Existência Yanomami e Claudia Andujar em três obras

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No acervo da BBM podem ser consultados três livros publicados na década de 70 que dão uma boa amostra do momento inicial da trajetória da fotógrafa Claudia Andujar, do refinamento técnico do seu trabalho e, sobretudo, do grande interesse político, histórico e antropológico que Andujar faz dos índios Yanomami: Amazônia (1978), Yanomami (1978) e Mitopoemas (1979). Embora ao longo da sua carreira de mais de seis décadas ela tenha abordado outros temas, o seu registro desses grupos indígenas que é a espinha dorsal do seu trabalho, e inevitavelmente, também é sua militância política pela causa dos Yanomami, na defesa de suas terras e cultura.

Andujar é brasileira naturalizada desde 1975. Nascida na Suíça em 1931, criada na Romênia e Hungria, e expatriada para o Brasil aos 24 anos depois de fugir da guerra e da perseguição aos judeus para os EUA. Tendo passado a maior parte da sua vida em uma condição permanente de estrangeira, começa a fotografar e viajar pelo país como uma maneira de conhecer seu entorno e se aproximar das pessoas mesmo sem ter domínio do português. Não muito depois começa a publicar em revistas de grande circulação nacionais e estrangeiras, e entrar em acervos de museus. O antropólogo Darcy Ribeiro, seu amigo, ainda em 1958 sugeriu que Andujar visitasse os índios Karajás na Ilha do Bananal (TO), e este foi seu primeiro contato com um povo indígena.  Nas suas palavras, “foi a partir dessa experiência que eu vi que talvez eu pudesse usar a fotografia como profissão [algumas dessas imagens foram compradas pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, e também publicadas pela revista Life]. Depois disso eu também visitei os Bororo e os Xikrin Kayapó, antes de chegar nos Yanomami”.

 

Amazônia [em colaboração com George Love], 1978

 

Andujar teve seu primeiro contato com os índios Yanomami no começo dos anos 70, graças a uma pauta da Revista Realidade, onde trabalhava como correspondente. A revista planejava uma edição especial dedicada à Amazônia, lançada em 1971. Com o receio de serem barradas pela censura da ditadura militar (afinal, estava em andamento o Plano de Integração Nacional do governo Médici), os editores a princípio pediram que Andujar não fotografasse os índios, uma vez que estava justamente na área de construção da estrada transamazônica, mas no fim ela produziu retratos tão contundentes dessas comunidades que foram publicados mesmo assim, ganhando destaque até na capa, e as fotos tiveram grande repercussão. 

“Eu ficava encantado principalmente com as aberturas. Diferente da revista Life ou da Cruzeiro, a Realidade não tinha uma diagramação rica, ela sabia fazer uma belíssima abertura que me impressionava muito. Era sempre associar uma imagem, uma foto geralmente em página dupla, com um título que fazia um jogo com a imagem”. Cristiano Mascaro, fotógrafo, no vídeo ““A Realidade de Claudia Andujar” de Jorge Bodanzky.

Detalhe da capa

Depois desse trabalho, Andujar decide abandonar o fotojornalismo e realmente se dedicar a conhecer os Yanomami e produzir um trabalho de registro mais autoral. Consegue em 72 uma bolsa da prestigiada Fundação Guggenheim dos EUA, que possibilitou que ela morasse junto dos índios nas suas aldeias e voltasse várias vezes, inclusive acompanhada de George Love, também fotógrafo e então marido. Love trabalhava com técnicas fotográficas experimentais (uma delas é uso de filmes infravermelhos*), e como editor do livro essa experimentação aparece nas páginas espelhadas, no uso das pontas queimadas dos filmes e nas próprias cores.

Em Amazônia está o resultado das viagens e convívio, em uma espécie de narrativa que começa com fotos aéreas da região e vai se aproximando da terra, até chegar nos Yanomami, com imagens que se afastam dos valores descritivos do fotojornalismo e compõem um retrato de um lugar e seus habitantes por meio de manchas de cor e composições pouco ortodoxas. O projeto gráfico foi feito pelo artista Wesley Duke Lee e deveria fazer parte do livro um texto do poeta amazonense Thiago de Mello chamado “Amazônia – pátria das águas”, que foi censurado.

As fotografias de paisagem foram feitas no Amazonas, Pará, Roraima e Amapá e os Yanomami são da região de Roraima.

 

* Filmes infravermelhos coloridos têm sensibilidade à luz infravermelha, que fica no espectro vermelho de luz e é invisível ao olho humano. Suas imagens mais icônicas são de vegetação verde que se transforma em um magenta muito vibrante.

Yanomami, 1978

 

Livro que reuniu pela primeira vez as fotografias de Andujar feitas no tempo em que ela viveu em aldeias Yanomami. As fotos preto e branco feitas muitas vezes com a pouquíssima luz das malocas e da floresta registram caças, rituais xamânicos, o cotidiano de grupos Yanomami.

“Entre 1971 e 1977 eu fiquei morando lá. Eventualmente eu voltava para cá, mas a minha vida era lá. Depois disso eu fui expulsa pela Funai e pelos militares, então eu tive que voltar para São Paulo. Em 1978 eu tive que recomeçar a minha vida aqui. Foi muito difícil no começo. Foi quando comecei a editar esse trabalho para fazer um livro, que saiu no mesmo ano do Amazonas [feito em parceria com George Love]. Eu procurava colocar no livro quem são os Yanomami”. Entrevista no site “O índio na fotografia brasileira”

Em comparação aos trabalhos futuros de Andujar ou mesmo com Amazônia, este primeiro livro é bastante descritivo. Mais tarde surgiriam fotos em que Andujar às vezes sujava as bordas da lente de vaselina, usava filmes de alta sensibilidade em longas exposições que transformavam pontos de luz em rastros e corpos em movimento em vultos ou sobrepunha fotos (múltiplas exposições), etc. Neste caso, aparece mais o olhar aproximado de quem vivia com os Yanomami e desejava mostrar ao mundo algumas de suas histórias, que acompanhavam as fotos em textos curtíssimos como “O NORAMI, princípio vital, é a imagem espelhada. É a sombra refletida na água. É um retrato que quando você morre deve ser queimado”.

Apesar de ter testemunhado e reunido muitos registros do impacto nos Yanomami da construção de estradas como a Perimetral Norte e do contato com pessoas externas que geraram surtos de sarampo e muitas mortes, a proposta neste livro era diferente, até pelo seu caráter inaugural. Como na época os grupos praticamente não eram conhecidos, assim como seus costumes, havia por parte de Andujar a intenção de acompanhá-los na sua rotina e produzir registros dessa observação e convívio. Mas a sombra do contexto ronda cada uma das fotos; a dedicatória do livro ao pai que morreu no campo de concentração de Dachau na Alemanha coloca essa aproximação das fotos do genocídio e da violência e ao final, um testemunho de Darcy Ribeiro deixa a situação muito clara:

“Só sei que, no Brasil de hoje, por algum critério misterioso, o fato dos Yanomami viverem há milhares de anos naquelas matas não gera direito algum de nelas permanecer. Sei também que a sociedade nacional que se expande sobre os Yanomami, sendo regida pela lei da pecúnia, aprecia mais o gado bovino que a gente humana. Tanto, que entre criar mais algumas fazendas latifundiárias na floresta abatida ou reservar para os brasileiros do próximo milênio uma mostra intocada da natureza amazônica – dando ao mesmo tempo aos Yanomami o espaço e o tempo que necessitam para se adaptar às condições de vida que lhe são impostas – preferiram a expansão latifundiária”.

 

Mitopoemas Yãnomam, 1979


 

“Em 1974, a fotógrafa Claudia Andujar completou uma documentação sobre os índios Yãnomam [grupo linguístico da família Yanomami] , no território de Roraima, na região do médio e alto Catrimani. A fotógrafa, em seguida, ampliou o seu trabalho, solicitando dos indígenas desenhos de seu habitat, bichos e objetos de seu mundo. Os indígenas ignoravam o uso de lápis (hidrográficos, no caso) e papel; Diante de estímulos visuais e com adestramento elementar, três deles (os índios Koromani Waica , Mamoke Rorowe, Kreptip Wakatautheri ) passaram a projetar visualmente personagens e situações de seu espaço mítico. A medida que terminavam seus desenhos, os descreviam verbalmente. Essas descrições reconstruíram aspectos e fragmentos fundamentais de uma cosmogonia Yãnomam. As descrições orais foram gravadas e traduzidas pelo missionário Carlo Zacquini, IMC, que vive com os Yãnomam, há mais de dez anos.

Esses mitopoemas, uns mais acabados que outros, não pretendem representar uma visão completa da mitologia Yanomami. É provável haver divergências entre por exemplo, os mitos Yanomami do alto Orinoco e os do rio Catrimani. Ressalta neles todos, porém, uma raiz comum, considerada inclusive a personalidade própria de cada narrador. As descrições gravadas receberam tradução literal para o português . Sobre esta tradução foram feitas transcrições literárias apresentadas, neste livro, em português, italiano e inglês”. Apresentação do livro

Talvez seja um tanto discutível chamar de literárias e organizar como poemas as falas traduzidas dos três Yanomami que estavam simplesmente descrevendo uma visão de mundo, e que não precisam ser caracterizadas dessa forma para terem valor. Apesar disso, não deixa de ser uma oportunidade de saber dos próprios Yanomami a sua cultura, havendo o cuidado de inclusive reunir termos não traduzíveis do seu idioma em um extenso glossário.

O projeto gráfico do livro é de Emilie Chamie, e em meio às reproduções dos desenhos e os textos nas três línguas, surgem algumas lâminas com fotos de Andujar impressas em plástico transparente. Nessas fotos, predominantemente escuras ou pretas, o elemento de transparência costuma ser o próprio índio Yanomami, o que acaba formando uma imagem significativa quando se vê através dele, suas ideias sobre o mundo em texto e desenho.

 

O Fim do mundo

Tudo acaba

Desaparece o céu.

Cairá com todos o napèpe 

Tudo acaba

Tudo cai, indo para o fundo

Tudo cai e acaba

Esta cama fina do céu, que está em cima, descerá

o céu irá para o fundo

Todos choram muito

Todos os napèpe caem

Tudo acaba

Depois não terá mais Yãnomam

Os pés do céu

lá um pé do ceu é finado

 

(napèpe  é um não-Yanomami, habitantes da floresta e inimigos)

 

Territórios e grupos Yanomami, no Brasil e Venezuela (2014). Instituto Socioambiental.

REFERÊNCIAS

ANDUJAR, Claudia. LOVE, George. Amazônia. São Paulo: Editora Práxis, 1978.

ANDUJAR, Claudia. Yanomami. São Paulo: Editora Práxis, 1978.

_______. Mitopoemas Yãnomam. São Paulo: Olivetti do Brasil, 1979.

BONI, Paulo César. “De passado turbulento a ativista com causa”. Discursos Fotográficos. Londrina, v.6, n.9, p.249-273, jul./dez. 2010

CLAUDIA Andujar Yanomami: a etnopoética da imagem. IN: O Índio na fotografia brasileira. Disponível em http://povosindigenas.com/claudia-andujar/ 

LEITE, Marcelo . Anais do VIII Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual: arquivos, memorias, afetos . Goiânia, GO: UFG/ Núcleo Editorial FAV, 2015.

MONJABOSCO, Ângelo. “O fotolivro “Amazônia” e o enigma da ponta de filme”. IN: Revista ZUM. São Paulo, 2018. Disponível em https://revistazum.com.br/livros/amazonia-andujar-love/

VÍDEOS

Provocações, com Antônio Abujanra (abril 2011)

“A Realidade de Claudia Andujar”, um minidocumentário de Jorge Bodanzky 

Cris Ambrosio

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