“A João Guimarães Rosa”: Sertão e literatura na fotografia de Maureen Bisilliat

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Por: Carolina Freitas

A fotógrafa e cineasta Maureen Bisilliat é autora de uma vasta obra, que construiu registrando várias identidades brasileiras ao viajar pelo país. No livro “A João Guimarães Rosa – Fim de rumo, terras altas, urucúia”, de 1969, ela fez uma homenagem fotográfica ao escritor Guimarães Rosa e ao seu livro “Grande Sertão: Veredas”, assim como ao sertão mineiro. A artista explorou a relação entre literatura e fotografia em outras obras suas.

“Eu sou donde eu nasci, sou de outros lugares”: Manuel Nardy, vaqueiro que inspirou o personagem Manuelzão do livro “Corpo de Baile” de Guimarães Rosa

Grande sertão: de Maureen Bisilliat “a João Guimarães Rosa”

Em “A João Guimarães Rosa”, Bisilliat faz uma interpretação fotográfica da obra “Grande sertão: veredas”. No título, ela homenageou o escritor que havia morrido dois anos antes, em novembro de 1967, e tinha acompanhado parte do processo de formulação do livro.

Inspirada pela leitura do “Grande Sertão”, em 1963, Bisilliat entrou em contato com o autor, que a incentivou a fazer a viagem pelo sertão mineiro e até mesmo sugeriu os lugares para visitar pelo estado de Minas Gerais. Depois de cada viagem ela ia visitá-lo, levando suas fotografias e anotações, e assim eles conversavam sobre o sertão que inspirou o universo literário do autor.

“Senti meu cavalo como meu corpo. E os cavalos, vagarosos; viajavam como dentro dum mar.”
“A liberdade é assim, movimentação.”

A obra-prima de Guimarães Rosa ajudou a sedimentar a imagem do sertanejo, em um livro permeado por conflitos políticos e reflexões poéticas e filosóficas. No romance, o sertão não está apenas presente na naquilo que está descrito, mas também na escolha das palavras e na inventividade linguística do autor. “Grande sertão: veredas” trata da luta infindável entre bandos de jagunços. A narrativa é construída a partir das memórias de um ex-jagunço, Riobaldo, marcado pelos conflitos armados, mas sobretudo existenciais.

Partindo de citações que traçam o ponto de vista cultural deste narrador, Bisilliat traz fotografias retratando diferentes aspectos da vida sertaneja: Deus, vida, morte, natureza, família, casamento, festa… O livro da fotógrafa anglo-brasileira não se prende estritamente à narrativa ou aos personagens de Rosa, mas reinterpreta o sertão, que ele buscou representar em sua obra.

“Qualquer amor, já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

Se o livro de Guimarães tinha fama de “intraduzível” para outros idiomas – tendo algumas das traduções para outras línguas sido criticadas -, isso não impediu que fosse adaptado para outra linguagem: um trecho do Grande Sertão acompanha cada imagem do livro, revelando de onde a fotógrafa tirou suas inspirações.

“O barulho de coisas rompendo e caindo, e estralando surdo, desamparadas, lá dentro do Sertão!”

Estão no acervo da Brasiliana dois exemplares de “A João Guimarães Rosa”: a primeira edição, de 1969 e a segunda, de 1974. As edições foram impressas pela Gráficos Brunner, com algumas diferenças na ordem das fotografias, no contraste das fotos e na diagramação dos trechos. A maior diferença está na primeira edição, que traz quatro fotografias coloridas que não foram mantidas na segunda, nem na terceira edição, de 1979. No exemplar da BBM da segunda edição, há uma dedicatória da artista a José Mindlin: “Para José Mindlin: o sertão solitário e a minha gratidão, Maureen Bisilliat 31.12.1974”.

Outros “brasis” de Maureen

Maureen Bisilliat se fixou no Brasil antes de virar fotógrafa. Ela nasceu na Inglaterra em 1931 e veio morar no Brasil já adulta, em 1957. Filha de diplomata, viajou bastante durante a infância, o que continuaria a fazer como fotojornalista da editora Abril, na Revista Realidade, nos anos 60. Foi deixando para trás a pintura, meio artístico que estudou na Europa e em Nova Iorque. Como fotojornalista, passou a viajar e conhecer os diversos brasis, urbanos e rurais, do sul ao norte.

“Travessia perigosa, mas é a da vida. É o que eu digo, se fôr… Existe é homem humano.”

São destaques na sua ampla obra as parcerias com grandes escritores brasileiros. Publicou vários livros de fotografia na sua carreira ilustrando ou se inspirando em obras literárias situadas do mangue ao interior, do sertão de Minas ao nordeste. Na vertente da sua obra que lida com literatura publicou, depois de “A João Guimarães Rosa”, cinco livros. Quatro deles se encontram na biblioteca Brasiliana, são eles: “A visita” (1977), inspirado em um poema de Carlos Drummond de Andrade;  “O cão sem plumas” (1983), que partiu da obra homônima de João Cabral de Melo Neto e que traz fotografias de mulheres que catam caranguejos no mangue em uma cidade da Paraíba; “Chorinho Doce” (1995), cujas fotografias sensíveis do interior de Minas acompanham poemas de Adélia Prado e “Bahia Amada Amado” (1996) que contém textos de Jorge Amado.

Vale ainda mencionar uma obra que não está no acervo, mas que se encontra nesta temática: em 1982, Maureen publicou “Sertões: luz e trevas”, que associa “Os sertões” de Euclides da Cunha com sua fotografia de viajante pelos sertões do Brasil.

“Os homens enxergados tamanho de meninos, numa alegria, feito de núvens de abelhas em flôr de araçá, esse alvoraço.”

Outras viagens importantes na carreira da fotógrafa foram ao Xingu e geraram dois livros e um filme. A partir da década de 80, ela também se dedicou ao vídeo. Sua obra fotográfica conta com mais de 16 mil itens e faz parte do acervo do IMS.

Além de fotógrafa e cineasta, também atuou nos bastidores da arte, com destaque para seu papel como curadora e colecionadora. Em viagens por vários países, ajudou a formar o acervo de cerca de 4 mil obras de arte popular, que fazem parte do Pavilhão da Criatividade, da Fundação Memorial da América Latina. 

Dedicatória de exemplar da BBM da edição de 1974, da autora a José Mindlin

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Referências

BISILLIAT, Maureen. A João Guimarães Rosa: Fim de rumo, terras altas, urucúia. São Paulo: Gráficos Brunner, 1969.

BISILLIAT, Maureen. A João Guimarães Rosa: Fim de rumo, terras altas, urucúia. São Paulo: Terraíz, 1974.

BISILLIAT, Maureen. A João Guimarães Rosa. Blog do IMS. 24 set. 2013.  Disponível em: <https://blogdoims.com.br/a-joao-guimaraes-rosa-por-maureen-bisilliat/>

MAUREEN Bisilliat. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2141/maureen-bisilliat>. Acesso em: 02 de Dez. 2019. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7

GABRIEL, Ruan de Sousa. Flip 2019: Maureen Bisilliat conta como enveredou pelo grande sertão com dicas de Guimarães Rosa: Inglesa mergulhou nos ‘mundos dos autores’ incentivada pelo escritor em pessoa. O Globo. 11 jul. 2019. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/livros/flip-2019-maureen-bisilliat-conta-como-enveredou-pelo-grande-sertao-com-dicas-de-guimaraes-rosa-23798364>. Acesso em: 4 dez. 2019.

SEBASTIÃO, Walter. Fotógrafa britânica fala de Guimarães Rosa e as influências em seu trabalho. Uai. 17 ago. 2015. Disponível em: <https://www.uai.com.br/app/noticia/e-mais/2015/08/17/noticia-e-mais,170725/fotografa-fala-de-guimaraes-rosa-e-as-influencias-em-seu-trabalho.shtml>. Acesso em: 4 dez. 2019.

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Carolina Freitas é graduanda em Artes Visuais na ECA/USP.

Curadoria

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