 

Júlia Lopes de Almeida nasceu em 1862, no Rio de Janeiro mas poucos anos depois, em 1869, se mudou para Campinas, no interior de São Paulo, onde passou o restante da infância e a juventude. Foi no interior paulista que também adentrou o mundo das letras. Inserida num ambiente familiar intelectual, o pai professor e médico e a mãe concertista e educadora, Lopes foi alfabetizada em casa e iniciou sua carreira aos 19 anos como jornalista na Gazeta de Campinas. Contudo, para além do jornalismo, ao longo de sua vida se dedicou à escrita de romances, novelas, contos, peças de teatro, ensaios e crônicas.

Em meados de 1880, Júlia Lopes se mudou para a terra natal de seus pais, Portugal, onde se casou com o escritor Francisco Filinto de Almeida e publicou seu primeiro livro de contos, Traços e Iluminuras, em 1887. No ano seguinte, já de volta ao Brasil, passou a escrever regularmente para jornais e revistas, além de publicar, no formato de folhetins, o seu primeiro romance, Memórias de Martha. A vivência internacional de Júlia Lopes, entretanto, não terminou com o retorno ao Brasil. Viajou à Europa várias vezes, principalmente à França, e também chegou a conhecer a África, tendo viajado a Moçambique, onde sua filha morou. Na volta da viagem que fez a Moçambique, Júlia Lopes contraiu febre amarela e, por complicações da doença, faleceu aos 71 anos na cidade do Rio de Janeiro.

Como mencionado, ao longo da vida ela escreveu para vários veículos de imprensa e manteve, por mais trinta anos, uma coluna semanal intitulada Dois dedos de prosa no jornal O País. Também foi importante contribuidora da revista A Mensageira, uma das principais publicações de reivindicação de direitos das mulheres no início da República. Trabalhando nesse meio durante importantes transformações da sociedade brasileira – no contexto do fim do Império e começo do regime republicano – Júlia Lopes sempre emitiu suas opiniões pró república e abolicionista, contra o sistema latifundiário e, sobretudo, sobre a necessidade da emancipação feminina. 

Crítica da situação social do Brasil, através de seus romances a autora costumava representar a sociedade sob várias perspectivas por meio de enredos, tramas e intrigas nos quais imprime posicionamentos políticos, ideológicos e religiosos próprios do momento retratado. Diferindo-se dos escritores homens desse período em relação aos assuntos de destaque em sua obra e sobre a visão que aplica a eles, Júlia Lopes deixou um legado rico no sentido de retratação da sociedade desde a abolição da escravatura até a década de 1930. 

Contemporânea de célebres escritores brasileiros como Aluísio de Azevedo, Coelho Neto e Olavo Bilac, além de colega de redação de Machado de Assis, a autora manteve sua produção escrita de forma incessante e foi bem reconhecida por toda a vida, sendo uma das escritoras mais publicadas no Brasil durante o período da Primeira República. 

Lacunas e esquecimento
Mesmo frente à sua importância no âmbito literário e da imprensa, após a morte da autora, em 1934, sua obra se viu refém do esquecimento, assim como a esmagadora maioria da produção literária feminina do século XIX e início do XX. Rarissimamente citada nos materiais didáticos ou de história da literatura brasileira, Júlia Lopes, para além da lacuna institucional que representou em relação à Academia Brasileira de Letras, também deixou de ser veiculada e publicada, após a sua morte, de forma proporcional à sua relevância. Esse esquecimento que recaiu sobre a escritora pode ser tido como ilustrativo da construção de um modelo literário que se desenvolveu ofuscando as mulheres escritoras, mesmo aquelas que escreveram e produziram em quantidade e qualidade equivalente aos autores homens imortalizados pela Academia e hoje considerados clássicos da literatura nacional.

Da mesma forma, ocorreu o ocultamento das abordagens e perspectivas próprias dessas mulheres sobre variados assuntos. O trabalho de Júlia Lopes, por exemplo, trata de modernização, das mudanças econômicas e sociais da virada para o século XX, de relações familiares e questões tangentes ao papel social feminino, à sua autonomia e às desigualdade e violências permanentemente sofridas pelas mulheres sob a perspectiva própria de uma mulher do século XIX e início do XX.

A redescoberta de Júlia Lopes e de seu trabalho, junto de outras autoras esquecidas no passado, aconteceu a partir dos anos de 1970, principalmente no meio acadêmico, nos estudos e pesquisas das áreas de Letras e Ciências Sociais. Em 2017, a Academia Brasileira de Letras, no ciclo de conferências Cadeira 21, homenageou a autora e reconheceu a injustiça por ela sofrida. 

Capa da primeira edição de A Falência

A Falência
A Falência, lançado em 1902, é um de seus romances mais reconhecidos pela crítica e pelo público. Fruto de um projeto de longa data da autora, uma versão inicial do que viria a se tornar esse romance já havia sido publicada anos antes, em formato de conto no livro Traços e Iluminuras (1897). O enredo se passa no Rio de Janeiro, então capital federal, nos anos finais do século XIX, no contexto do início do sistema republicano, do ciclo do café e da modernização urbana da região sudeste brasileira. 

Com características próprias das correntes realista e naturalista, a trama apresenta criticamente um núcleo principal de ambiente familiar social e financeiramente abastado, porém, disfuncional quanto às relações morais e afetivas consideradas ideais pelo modelo burguês então vigente. O chefe da família, Francisco Teodoro, se mostra extremamente materialista, muito preocupado com a expansão de seu patrimônio proveniente das negociações no ramo do café. A esposa Camila, ou simplesmente Mila, protagonista da narrativa, sem receber a devida atenção do marido o trai com o médico e amigo da família,  Dr. Gervásio. Este, por sua vez, vive separado da esposa por ela tê-lo traído.

A temática do adultério e da hipocrisia social que o cerca tem grande relevância na obra. Diferente de autores da época, Lopes discorre a trama tentando entender as ações de Mila, e não simplesmente condenando-a moralmente. Esse posicionamento crítico se estende também à protagonista, pois ela revela não gostar de livros sobre essa temática por considerar o triste fim sofrido somente pelas adúlteras injusto. 

A extrema violência contra a mulher justificada pela moral é outra temática abordada. Pode ser vista, por exemplo, no assassinato da mãe do Capitão Rino, homem apaixonado pela protagonista mas não correspondido. A mãe do capitão, pega no ato do adultério, é morta pelo marido, que não sofre represálias posteriormente: considerava-se que ele estava em seu direito. Histórias paralelas dessa natureza acompanham o desenvolvimento do enredo e são compostas por variados temas importantes e recorrentes à época.

Outros aspectos apresentados na obra sobre o papel feminino são a competência e a autonomia da mulher. Em meio à Crise do Encilhamento – crise econômica e institucional decorrente do plano de industrialização do início da República – o ambicioso marido da protagonista comete suicídio após perder o patrimônio em novos investimentos mal sucedidos. Frente a essa falência, as mulheres antes financeiramente dependentes de Francisco Teodoro passam a ser responsáveis pelo próprio sustento e cada uma, a sua maneira, passa a contribuir num novo núcleo baseado numa comunidade feminina.

Dedicatória de Júlia Lopes a João da Câmara

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Referências
FANINI, Michele Asmar. As mulheres e a Academia Brasileira de Letras. História, Franca, v. 29, n. 1, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-90742010000100020&lng=pt&tlng=pt . Acesso em: 20 out. 2020.
TREVISAN, Gabriela Simonetti. Subjetividades Inquietas: Normas e contracondutas femininas em Júlia Lopes de Almeida: A viúva Simões (1897) e Cruel amor (1911). Orientador: Dra. Luzia Margareth Rago. 2016. Monografia (Graduação) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2016. Disponível em: http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=001063969. Acesso em: 20 out. 2020.
LEMOS, Cleide. Apresentação. In: ALMEIDA, Júlia Lopes de. Ânsia Eterna.  2019. p. 7-17. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/559746/AnsiaEterna.pdf. Acesso em: 20 out. 2020.
SALOMONI, Rosane Sainti-Denis. A escritora / os críticos /a escritura: o lugar de Júlia Lopes de Almeida na ficção brasileira. Orientador: Dra. Rita Terezinha Schmidt. 2005. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/81773/000468879.pdf?sequence=1. Acesso em: 20 out. 2020.

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Patricia Freire do Nascimento é graduanda em Relações Internacionais pelo IRI-USP

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