Raridades da poesia marginal

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Alguns dos livros disponíveis para consulta na BBM, em sentido horário: Jardins da provocação de Claudio Willer (1981), Me segura q’eu vou dar um troço de Waly Sailormoon (1972), Mar de Mineiro de Cacaso (1982), 26 poetas hoje de Heloísa Buarque de Hollanda (1975), Passatempo de Francisco Alvim (1974), Literatura não é documento de Ana Cristina César (1980), Jornal Dobrabil de Glauco Mattoso (1981) e Os últimos dias de paupéria de Torquato Neto (1982). 

Se houvesse um levantamento dos livros que despertam mais curiosidade no acervo de qualquer biblioteca de livros raros, não seria arriscado apostar que as edições mais antigas, com encadernações sisudas, ilustradas por artistas conhecidos e contendo dedicatórias ou anotações de autores famosos seriam maioria. Critérios assim acabam abrangendo uma parte significativa dos volumes mais importantes, mas muita coisa acaba sendo ofuscada, em geral por não terem sido feitas para ficar lado a lado com esses medalhões. Entre os despercebidos estaria, por exemplo, um nicho inteiro da literatura brasileira, por não contemplar nenhum desses critérios de sofisticação material ou mesmo aquilo que era tido como boa literatura ou bom gosto. Daí o nome de poesia marginal atribuído a publicações principalmente dos anos 70 e 80, que tensionavam as definições de literatura e do formato livro.   

O termo veio da coletânea 26 poetas hoje organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, a pedido da editora espanhola Labor em 1975, e o nome acabou ficando depois da repercussão obtida. Ele, no entanto, não designava um grupo homogêneo adepto a formas fixas ou temas específicos, uma vez que autores de várias idades, regiões e repertórios se voltavam a diferentes assuntos e não tinham os mesmos graus de preocupação com o tratamento da linguagem, a qualidade material dos livros, ou rejeição ao mercado e à literatura consolidada. Há quem diga que trata-se de uma literatura de jovens para jovens, despojada, fácil, mas não necessariamente. Roberto Piva não fez poesia fácil, e os modernistas não são vistos como marginais por usarem coloquialismos. Da mesma forma que nem todos os autores planejavam e imprimiam seus livros com seus próprios recursos e depois iam vendê-los em portas de teatro e vez ou outra arremessá-los por janelas – a chamada “geração mimeógrafo”, pelo método de produção. A editora de Massao Ohno, por exemplo, era uma das que lançavam esses livros. Tampouco esses autores tinham em comum uma marginalidade social propriamente dita; Ana Cristina César era crítica, tradutora, estudou na Inglaterra. A tal marginalidade deve ser entendida, então, como ambígua e figurada.

 

A academia gosta muito de classificar o poeta, e coloca num escaninho, como para esquecer… Identificou, classificou, pronto. E todas as características identificadas naquele movimento passam para o poeta. Então, se sou um poeta marginal, devo escrever como se fala, distribuir meu livro de mão em mão, publicar em mimeógrafo… Não é isso. A categorização é da academia, às vezes me preocupa querer sair desse museu. (O poeta Chacal em entrevista a Ramon Mello, 2011)

 

Os traços que talvez aproximem esses autores sem simplificá-los ou achatar suas diferenças seja o recorte de tempo (pós-tropicália) e os meios de publicação alternativos às grandes editoras. Enquanto o grande mercado editorial evitava publicar certos conteúdos tanto por preferência estética como por receio de lançar livros que depois seriam apreendidos pela censura da ditadura militar, os autores também evitavam o escrutínio de editores pouco abertos a experimentações. Havia ainda a possibilidade do corpo a corpo com os leitores, e o contato direto com a produção dos livros e a sua distribuição, resgatando o aspecto da literatura de estabelecer relações que a produção  industrial em grande medida encerrou.

 

Impressões

 

A geração mimeógrafo surgiu como uma opção, dentro dos 3 grandes blocos de poesia de vanguarda no início dos anos 70; a geração mimeógrafo surgiu como os “não-alinhados”, só escrever não basta. Escrever é a ponta do Iceberg, “um poeta não se faz com versos” dizia Torquato Neto. A atitude do poeta como parte do poema, atitude ética x atitude estética. Pinta aí uma ligação afetiva muito grande, o poeta imprime e monta seu livrinho, um pedaço dele tá dentro de cada livrinho, a presença física do poeta é exigida para que o seu livrinho circule. Essa é a prova de fogo de nossa geração. É a nossa fase heroica. Pode pertencer à geração mimeógrafo um poeta que sempre imprimiu seus livrinhos em off-set, xerox, fotocópia. Geração mimeógrafo é antes de mais nada uma atitude. Fazemos parte da geração do atalho, vamos pelo desvio e burlamos todo o esquema editorial montado em cima do livro. Quando se edita um livro em mimeógrafo o autor tem condições de manter seu trabalho vivo, pois pode modificar seu livro a cada edição. Um livro sempre aberto, sempre inacabado. Quando um poeta vende seus livrinhos por aí ele encurta para zero a distância entre poeta e público, entre a poesia e a vida. Existe um certo preconceito contra o mimeógrafo ao assumirem a produção gráfica do seu trabalho estão também levando o ato de fazer poesia às últimas consequências. Esse tempo em que o poeta vende seus livrinhos em bares, portas de teatro, como já disse, é a sua fase heroica, em que o poeta leva muita porrada, mas que deixa saudades, podes crer. (Nicolas Behr, poeta)

 

Em O que é poesia marginal? (1982) o poeta Glauco Mattoso coloca uma análise feita pelo artista e pesquisador Julio Plaza sobre a repentina oferta de equipamentos para produções caseiras. Segundo ele, a mudança do parque industrial gráfico para o interior fez com que as máquinas de impressão tornassem disponíveis dentro dos centros urbanos, além do surgimento das impressoras e copiadoras domésticas. Daí surge o material gráfico xerografado, mimeografado. O aparecimento dessas tecnologias foi muito importante para a literatura, mas também para as artes plásticas, que tiveram suas possibilidades de criação multiplicadas, e a veiculação de trabalhos sem intermediários como editoras ou galerias era uma ideia não só atraente, mas coerente com o contexto artístico dos anos 70.

vinicius

Do livro “De como se faz um louco”, de Vinicius (Espaço Bleff, Salvador, 1987)

Rede de comunicação

 

Algumas décadas antes dessas publicações de poesia repercutirem no Brasil, já era corrente no âmbito das artes plásticas, no eixo EUA-Europa Ocidental, uma produção que para evitar uma assimilação rápida de um mercado de arte já recuperado da  2ª Guerra Mundial, recusava os parâmetros tradicionais de arte; uma antiarte. Os Parangolés de Hélio Oiticica (fim dos anos 60) são uma expressão dessa tendência: objetos sem valor técnico ou material algum que são “ativados” pelo manuseio e movimento; sem essa relação de toque e ação, os objetos não fazem sentido.

Uma postura semelhante também se estendia para impressos, havendo nos anos 70 uma efervescência de trabalhos de arte alheios aos formatos tradicionais, em papel, folhetos ou pequenos livros produzidos em baixa tiragem artesanalmente, com ampla utilização de texto. A mail-art, ou arte postal ou ainda arte correio, assim como a poesia marginal, é definida com dificuldade. Porém, uma intenção principal por trás de produções tão diferentes unia esses artistas: formar uma rede de comunicação direta, que na maioria das vezes se utilizava dos correios.

behr

Nicolas Behr. Do catálogo da XVI Bienal de São Paulo – 1981.

Em 1981 a Bienal de São Paulo teve um braço inteiro voltado para a arte postal. Entre os artistas da mostra estava Nicolas Behr, poeta muito ativo no circuito de poesia marginal, que no catálogo aparece em uma fotografia ao lado do seu mimeógrafo. Há portanto, já naquela época, um esforço da curadoria de Julio Plaza aproximar essas tendências e valorizá-las. O ambiente de validação da Bienal – entre outros – chancela, no entanto, objetos que foram feitos para o manuseio e para a deterioração, criando a necessidade de preservar e isolar esses materiais que de repente ganharam valor de mercado. E uma vez dentro de um acervo, devem ser tratados em pé de igualdade com pinturas ou esculturas; aumentando mais ainda a quantidade de pessoas que podem ter acesso a esses trabalhos, mas também modificando sua intenção inicial.

Algumas leituras:

 

Torquato Neto

Go Back

Você me chama
Eu quero ir pro cinema
você reclama
meu coração não contenta
você me ama
mas de repente a madrugada mudou
e certamente
aquele trem já passou
e se passou
passou daqui pra melhor,
foi!
Só quero saber
do que pode dar certo
não tenho tempo a perder

você me pede
quer ir pro cinema
agora é tarde
se nenhuma espécie
de pedido
eu escutar agora
agora é tarde
tempo perdido
mas se você não mora, não morou
é porque não tem ouvido
que agora é tarde
– eu tenho dito –
o nosso amor michou
(que pena) o nosso amor, amor
e eu não estou a fim de ver cinema
(que pena)

(em: Os últimos dias de paupéria, 1973 [póstumo]. Organizado por Waly Sailormoon. Eldorado, Rio de Janeiro)

Cacaso /Antonio Carlos de Brito

REFLEXO CONDICIONADO

pense rápido:

Produto Interno Bruto
ou
brutal produto interno
?

(em: Grupo escolar, 1974. Frenesi, Rio de Janeiro)

Ulisses Tavares

REFAZENDO

para Léia Cardenuto

a ausência do soco
reforça o punho,
a falta do chicote
atiça o domador,
a despensa vazia
aguça a língua,
a supressão da palavra
aviva o discurso,
a imprevisão do certo
devolve o inexorável,
a abstração do corpo
prepara o repartir,
a descoloração da rosa
reintegra a paisagem,
a andança no charco
redescobre a terra firme,
a pororoca do medo
desperta a coragem,
a recusa da garrafa
retorna o vinho,
a cortada do caule
reforça a raiz,
a supressão do canto
reinventa o verso,
a despedida do vôo
refaz o arremesso,
a solidão aberta
reescreve o amor.

(em: Pega gente, 1978.  Núcleo Pindaíba, São Paulo)

Cláudio Willer

PELOS 40 ANOS DA MORTE DE GARCÍA LORCA
(1936 / 1976)

Eu vi pouca coisa nos jornais & revistas sobre os 40 anos da morte de García Lorca
algumas manifestações e homenagens & uma notícia interessante (na Veja)
detalhando as circunstâncias – só isso
o resto, notas esparsas perdidas nos textos
quase ninguém lembrou
passou despercebido
ninguém disse nada
ninguém quis lembrar
porque as pessoas não querem mais lembrar
e desistiram de falar
pois esta é a era do silêncio
silêncio de covas rasas e túmulos lacrados e circunscritos
silêncio vigiado e preso
silêncio de poeiras há pouco assentadas
pois todos estão mudos e perplexos
alguns mortos incomodam demais
e ninguém quer saber
ninguém quer ver
ninguém quer saber o que tem a ver
apenas este silêncio selado esponjoso grávido
de escorpiões & maresias & tempos & memórias
& vítimas do fascismo
silêncio sem preces nem retaliações
silêncio de palavras costuradas
sexos guilhotinados
uivos espalhados pelas madrugadas
silêncio fantasiado de escafandrista
silêncio de pupilas desorbitadas
tímpanos perfurados unhas arrancadas
gritos em corredores estreitos
jorros de silêncio naufrágios de silêncio
silêncio de cascos estilhaçados de tartaruga
desabando sobre o mundo
silêncio sobre o que foi
o que é
e o que se sabe
silêncio com endereço certo e data marcada
silêncio vômito do tempo e ejaculação precoce
silêncio de feltro
estiletes & punhais dentro da noite
& anteparos & mesas cirúrgicas
& corpos & anêmonas & brônquios
& sangue recém-coagulado pelas paredes
silêncio maior que o mundo e mais pesado que o tempo
silêncio de eletrodos & poções mágicas
silêncio de sorrisos oblíquos
rostos cúmplices
olhares de viés
silêncio conivente e sussurrado
silêncio fantasma à cabeceira
passos de silêncio
atmosferas de silêncio
perseguições na quietude do tempo presente
convulsões inesperadas
silêncio carregado de alucinações
que nos perseguem encapuzadas
silêncio de vértebras e rins e palavras ocultas e soterradas
e vigiadas
junto ao corpo de Federico García Lorca
assassinado por alcaguetes e tropas fascistas
em um campo de Granada em agosto de 1936
desde então ciosamente guardado
por uns poucos fantasmas carcomidos e fosforescentes
para que ninguém chegue perto
e tenha a coragem de romper o lacre
e soltar as palavras
a serem lançadas contra a opacidade do mundo
…………………………………………………………………………………
e acharam tudo muito bonito
gostaram demais dos textos
de fato, era um grande poeta
e ficou por isso mesmo

(em: Jardins da provocação, 1981. Massao Ohno–Roswitha Kempf, São Paulo)

Ana Cristina César

ESTE LIVRO

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

(em: Inéditos e Dispersos, 1985 [póstumo]. Brasiliense, São Paulo)

Vinicius

IRA DE UM 295.9

pega teu amante e descasca com gilete
deixa ele mudo
tritura tudo com ira feroz
que ele é teu algoz

não te arrependas
lúcifer te derás prendas
deixa de ser parvo e caga nu sobre o mundo

pega tua mãe e amola na faca
antes que ela o faça

pega ela
a durona
sem qualquer pressa
sem ira nenhuma

lúcifer te recompensa

não esqueça
a “mãe que afaga é a mesma que apedreja”
assim seja

(em: De como se faz um louco, 1987. Espaço Bleff, Salvador)

Cris

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