O cotidiano civil durante a Revolução Esquecida de 1924

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Por Letícia Favoretto de Souza

A Revolução Tenentista – ou também chamada Revolução Esquecida de 1924, por não ser um movimento muito conhecido, apesar de suas grandes proporções, – foi narrada dia a dia de forma bastante peculiar por Henrique Geenen no livro Aventuras de uma família durante a Revolução de 1924, publicado em 1925 com prefácio de Monteiro Lobato, capa de Belmonte e ilustrações feitas por Belmonte, Luffe, Mick Carnicelli, K. 1000 Bergenson e U. Delia Latta. Geenen na época era professor do Colégio Lyceu Anglo-Brasileiro, figura conhecida da intelectualidade paulistana e autor de obras didáticas como “Compêndio de Psychologia”, “Compêndio de Lógica” e “Pedro Jangadeiro – Contos e provérbios commentados”.

Durante 23 dias, entre 5 e 28 de julho de 1924, a cidade de São Paulo foi ocupada na revolta comandada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes com participação de muitos tenentes, como Joaquim do Nascimento Fernandes Távora, Juarez Távora e Miguel Costa. A revolta foi motivada pela cena política complexa, com agravamento de problemas sociais, crise econômica, autoritarismo dos governos no período da República Velha e pela concentração do poder político. Os militares reivindicavam maior independência do Legislativo e do Judiciário, limitações para o poder Executivo, fim do voto de cabresto, adoção do voto secreto e instauração do ensino público obrigatório.

 

Dia a dia de lazer obrigatório

Com os conflitos, muitos civis se retiraram da cidade de São Paulo e foram se refugiar no interior. Geenen, sua família e mais treze hóspedes permaneceram na cidade, numa casa localizada na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. Sobre isso e a concepção do livro nesse período, Monteiro Lobato escreve no prefácio que

Como permaneceu em S. Paulo durante o trágico mês de Julho do ano passado, aproveitou o lazer que a paralisação da cidade lhe impôs para notar dia a dia as suas impressões do momento.

Não saiu disso uma história da revolução, como já as há várias. Saiu um punhado de instantâneos psicológicos, pequenos quadros, anedotas, “croquis” impressionistas — cousa, emfim, que tem o mérito de não envelhecer, pois que o que ao vivo vivamente é tomado vivo permanece. (p. 08).

Esse punhado de coisas das quais fala Lobato, o autor as explica várias vezes no decorrer do livro, em comentários acrescentados quando o texto estava sendo editado: a princípio se tratava apenas de um diário que pretendia deixar para seus filhos e netos saberem como a família tinha passado pelos dias do conflito, não possuía intenções de publicá-lo. Os dias do diário se tornaram os capítulos da obra e, fora as anedotas e divagações no meio da narração, o autor afirma ter buscado criar os títulos que iniciam cada capítulo com charadas sobre os conteúdos que viriam a seguir.

A narrativa mais cotidiana e familiar mistura momentos mais descontraídos e até situações engraçadas com as tensões de se estar no meio de um combate, a evolução dos confrontos, o momento em que o autor percebe correr real perigo, a dificuldade de encontrar jornais e mantimentos à venda, os cortes de água e luz, os tiroteios durante as madrugadas e suas conversas com conhecidos que o visitavam ou que encontrava quando decidia dar um passeio pelas ruas próximas.

 

Entre duas trincheiras

Geenen começa a escrever seu diário a partir do momento em que soube que estourava uma revolução, com um recado sem muitos detalhes dado no meio de uma das aulas do colégio. A princípio ninguém sabia o que estava de fato acontecendo e o recado levou um tempo para ser levado a sério. Ainda no quinto dia da revolta comenta das dúvidas quanto a quem estaria ganhando a disputa: se seriam os tenentes ou as tropas legalistas federais. Apresenta a esperança de que a paz estava próxima com a vitória dos legalistas: “Qual será o futuro! Tudo é incerteza. Reina na família uma atmosfera de tristeza; mesmo as crianças, tão alegres a princípio começam a se aborrecer”   (p. 97).

Quando a revolta entrou no décimo-primeiro dia e os combates chegaram nas proximidades imediatas da casa, a família decide que seria mais seguro dormir no porão. É nesse mesmo dia que um aluno procura-o pedindo para se instalar com sua mãe também no porão da casa. “Aceitei, havia lugar ainda. Mas timidamente me disse que um amigo viria também — com a família. “Que venha” A família compõe-se de onze pessoas. Pois que as onze, mais os dois venham. Nós somos em três. Pois que todos venham!”  (p. 116).

A situação permanece nesse ritmo por alguns dias, com os combates ora intensos ora inexistentes, a família e seus treze hóspedes no porão, as preocupações e o desejo de retorno à normalidade junto com a determinação de permanecer na casa.

“Decididamente o perigo se aproxima de nós a passos de gigante.

A trincheira da entrada da rua Cubatão ainda distava uns cinquenta metros — mas agora está se construindo outra bem à porta da chácara, na rua Manoel Nóbrega […]. Um pequeno erro de pontaria de alguns metros e eis que balas, obuses, bombas, granadas ou que valha seriam os nossos hóspedes nada bem vindos e que todos nós dispensaríamos.

O nosso “fico” ou melhor “ficamos” nem por isto vacila. Alguns hóspedes do porão, os mais moços, vão ajudar na construção da trincheira.” (p. 166)

 

Manoelito con sus ocho hijos

No confinamento dentro da casa, o autor continua relatando o desenvolvimento do conflito e o cotidiano de sua família. Agora com mais treze hóspedes, aparecem na narrativa momentos em que diversos tipos de histórias eram contadas como forma de passar o tempo. Entre os hóspedes está Dona Conchita, uma velhinha de oitenta e três anos, que aparece várias vezes nesses momentos com a mesma história de seu filho Manoel: “morrieram na grippe il hijo Manoelito con ocho hijos i la mujer” (p. 156)

Esta história se torna um marco na passagem dos dias: nos dias calmos e bons em que conseguiam até se divertir e esquecer por alguns momentos dos tiroteios e das granadas, Dona Conchita se esquecia também de contar a história de Manoelito con sus ocho hijos; nos dias de tensão, Dona Conchita voltava a repetir diversas vezes a história triste.

 

Rumo ao fim

No vigésimo dia da revolta Henrique conta de um tiroteio horrível próximo da casa durante a noite e que se a família tivesse sido testemunha de uma barulheira como essa logo nos primeiros dias da revolta, com certeza não teriam ficado na casa  e sim buscado algum abrigo mais seguro, correndo o risco de ficarem na beira da estrada sem proteção como aconteceu com vários que se retiraram.

Mas também nesse dia surge de novo a esperança do fim da revolta por dois motivos: primeiro que o prefeito da cidade, Dr. Firmiano Pinto, estaria de partida para o Rio de Janeiro para buscar a melhor maneira de defender os interesses da capital e de seus habitantes; segundo, as notícias dos jornais que conseguiam estavam sendo, segundo ele, censuradas pelos revoltosos, dando-lhes mais vantagens do que realmente teriam. Neste dia em específico fala que

Os jornais trazem um manifesto do chefão, que prova a evidente fraqueza da revolução.

Prometem-se fundos e mundos aos que se alistaram, paga-se arame grosso aos servidores da causa! dar-se-á um lote de terreno… Isto tudo prova que há falta de gente, é uma isca para os bobos. Ora bem diz o provérbio: o pobre desconfia quando a esmola é grande (p. 206).

Quando o combate chega ao vigésimo-terceiro dia, Geenen conta que às 14h passaram dois aeroplanos sobre a cidade jogando papéis cujo conteúdo era assustador: um manifesto do general Setembrino avisando que será obrigado de bombardear a capital do Estado de São Paulo e pedindo que a população se retire. A família permanece, com um plano de se abrigar no porão e fazer uma espécie de trincheira com livros.

Esse medo chega ao fim poucas horas depois. Às oito e meia da noite chega um Barão austríaco sr. Sch. anunciando a paz, não sabia quem havia ganhado o combate, acreditava que teriam sido os revoltosos. Logo em seguida chega para a conversa um filho de um deputado federal afirmando a vitória legalista e a retirada dos revoltosos para o interior. Surgiram vários boatos que ninguém conseguia distinguir serem verdadeiros ou não naquele momento, mas todos estavam eufóricos com a notícia da paz.

 

Desfecho do combate

Os rebeldes não dispunham de poderio militar equivalente ao das tropas legalistas do governo federal. Após três semanas de conflito, 3,5 mil homens ficaram acuados e partiram para Bauru. Os rebeldes foram derrotados. Parte dos sobreviventes tenentistas se juntaram aos oficiais gaúchos da Coluna Prestes (1925-1927), em Foz do Iguaçu, no Paraná. O saldo dos 23 dias de revolta foi de 503 mortos e 4.846 feridos, na maioria civis. O número de desabrigados passou de 20 mil.

 

Primeiros dias depois da Revolta

Henrique finaliza seu livro com um capítulo em que narra brevemente os dias 29, 30 e 31 de julho. Conta também das “pás em atividade” para desenterrar os defuntos mal enterrados, como as autoridades quiseram tirar proveito dos grupos de escoteiros para realizar esse serviço e os protestos contra essa atitude já que “não convém expor meninos de doze a quinze anos às exalações mefíticas de cadáveres em meia putrefação” (p. 242).

Diferente do restante do livro, são dados ao leitor poucos detalhes dos acontecimentos que se seguiram. Com isso Geenen finaliza suas aventuras: “Neste capitulo ou o que valha há mais títulos do que texto: é como nos exércitos onde ha mais oficiais do que soldados” (p. 243).

 

Referências

GEENEN, Henrique. Aventuras de uma família durante a Revolução de 1924. São Paulo, Homero & Comp, 1925. Disponível em

<https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4926

SÃO PAULO (Estado). Assembleia Legislativa. A Revolta de 1924 e o Parlamento Paulista. Informativo da divisão de Acervo Histórico. São Paulo, ano III, n. 13, julho/agosto, 2017. pp. 9-11. Disponível em

<https://www.al.sp.gov.br/acervo-historico/publicacoes/Informativos/informativo_0013.pdf>

 

Letícia Favoretto de Souza é graduanda em História pela FFLCH-USP.

Curadoria

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