O universo da gravura de Renina Katz no acervo da BBM

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Por: Pedro Perera

“Essa coisa de que o artista espera o ‘santo baixar’ e que ele vai ficar num estado de transe, de inspiração, que indica as soluções… prefiro ficar com Goethe, que dizia que 90% é transpiração mesmo, e o resto é inspiração. Para se chegar a um bom termo: técnica a serviço do imaginário”. (Renina Katz)

A coleção de obras da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin conta com um vasto acervo de trabalhos da multiartista Renina Katz. Trata-se de um conjunto muito representativo da sua longa trajetória de atuação: são diversas gravuras assinadas por ela desde a década de 1950 até a década de 1980, que evidenciam não somente a sua potente energia criadora em transformação, mas também a relação de proximidade e o forte apreço que o colecionador e bibliófilo José Mindlin tinha por seu trabalho. Não restam dúvidas de que em se tratando do universo visual criado por Renina Katz, desponta aos nossos olhos um teor poético que flui entre o engajamento social e uma espécie de lirismo que assume forma graças a sua capacidade singular de aliar a concretude do domínio técnico da gravura a uma (in)certa fluidez que perpassa sua subjetividade criativa. São múltiplas expressões da gravura que formam um corpo heterogêneo.

 

Geração do Pós-guerra 

Nascida em 30 de dezembro de 1925 no Rio de Janeiro, filha de imigrantes da Polônia que se conheceram no Brasil, Renina Katz Pedreira em diversos depoimentos se considera uma descendente da geração do pós Segunda guerra mundial, característica que segundo ela, marca todo um caminho de sua arte engajada. Estudou inicialmente na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde pôde entrar em contato com grandes nomes da gravura do país, mas foi a partir da forte influência de Axl Leskoschek e Carlos Oswald, no Liceu de Artes e Ofícios, que Renina se insere nessa produção. Além de artista plástica com exposições inteiras dedicadas à sua obra no Brasil e no exterior, Renina vai atuar também como professora por quase toda sua trajetória, ensinando em espaços de grande relevância, tais como no Museu de Arte de São Paulo – MASP, na década de 1950, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP por mais de 20 anos e no curso que viria a se tornar a Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP/SP.

Em um documentário dirigido por Olívio Tavares de Araújo, Renina nos conta um pouco do modo como as artes da gravura tomam corpo no Brasil partindo da sua própria experiência e aprendizado, o que também nos revela sua face de pesquisadora. Segundo a artista, a década de 1930 pode ser entendida como um momento importante de desenvolvimento da gravura no país, graças ao trabalho de artistas pioneiros tais como Raimundo Cela, Lívio Abramo e Carlos Oswald. Porém, é na década de 1950 que Renina vai ingressar nas artes da gravura em trabalhos acadêmicos durante a graduação, e logo após, ingressa no ateliê do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. O reconhecimento de Renina é tributário de um longo percurso de estudo e trabalho constantes, marcados também pela proximidade e pela influência de um sem-número de grandes artistas.

 

Gravura e Perplexidade

Sua produção inicial da década de 1950 é fortemente marcada pelo que ela chama de realismo social, contexto singular para as artes em São Paulo, sobretudo pelo surgimento da Bienal de Arte em 1951, que marca um ponto de inflexão no desenvolvimento da arte abstrata no país. Em sua obra há uma perplexidade e um interesse na denúncia da condição de subalternização das camadas mais pobres da sociedade brasileira, e é na xilogravura que Renina foca o seus trabalhos iniciais. Renina nos conta que fazer arte engajada nesse momento foi um grande desafio, sobretudo pela dificuldade em dialogar com o establishment da arte moderna em pleno (re)florescimento do abstrato.

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Trata-se de uma fase de abundante produção, na qual diversos temas são vivificados através do entalhe da madeira. Por um lado, o trabalho “Favelas” é uma mostra do interesse da artista em perscrutar a simplicidade do cotidiano carioca, por outro, em “Retirantes”, está presente o impacto do êxodo nordestino em direção ao sul do país a partir da observação dos passantes na antiga Estação do Norte, no bairro do Brás em São Paulo.

A gravura em metal é outro segmento no qual Katz vai atuar, trabalhando com as variações de técnica, tanto água tinta quanto água forte, que grosso modo consistem em impressões de matrizes de metal onde a imagem é gravada com auxílio de processos químicos de corrosão. Foi num ateliê de O Globo no Rio de Janeiro que Renina passou a trabalhar neste segmento, buscando posteriormente espaços alternativos.

Realizado no mesmo período, a série “O Romanceiro da Inconfidência” é uma obra de fôlego. Encantada pelos poemas de Cecília Meireles, Renina decide ilustrar a obra da escritora e para tanto elabora um conjunto com mais de 300 estudos em desenhos, que posteriormente resultam numa série de 80 gravuras em metal. Tarefa complexa, que levou quase um ano para ser feita. Por problemas de direitos autorais com a família de Cecília Meirelles, a obra não pôde ser publicada e foi mantida enclausurada por quase 20 anos. Graças aos trabalhos de restauração de Elsio Motta, grande parte da obra foi recuperada. Foi em 1975 que o colecionador e bibliófilo José Mindlin tomou conhecimento da coleção e pediu à Renina para que pudesse se tornar  o guardião e depositário das obras, com o intuito de salvaguardar as coleções, mantendo Renina como proprietária legal. Já amigos há algum tempo, o trabalho de Renina despertou forte atenção no colecionador, o que se reflete hoje num vasto acervo de obras da artista presentes na coleção da biblioteca.

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“Era 1956, por uma série de razões eu comecei a me perguntar, se eu, como artista, qual era o meu papel. Era fazer o que? Era melhorar o plano das sensibilidades das pessoas? Era transmitir algum conhecimento? E pra isso eu teria que ficar numa denúncia permanente? Mas aí eu descobri que a gente sempre acaba tendo uma posição política desde o momento que você assume o papel de artista”. (Renina Katz)

 

Lirismo de cores atravessadas

Série “Litogravura”

Na passagem da década de 1950 para 1960 observa-se que a denúncia engajada perde um pouco de espaço para dar lugar a obras que expressam maior tendência ao abstracionismo, mudança que evidencia transformações e revisões ideológicas internas de Renina. Pode-se falar então no despontar de um expressionismo, que toma conta de sua imagética na década de 1960. “Resolvi então fazer litogravura, porque das técnicas é a mais pictórica”. Em função desse processo de transição, o artista e crítico Arnaldo Pedroso d’Horta acredita que nesse momento Renina teria saído de uma cadeia aprisionadora para algo mais livre.

A litogravura consiste em impressões realizadas a partir de uma matriz de pedra calcária polida e entintada. Renina nos conta que seu contato com a técnica foi possível em parte graças à iniciativa de Elsio Motta de fundar o ateliê gráfico Ymagos de litogravura, que permitiu não somente o desenvolvimento da técnica como também a comercialização das obras. Ao se deparar com a produção das litogravuras de Renina, um olhar mais atento encontra uma complexa sobreposição de camadas de cores e texturas que criam quase um campo arqueológico em cada papel, o que demarca não somente espaços interatravessados em cada obra mas também tempos múltiplos de criação. Renina realiza suas litogravuras em várias matrizes e utilizando diversas cores, o que evidencia a complexidade e energia necessárias para colocar em movimento seus projetos.

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Renina parte também para experimentações em aquarela, ressaltando a suavidade de cores e transparências. Ela encontra na aquarela uma saída para a opacidade de sua litogravura e reveste suas obras de luminosidade e translucidez. O conjunto “Transfiguração”, assim intitulado por Carlos Drummond de Andrade, são 6 séries de gravuras realizadas por Renina inspiradas em um dos últimos poemas do autor, e nos dão uma mostra desse percurso de experimentação.

 

O projetado e o imprevisto

Poema de Drummond sobre Renina

Ao lidar com a abundante e instigante obra de Renina Katz, que desde a década de 1950 concebeu diversos trabalhos, fica evidente que a materialidade, seja ela do metal, da pedra ou da madeira, é revestida por uma estética subjetivamente singular. Suas obras denotam uma linguagem na qual intercambiam-se imaginário e manipulação dessa matéria. Nas palavras de Renina, é do encontro da tinta com a madeira, o metal e a pedra que se cria uma alquimia na qual tanto o projetado quanto o imprevisto “convivem” juntos.

A liberdade de criação e o domínio da técnica se relacionam na concepção: é uma arte do cuidado, para Renina o acaso é parte constituinte do processo, desde que as mãos e o olhar estejam dispostos a se apropriarem dos desvios e descaminhos no fazer artístico. Podemos entender a artista e sua obra como componentes de um pensamento visual que flui por diversos projetos e experimentações estilísticas e técnicas. Renina enquadra a gravura como a arte do percurso do vir a ser, e nesse sentido, são diversos os caminhos trilhados por ela. Seja através do entalhe da madeira, no qual a oposição do branco e preto confere contundência e dramatização às xilogravuras de cunho social, seja através da translucidez que Renina alcança com sua aquarela, a heterogeneidade de projetos e estilos permitem percorrer sua obra de variadas maneiras. 

 

Referências

Olivio Tavares de Araujo. “Gravura e gravadores”. Itaú Cultural. (Gravado de uma transmissão pela TV Cultura, na Década de 1990) https://www.youtube.com/watch?v=nnvgt3EegbU

ABRAMO, Radhá. Entrevista Renina Katz. Estudos Avançados 17 (49), 2003. pp. 287 – 302.

FRANGE, Lucimar Bello Pereira. “O lirismo de Renina Katz.” São Paulo: Instituto Arte na Escola, 2006.

MOTTA, Glória Cristina. “Arte em papel – O trabalho gráfico de Renina Katz”. São Paulo: Dissertação de mestrado, Faculdade Santa Marcelina, 2007.

 

Pedro Perera é graduando em História pela FFLCH-USP.

Curadoria

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